Entrevista - Fernando Câmara, da TECCEL, fala tudo sobre os blocos e o mercado

Empresário, que fundou a Teccel há 25 anos, abre o jogo sobre vários assuntos, inclusive faz uma comparação entre Poliuretano e Epóxi, fala sobre reciclagem e muito mais


Há 25 anos atuando no mercado do surfe, Fernando Câmara é empresário e dono da fábrica de blocos Teccel, uma das mais conceituadas no Brasil e no mundo. Hoje a empresa atua em todo o território nacional e internacional.

Confira abaixo uma entrevista exclusiva onde ele fala tudo sobre os blocos.

Patrick Villaça - Quanto tempo a Teccel possui no mercado?

Fernando Câmara - Em 1991 conheci o Midget Farrelly, fundador da Surfblanks Austrália, e naquele ano fizemos uma parceria para fabricação das espumas com mesmas tecnologia e matérias primas. A empresa foi fundada em 1992, portanto estamos fazendo 25 anos de atividades.

Fernando Câmara na sede da Teccel. A parede atrás dele tem tijolos fabricados com resíduos do poliuretano, um produto reciclável. Foto: divulgação Teccel.

Fernando Câmara na sede da Teccel. A parede atrás dele tem tijolos fabricados com resíduos do poliuretano, um produto reciclável. Foto: divulgação Teccel.



Quais as maiores dificuldades encontradas no início da empresa?

Sem dúvida o capital de giro, pois esse mercado demanda compra a vista dos insumos por um lado, e por outro lado, na venda, temos que dar um prazo ao distribuidor/fabricante, que por sua vez também dá um prazo ao consumidor final ou lojista, perfazendo um ciclo total de 180 dias em média, uma vez que boa parte das matérias-primas são importadas e há um tempo de viagem.

Como foi a progressão da marca no mercado nacional?

Foi um trabalho longo e árduo. Aos poucos fomos ampliando o número de plugs e a produção, porém sempre tentando manter e melhorar a qualidade, que aliás é nosso slogan “Qualidade Em Sua Prancha”.

Desta forma o próprio produto fez a melhor propaganda para a marca, uma vez que os fabricantes e atletas procuravam nosso produto para ter um equipamento resistente e leve, que permitisse uma boa performance.

Quais os principais fatores que contribuíram pro crescimento da empresa?

Como dito anteriormente, em primeiro lugar a própria qualidade do produto, que permitiu uma preferência do mercado. Em segundo lugar um bom trabalho de distribuição, com entrega rápida e variedade de densidades, plugs, além de todas as matérias primas e equipamentos necessários na fabricação de pranchas.

Temos hoje 35 plugs, do 5’8” ao 12’, produzidos constantemente, em 5 densidades diferentes, além de longarinas de madeiras maciças, laminadas e em poliuretano, que foi uma grande novidade lançada por nossa empresa neste ano. Temos também todos os equipamentos necessários para fabricação das pranchas, além das resinas e tecidos de fibra de vidro e carbono.

A Teccel atende à quais estados brasileiros hoje em dia?

Do Ceará ao Rio Grande do Sul, em todos os estados onde há litoral.

Como funciona a distribuição de blocos no Brasil?

Cada distribuidor mantém um estoque regulador compatível com a demanda local, e que é reabastecido semanalmente. Para os clientes que têm um volume de produção maior, o envio dos produtos pode ser feito diretamente da fábrica, porem há sempre uma assistência do distribuidor.

Vocês exportam blocos para fora do Brasil? Se sim, para quais países?

Sim, via Mercosul para o Uruguai, Chile e Peru, e para a União Europeia para Portugal, Espanha e França. Também exportamos para os Estados Unidos.

A Teccel, hoje em dia, possui um bloco conhecido e aprovado internacionalmente. Quais os principais fatores que levaram o produto a esse patamar? E qual o diferencial do produto da Teccel para os outros concorrentes?

Estamos sempre pesquisando e testando novas matérias primas, numa busca constante de atender as exigências dos fabricantes e atletas. Muitas vezes a demanda dos fabricantes são diferentes, o que complica um pouco, mas tentamos atender a cada um de forma personalizada. O diferencial não é um objetivo, mas uma consequência deste trabalho.

Fernando com um bloco da linha Premium Pro, que é de poliuretano e que tem o peso de um de epóxi. Foto: divulgação Teccel.

Fernando com um bloco da linha Premium Pro, que é de poliuretano e que tem o peso de um de epóxi. Foto: divulgação Teccel.



Quais os principais atletas que estão sendo patrocinados pela Teccel?

