Diarios de Heckert - Imagens e relatos irados da trip mexicana da big rider

Raquel conta como foi a luta para conseguir viajar, os perrengues dentro e fora d’água e a felicidade de surfar dias de ondas perfeitas


A busca por patrocínio

Eu já estava um bom tempo buscando patrocinadores para conseguir viajar para treinar tubos em ondas grandes, antes de ir para os campeonatos e treinos no Havaí, mas com a crise no Brasil nos últimos tempos este trabalho tem sido mais árduo. Mas como Deus tem provado para mim que nada é impossível, para minha alegria, 7 dias antes da data que eu idealizei estar no México, ganhei um "patrocínio" de passagem da empresa @livetalentos de ida e volta para o México.

Raquel Heckert. Foto: arquivo pessoal.

Raquel Heckert. Foto: arquivo pessoal.



O começo da viagem

Minha viagem para o México já começou com o botão de aventura ligado. Fui para São Paulo conhecer a empresa, e passei a última semana inteira e incluindo a manhã do dia da viagem, 28 de agosto, buscando meus últimos materiais dos meus apoiadores antes de ir para o aeroporto. Graças a Deus, meu pai me ajudou durante a semana com carro, aí então ficou mais fácil resolver os trâmites.

Vôo cancelado

Quando cheguei no aeroporto Galeão, tive meu primeiro voo de conexão (Rio-SP) cancelado. As horas foram passando e eu e os passageiros não tínhamos resposta de que horas nos colocariam em outro avião. Enfrentei filas, carreguei cinco pranchas e duas malas por todo aeroporto de meio dia a uma hora da manhã na missão. No final, depois de muito suor, fome e cansaço, fui transferida para outra companhia aérea e ainda tive de pagar novamente taxas de pranchas e para empacotar metade delas em outro plástico.

Raquel Heckert. Foto: Vandielle Dias.

Raquel Heckert. Foto: Vandielle Dias.



Cheguei no México! (Inocentee)

Ao chegar no México tive que apresentar uma carta para a empresa local (Interjet) para provar que perdi meu voo da Cidade do México para Huatulco, devido ao cancelamento do meu primeiro voo da viagem por outra empresa. Graças a Deus a companhia local aceitou e me encaixou em um voo que saiu três horas mais tarde.

Ao aterrissar em Huatulco, achei que estava perto do meu destino, todavia não estava, ainda faltavam duas horas e meia de carro até Puerto Escondido, que resultaram em três horas do meu destino, porque fiquei esperando uma carona que não viria. haha Depois disso, tentei pegar um táxi para Puerto, mas desisti porque estava caríssimo.

Aquela água gelada santa

Um dos taxistas foi super bacana comigo e me explicou como poderia pegar um táxi mais barato ou um ônibus de viagem até meu destino final. Não bastando isso, ele me ajudou a carregar meu sarcófago lotado de pranchas por uma distância super longa no sol quente. Depois ele ainda foi comprar uma garrafa de água gelada pra mim, sem pedir dinheiro gente!

Raridade isso, pois quando se está viajando, as pessoas que não te conhecem geralmente querem dinheiro em troca de favores, mas é impressionante como Deus sempre coloca pessoas maneiras em meu caminho seja para eu ajudá-las ou para eu ser ajudada por elas. Eles me ajudaram muito, pois eu já estava cansada e com dor no corpo da viagem. Grata ao taxista até agora. haha

Pedro Calado, Raquel Heckert e Igor Hossmann. Foto: arquivo pessoal.

Pedro Calado, Raquel Heckert e Igor Hossmann. Foto: arquivo pessoal.



Caronex!

Depois de uns 20 minutos esperando o ônibus, passou um caminhão de coco me oferecendo carona até Puerto Escondido. haha Fiz umas perguntas, aceitei e fui de graça até a porta do meu hotel. O motorista era surfista, por isso me ofereceu ao me ver com pranchas. Irado, fazer amizades inesperadas. Ah, e ainda ganhei um biscoito local no caminho, suco de manga e água de coco quando cheguei na pousada. Uma benção para quem estava "casi muerta"! haha

Chegando em Puerto Escondido

Quando cheguei em Puerto havia 12 a 15 pés de ondas, pesados e com a formação ruim. Não me dei bem no mar, estava cansada e ainda coloquei parafina de água gelada na prancha que eu estava estreando, na qual derreteu toda. Aprendizado! Mas foi maneiro estar lá dentro sentindo o mar, e dividindo o line-up com todos os big riders que competiriam no Puerto Escondido Challenge no dia seguinte.

Ao sair do mar remando, ganhei um passeio de barco por acaso de um local mexicano que estava levando outros turistas mexicanos para conhecer outras praias. Foi a maior vibe. Primeiro dia em Puerto, já sentindo adrenalina, passeando de barco e no final de tarde ainda fui surfar ondas perfeitas no pico de La Punta.

Raquel Heckert. Frame: Nnproject.

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Mar grande e WSL

No dia seguinte o mar triplicou de tamanho! E tive o privilégio de assistir e admirar o campeonato de ondas grande da WSL Puerto Escondido Challenge. Foi insano! Kai Lenny venceu. Havaiano prodígio de Maui, da mesma idade que tenho (24). Este swell só tinha "quebra coco" gigante, não sei de onde os competidores tiraram tanta coragem para colocar para baixo naquelas condições. Não estava fácil não.

