Entrevista: Caio Teixeira dropa no Ricosurf

ENTREVISTA


 

Caio de olho no horizonte -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Como começou a surfar?
Comecei a surfar por incentivo do meu pai, meu mentor e professor. Desde os meus 3 anos de idade ja tinha minha pranchinha ali no cantinho da sala pronta pra que quando eu "quisesse" surfar, ela já estivesse ali de prontidão, aguardando minha iniciativa. Mas foi apenas com 8 anos de idade que a vontade se manifestou e cresceu. Morávamos em São Paulo, porém, com mudanças nos planos na vida do meu pai, fomos viver em Cabo Frio, cidade no interior do Rio de Janeiro. E através dos meus vizinhos e amigos, a curiosidade em deslizar nas ondas, de fato, surgiu. É engraçado recordar isso, por que eu lembro perfeitamente, como se fosse ontem, que eu tinha acabado de chegar do colégio e exclamei em alto e bom som: PAI, ME ENSINA A SURFAR? Ele não conteve o sorriso, muito menos a empolgação. Era pouco mais de meio dia e minha mãe preparava ainda o almoço e ele, ansioso por si só, com tamanha vontade de ver um filho se aventurar no esporte que ele tanto amava, saiu correndo para oficina de reparos de prancha do amigo Babu a procura de uma pranchinha usada para me presentear e me colocar dentro d'água o quanto antes. TCHARAM, não sei de onde ele surgiu e como ele fez pra aparecer com uma prancha tão rapido, mas la estavam eles, meu pai e minha primeira prancha. Era uma World Coast, com um tom de amarelado de toco velho que só quem já viu uma dessas, sabe o que eu to falando. Uma 6'2'', relativamente gigante para um mlk de 8 anos mas isso era o que menos importava, eu queria mesmo era colocar na água a minha primeira prancha "nova". O momento foi muito marcante pra mim. Minha mãe me incentivou muito também e não media esforços para poder me apoiar.

Caio pendurado no bico na praia da Macumba -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - De que forma o surfe influenciou na sua forma de viver?

Cara, isso é muito louco porque o surf, de fato, é a minha vida. Sou um cara de sorte por ter tido Telmo Moraes como pai e isso só transformou o surf na coisa mais intensa durante toda minha existência aqui na terra. Ele era tão aficcionado pela brincadeira de surfar que resolveu montar um museu do Surf. Isso tudo, logo assim que tínhamos ido morar em Cabo Frio. Ou seja, quando eu estava aprendendo a surfar, meu pai estava começando a colecionar pranchas antigas. Passei a trabalhar com ele no Museu, vivi literalmente mais tempo dentro daquele espaço do que dentro do colégio. Eu devorava as revistas, Fluir, Surfer, Surfing, Hard Core, os livros, os filmes ainda em VHS. tudo que eu tive como base, como vivência, foi através do surf. Ou seja, a influência do surf no meu modo de viver é intensamente "surfística".

Hang Five na Macumba -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Como está o Museu em Cabo Frio?

Hoje quem esta à frente do Museu é a minha mãe, Alessandra Moraes, que administra o espaço com o suporte da Prefeitura municipal de Cabo Frio e coordena tudo. Existem diversas atividades no espaço, visitações, clínicas, workshops e eventos festivos de cunho esportivo. Pra quem ainda não foi e não conhece, não perca tempo, vale muito a pena!

Ricosurf - Qual prancha do acervo é a mais rara?

Rapaz, vou responder exatamente como meu pai respondia: todas elas tem sua peculiaridade, sua singularidade e beleza. A única coisa que podemos dizer é que existem umas mais antigas que as outras mas na verdade todas são raras, peças únicas e de valor inestimável.

Caio Knee turn -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Você é conhecido pela ótima técnica de noserider. Como você a desenvolveu?
Eu acho que a técnica veio com muita persistência. Não tive muito contato com surfistas de longboard até os meus 15 anos, e tudo que eu sabia, até então, era assistindo e aprendendo através de revistas e filmes.

Ricosurf - Que tipo de prancha você tem usado?
Hoje em dia eu tenho usado muito a Mexicali 9'5'' e uma Cachalote 9'8'' da Caio Teixeira Classic Longboard pros dias menores. Gosto muito de usar pranchas curtas também, tenho uma Takayama 5'10'' que ganhei do Celso Figueiredo, um grande amigo e incentivador, e uma 6' nervosinha triquilha. Gosto de estar na água, até mesmo um bom jacaré ja pode salvar.

