Vídeo e Galeria Mentawai - Gabriel O Pensador atirado no Kandui

Surfista e rapper carioca pegou um swell grande e pesado numa das ondas mais sinistras e perigosas do arquipélago


Confira o relato do surfista e rapper carioca Gabriel O Pensador (Facebook e Instagram @gabrielopensadoroficial), que encarou com muita atitude um swell grande e pesado numa das ondas mais sinistras e perigosas de Mentawai, Kandui. No vídeo abaixo você confere imagens da trip, inclusive das bombas. Veja também uma super galeria de fotos logo abaixo do relato do surfista.



Na única vez que eu tinha ido para o Kandui e vi a onda quebrando, eu tentei surfar e meu braço saiu do lugar, rompi os ligamentos e tive que operar o ombro. Então eu nunca tinha pego aquela onda, já tinha entrado no mar, mas nunca tinha surfado.
 
Dessa vez já fui apreensivo porque tinha uma previsão de um swell muito grande e eu tinha na minha cabeça essa lembrança do Kandui como uma onda muito difícil, muito rápida, que fechava no final. Essa lembrança eu não tinha só pela minha experiência, mas pelo o que eu ouvia e pelos vídeos que eu já tinha visto.
 
Eu estava mesmo com medo do que ia dar nesse swell, mas muito pilhado de tentar pegar algumas ondas grandes, porque eu estive em Fiji em maio (antes de fazer uma turnê de cinco shows na Austrália e na Nova Zelândia) e caí num mar muito grande em Cloudbreak e não consegui me dar bem, com muitos profissionais na água, estava muito difícil... as meninas todas estavam se preparando para o CT... Nesse dia eu caí com uma 7’6”, quebrei a prancha, tomei uns caldos, mas não peguei nada.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.


 
Então quando cheguei nas Mentawai, no Kandui Villas, o mar estava com ondas pequenas, mas a gente caiu no Kandui e lembrou como ela é uma onda rápida, como é difícil passá-la quando ela está desse tamanho, pois fica rasa, complicada mesmo. Aí o mar aumentou, acho que já no segundo dia à tarde, quando já começaram a vir algumas séries anunciando que o swell estava chegando.
 
De manhã acordamos e o mar estava lindo e grande, bem grande. A gente viu alguns já desistindo de cair ali, preferindo surfar outras ondas que também estavam muito boas, como Riffles. Outros foram para Baby Kandui que estava com seis pés de onda perfeitos.
 
Eu peguei minha 7’2” que era a minha maior prancha, feita com reforço em Portugal, na Semente Surfboards, pelo shaper Nick Uricchio. Por coincidência o português Nic Von Rupp também estava lá no pico, dando um show de surf. Quando vi algumas pessoas pegando bem as ondas, passando as seções, eu já me senti mais à vontade, mas ainda assim entrei com aquele medo inevitável e tomei logo uma vaca no primeiro drop.
 
Essa onda era grande. Na vaca eu não bati no fundo, me safei bem, então percebi que dava para tomar mais vacas e perdi um pouco do medo. E continuei tentando pegar. E aí comecei a surfar e a me surpreender com meu desempenho, com o meu aproveitamento do mar. Eu demoro, espero uma boa, não tenho pressa, não pego muitas ondas em cada sessão, mas peguei umas ondas muito boas, comecei a receber elogios e comecei a ficar bem à vontade no mar, porém sem perder a adrenalina, aquele medo que é constante. Em constante concentração, com a consciência do perigo, mas me sentindo bem demais ali.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.


 
Antes de viajar eu tinha pego uma dicas com o Ricardo Bahia, que é um campeão de apneia e que mora no Rio. Antes de sair do Brasil (minha a viagem foi toda ligada: Fiji, Austrália, Nova Zelândia e Indonésia), eu fiz uma sessão de treino de apneia com ele, uma aula para pegar umas dicas. Nesse dia a gente ficou surpreso, pois eu consegui ficar 5m09s em apneia estática na piscina!
 
Isso me deu muita confiança nos caldos e pela primeira vez na vida, nessa trip toda, incluindo Fiji, eu passei a tomar caldos sem me mexer tanto, sem ter tanta pressa de subir. Antigamente eu ficava me debatendo muito pra subir e também com medo do coral e perdia muito ar. Dessa vez eu fui muito mais seguro nos caldos. Eu fiquei protegendo o rosto, a cabeça estava protegida pelo capacete, o corpo com roupa de borracha e um colete com flutuação. Encostei no coral algumas vezes, machuquei um pouco, mas sempre foi de leve, graças a Deus.
 