Me adaptando

No dia depois do campeonato eu fui surfar e ainda estava sinistro. Eu ainda estava me adaptando e peguei apenas uma onda de uns dois metros. Nem sei como a encontrei em meio as séries mutantes que vinham. Eu fiquei muitas horas remando, ganhando confiança e sobrevivendo haha (e aprendendo, claro).

O mar ainda estava gigante, quase tomei uma série de uns 18, 20 pés na cabeça. Achei mesmo que fosse tomar, mas não desisti de remar para passar por cima delas. O sinistro foi que entre uma das ondas eu tentei tirar o strap para me preparar para tomar na cabeça, mas como não consegui, apertei mais a remada até chegar próximo do lip, saltei da prancha, e a empurrei com toda força pela rabeta por cima da onda e uma "fração de segundo" e mergulhei para conseguir passar por pelo rolo compressor. Quando consegui, já subi com tudo por cima da prancha pra fugir do resto das ondas.

Raquel Heckert. Foto: Miguel West Side.

Raquel Heckert. Foto: Miguel West Side.



La Punta

Quando há swell grande em Zicatela eu surfo a manhã inteira até o vento maral entrar, vou para casa, almoço e dou uma descansada antes de ir surfar La Punta. La Punta é um pico de esquerdas muito boas. A qualidade da onda é incrível. Neste swell quebrou dias perfeitos de até dois metros de onda, com todas as sessões funcionando.

Treino e preparação

Nos intervalos de swells tento usar meu tempo para surfar marolas também, soltar o corpo e fazer uns treinos de exercício funcional, seja na academia local de Zicatela ou ao ar livre.

Após alguns dias de marolas, dando muita rasgada e torrando no sol até mesmo na hora do maral  (menos crowd), surgiu outro swell no dia 13 de agosto.

Eu não via a hora de surfar um swell mais tranquilo, mas veio mais sinistro. Não estava tão grande quanto o primeiro, no entanto havia correntes fortíssimas, com bocas de valas enormes que atrapalhavam muito o surfe quando vinha a série. Eu e meus amigos apelidamos a vala de língua de dragão haha: Bocas largas de valas que te puxam bem para a zona de impacto quando você está no inside. Quando você está achando que vai sair do mar após pegar uma onda, ela te puxa... O terror! Haha

Raquel Heckert. Foto: Parifarte.

Raquel Heckert. Foto: Parifarte.



E se você está no pico esperando sua onda e ela aparece, ela te faz perder o posicionamento e gastar  energia braçal, tendo que dar  voltas enormes para dentro do mar a fim de encontrar a pista lisa. Tem que fugir dela, saber lidar com ela.  Não é sempre este drama, haha mas acontece em swells de tormenta.

Eu estava meio tensa, não sabia se descia mais do pico, se arriscava. As ondas cleans demoravam muito pra vir e brotavam do nada, você tinha que estar concentrado e pronto, no lugar certo, no “time” certo. As "linguas de dragão" estavam gigantes e bem para dentro do mar. Dava medo, parecia que do nada viria uma onda mutante atrás de tudo, lavando todo mundo. E podia mesmo acontecer, bom que eu e meus amigos nos livramos desta vez. haha

Onda Sinistra

Zicatela é a onda grande mais sinistra que já surfei. A zona de segurança em dias de mar storm é dentro do seu quarto de hotel haha. Sem dúvida, no mar é outra história. Esta é a primeira vez que tenho prancha grande para surfar em Zicatela. Apesar de ser a quarta vez vindo pra cá, ter uma prancha maior para surfar nos dias grandes me passou uma sensação de como se eu tivesse vindo surfar aqui pela primeira vez.

Eu ainda sinto que preciso de uma prancha maior e muitos outros dias de experiência. Fiquei triste de não ter conseguido fazer o que os surfistas mais cascas grossa estavam fazendo, mas tenho aprendido a ser mais amiga de mim mesmo, de perdoar as minhas falhas e não me cobrar tanto. Há tempo para tudo.

Raquel Heckert passando no limite. Foto: arquivo pessoal.

Raquel Heckert passando no limite. Foto: arquivo pessoal.



Zicatela, seus 8 pés perfeitos e amor a primeira vista por Barra de La Cruz

Depois do dia cavernoso do swell, Zicatela acertou e ficou 8 pés perfeitos. Eu peguei altas ondas a manhã inteira, e ao sair da água, três amigos me convidaram para ir a Barra de La Cruz. A única imagem que eu tinha na cabeça desta onda era a do filme The Search, do campeonato que o Andy Irons ganhou num mar super tubular.

Raquel Heckert. Foto: Vandielle Dias.

Raquel Heckert. Foto: Vandielle Dias.



Havia anos que eu queria ir nesta onda, mas sempre diziam que o pico não estava funcionando depois de um furacão que teve há uns cinco, seis anos antes da minha primeira temporada mexicana.   

Fiquei super feliz em chegar lá e ver linhas perfeitas quebrando! Juro que me senti mais feliz que uma criança realizando o sonho de ir para Disney. Foi um dos finais de tarde mais clássicos da minha vida. Fiquei alucinada! Eu só ria, ria, agradecia a Deus e as pessoas que estavam no carro! Haha

Raquel Heckert em Barra de La Cruz. Foto: Victor H Munoz.

Raquel Heckert em Barra de La Cruz. Foto: Victor H Munoz.



Eu estava precisando muito de um surfe de linha, perfeito assim.  Mares como este, que faz a gente se apaixonar mais pelo surfe e sentir de novo aquela alegria genuína e incontrolável de felicidade.

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