Caio comemorando mais um dia -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Você gosta de competir? Tem alguma competição prevista para esse ano ainda?
Acho que nesses últimos 6 anos participei de no máximo uns 10 eventos. Meu lado competitivo nunca foi muito forte. Não gosto da sensação de ser melhor ou superior à alguém, isso me incomoda de verdade. Até andei dando uma lida um tempo atrás pra poder entender o que faz com que as pessoas compitam. Muito louco isso, achei alguns artigos, li umas matérias, mas não achei nada que me fizesse gostar de fato da competição contra alguém. Se for pra competir, que compita com você mesmo. E isso é um tanto quanto complicado. não sou contra as competições, mas tenho me afastado cada dia mais. Vez ou outra recebo alguns convites pra participar de alguns eventos e quando posso, eu vou. Tenho ido ao Mexico todo ano para participar do Mexilogfest um evento incrível organizado pelo Israel Preciado. Esse, com toda certeza, eu não perco por nada. O astral, as ondas, as pessoas, a vibe, musica, tudo é muito bacana.

Caio desenha no style -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Quem são os surfistas que te inspiram?

Eu gosto de me inspirar em surfistas com linhas simples e bem feitas, Dave Rastovich, Cj Nelson, Joel Tudor, Mikey February, e claro, surfar com meus amigos é sempre inspirador, todos são muito bons, e seria injusto da minha parte mencionar nomes porque fatalmente, eu vou esquecer de alguns e como sei que são ciumentos, prefiro me abster. (risos)

Caio Teixeira -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Quais suas ondas preferidas?
A minha onda preferida é a praia do Peró em Cabo Frio. Mas já tive a oportunidade de surfar ondas incríveis como Malibu e San Onofre, na California, Sunzal em El Salvador, Boca Barranca na Costa Rica, Chicama no Peru, La Saladita no Mexico, essas ondas são incrivelmente perfeitas e valem a pena a surftrip.

Caio é conhecido pela facilidade com que anda no bico. Nose Rider. Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Qual sua manobra preferida?
Minha manobra preferida é estar na água. O tubo, hang ten ou cut back são apenas conseqüências de como você se diverte.

Caio Teixeira -  Foto: Felipe Ditadi

Ricosurf - Em que tipo de projetos você está envolvido atualmente?
São tantos projetos que às vezes eu me assusto. Tenho feito o Workshop Footwork & Noseride há 5 anos. Um evento que vem ganhando cada dia mais adeptos e promete um avanço muito grande pra quem procura evolução na brincadeira. O objetivo do Workshop é aperfeiçoar e apresentar algumas manobras do surf clássico. Além de oferecer ensinamentos para as técnicas do surfe tradicional, baseado na abordagem da linha horizontal com pranchas legitimamente clássicas. Tenho um projeto novo bem legal, estou estruturando minha casa para receber ate 3 pessoas onde vamos juntos ter aulas técnicas e teóricas de surf, fazer trilha, yoga, visitar cachoeiras, conhecer pontos turísticos pelo Rio de Janeiro, explorar o Museu do Surf em Cabo Frio, voar de asa-delta e por ai vai. O projeto é bem bacana e promete ser uma experiência incrível. No final do mês de Outubro já vamos abrir a agenda para o ano de 2020. Estou muito otimista. Agora estamos loucamente preparando um Festival de Surf e, se tudo der certo, ainda rola esse ano, estamos acertando alguns detalhes pra oficializar as datas e lançar o evento o quanto antes. Em contra partida continuo com minhas aulas de surf, sou técnico e instrutor formado pela International Surfing Association e pela Confederaçao Brasileira de Surf e, junto a tudo isso, ainda sobra tempo pra fazer prancha, a Caio Teixeira Classic Longboard completa nos próximos dias 5 anos de existência. Tenho trabalhado e estudado muito o universo das singlefins e o foco é continuar desenvolvendo pranchas tradicionais e promover a alegria através delas. Seguimos em frente dia após dia, pra fazer o esporte crescer e conquistar mais adeptos praticantes para essa atividade incrível que é o surf.

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