Ali no pico, além do Nic, estavam o australiano ex-CT Mick Campbell e o Guto Amorim, que conhece bem a onda e estava muito tranquilo pegando as bombas. Tinha também um moleque australiano de 15 anos e um ex-competidor havaiano chamado Teva Black Bear, do Kauai, surfando muito bem.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.


 
O clima era de cooperação e os caras estavam curtindo minhas ondas e torcendo pelo meu surf (e vice -versa). Tinha um pessoal vibrando muito assistindo tudo dos barcos parados no canal também. A galera já tem um carinho por mim, como artista, e aí de repente fica surpresa ao me encontrar num lugar assim, inesperado... Ainda me viram pegar uns tubos grandes e aí ficaram muito amarradões. Então a vibe estava muito boa. Foi ótimo sentir isso e todos sabíamos que aquele era um mar épico. Isso não tem preço. Essa vibe do surf, dos encontros... a gente vai ficar com isso na memória...
 
Esse swell foi de sonho! Demos muita sorte de pegar essas condições, mas no segundo dia teve um momento de tensão assim que chegamos pra surfar, no meio da tarde, quando estava bombando uns expressos poderosíssimos, assustadores, mas muito perfeitos. Um americano, o Christian Enns, fez um tubão. Eu tinha acabado de pular do barco e não vi bem a onda, só percebi que o Nic Von Rupp tinha ido resgatar o cara na zona de impacto. Mas continuamos ouvindo gritos de “help”, do próprio Nic e dos outros caras que foram ajudar. Então percebi que era sério.
 
Eu estava na água ao lado do barco me preparando pra surfar e vi o cara sendo trazido com a cabeça aberta e sangrando, totalmente grogue, com perda momentânea de memória. Depois eles contaram que o cara tinha desmaiado e ficado embaixo d’água por duas ondas, quebrado a costela e machucado a perna... foi bem feio o negócio e a gente chegou no mar nesse clima, então foi pesado, tenso.



Eu entrei e fui para o mesmo lugar que eu tinha ficado no dia anterior, bem no pico mesmo, no fim da bancada. Então eu remei numa onda que sugou a bancada inteira de um jeito muito sinistro, que eu olhei pra baixo e puxei o bico com medo de ir no repuxo, desistindo no último segundo e consegui "frear" a prancha. Nesse momento eu vi que meu corpo estava tremendo inteiro, tremendo literalmente. Então tive que lembrar do Ricardo Bahia, das dicas pra acalmar os batimentos, pra conseguir continuar minha sessão de surf.
 
Mas por incrível que pareça eu fiquei bem tranquilo logo em seguida. Inclusive numa onda, uma das maiores que peguei na viagem, eu errei por estar tranquilo demais (tem um stop motion dela no vídeo). Eu dropei muito relaxadão, querendo fazer um drop e uma cavada em pé, e iria pegar o tubão da minha vida, mas aí eu cavei muito na base e o lip caiu um pouco menos aberto do que eu pensava, e desabou literalmente em cima de mim. O lip de uma onda gigante. Mais uma vez eu contei com a sorte e não aconteceu nada, foi só o caldo mesmo, mas o peso de um lip desse em cima da gente pode machucar muito feio.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.


 
Eu sai da viagem muito feliz, agradecendo a Deus e mais viciado em surf do que nunca. Pela primeira vez eu andei nuns tubos no “foam boall”. Gostei muito da experiência, da sensação e quero evoluir mais. Vou treinar em São Conrado contando pros amigos como foi a trip e como eu lembrei muito deles e do nosso "Cantão" tão poluído. Quando estamos num lugar de água limpa vemos o quanto é absurdo o esgoto no mar. Vou participar de uma campanha da marca Oceano, chamada Keep The Ocean Blue e também pensei nisso durante a trip toda, desde Fiji.

Andar pelas estradas da Austrália, por exemplo, onde tudo funciona bem, recebendo as notícias ruins do Brasil, de violência e da nossa política, também mexeu comigo. A distância amplia a nossa visão. Mas aqui o papo é surf, então espero que a galera curta e se inspire com as imagens e faça como diz a música Solitário Surfista: "pegue sua prancha, reze com fé e vá pro mar!".

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.

Foto: Kaliang Black Pearl Photography / Kandui Villas.



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