Temos atletas que estão conosco há muito tempo, como o Fabio Gouveia, desde o início da empresa, passando por vários outros nomes conhecidos como o Carlos Burle, Picuruta Salazar, Sylvio Mancusi, Jorge Pacelli, Jaime Viudes, Alexandre Ferraz, Saulo Carvalho, Carlos Bahia, a nova geraçao com Ian Gouveia, Lucas Chianca, Victor Bernardo, Alan Donato, Luel Felipe, Junior Lagosta, Lapo Coutinho, Lucas Medeiros, Deyvison Santos, Diego Silva, Ulysses Freesurfer, Anuar Chiah e as meninas Nicole Pacelli, Gabriela Cavalvanti, Luara Mandelli e Monik Santos.

Além disso apoiamos inúmeros campeonatos de Norte a Sul, e algumas escolinhas de surf.

Você tem parceria com vários shapers pelo Brasil. De qual importância é o feedback do shaper sobre o bloco para você? Porque?

A importância é vital, pois é através das informações dos shapers que conseguimos identificar erros e acertos que servirão de parâmetro para oferecermos o produto que eles desejam.

Pode citar alguns shapers que você apoia?

Em particular nenhum, pois na realidade tentamos apoiar todos na medida que as demandas puderem ser atendidas. Há alguns anos promovemos o primeiro Meeting Nacional de Shapers, quando tivemos mais de cem profissionais reunidos de todas as partes do Brasil. Na ocasião tratamos de assuntos ligados a Marketing, Administraçao, Logística e a evolução das máquinas de shape. Foi um evento sensasional e pensamos em uma nova ediçao para um futuro próximo.

Quais foram as principais evoluções do bloco de poliuretano nos últimos anos?

Foram várias. Primeiro a eliminação dos CFC´s como agentes de expansão. Depois uma evolução na qualidade das matérias primas, permitindo que fabriquemos peças mais leves e flexíveis, com menor absorção de resina e alta resistencia ao amerelamento. Isto permitiu que  mantivessemos várias densidades, como o Tecblue, o Teclight, o Tecgreen e o Premium, adequando-se a demanda do fabricante.

Acabamos de lançar o bloco Premium Pro, extremamente leve, fácil de trabalhar, ótima resistência UV e baixíssima absorção de resina. É uma revolução na fabricação de poliuretano, pois com esse bloco conseguimos fazer uma prancha com peso final idêntico ao eps, com a vantagem de melhor flexibilidade, resistência a infiltração d’água, fácil conserto, maior produtividade na fabricação, e melhor performance para os atletas.

Outra inovação diz respeito a questão ambiental. Hoje todo nosso resíduo é destinado a reciclagem, notadamente na indústria de construção, como revestimento. Esta logística está também disponível para todos nossos clientes, e sem custo algum.

Também somos uma das poucas empresas no Brasil, não só na indústria do surf, mas na indústria em geral, a zerar nossa emissao de CO2. Isto significa que desde a fabricação de nossas matérias primas, passando pelo transporte das mesmas, processo de fabricação do poliuretano, e logística de deslocamento de funcionários e distribuição dos produtos acabados, toda nossa emissão de gases é zerada via compensação através do plantio e manuntenção de ávores na mata atlântica.

Um surfista que adquirir sua prancha com nosso produto pode ter certeza que estamos conscientes em causar o menor impacto ambiental possível, e por incrível que pareça isso nao é coisa tão complicada de ser feita. Na realidade, todas as empresas, independentemente do ramo de atividade, deveriam ter esse compromisso.

A Teccel está entre os blocos mais usados no Brasil e no mundo devido à sua qualidade. Como são feitos os estudos para estar sempre atendendo as exigências do mercado e evoluindo a qualidade do produto?

Mantemos nossa parceria com a Surfblanks Australia, e temos profissionais pesquisadores na área de química. Todas informações são benvindas, apesar de muitas não trazerem benefícios, mas com o mundo globalizado temos que estar atentos às inovações que aparecem a cada dia.

Fabio Gouveia é Teccel. Foto: reprodução Instagram.

Fabio Gouveia é Teccel. Foto: reprodução Instagram.



O mercado do surf tem visto nos últimos anos uma forte disputa entre os blocos de poliuretano e o isopor (epóxi). Como você vê essa concorrência?

Primeiro vamos esclarecer que epóxi trata-se de um tipo de resina, e nao da prancha como um todo. O poliuretano é compativel tanto quanto com a resina de poliester quanto com a resina epóxi. Já o eps é compatível apenas com a resina epóxi.

Nos últimos anos houve uma melhora considerável na qualidade das resinas epóxi, o que permitiu a confecção de pranchas com miolo de eps (isopor). Some-se ao fato da matéria prima ser bem mais barata, vários fabricantes estão utilizando esta opção, especialmente no Brasil, onde temos uma crise atrás de outra, porém muitos fabricantes esquecem do fator custo de mão de obra, produtividade, e pós venda, fatores que tem anulado uma aparente vantagem à primeira vista.

Vários fabricantes com história no surf brasileiro têm sofrido bastante com o surgimento de inúmeros novos fabricantes que surgem da noite pro dia devido a facilidade em adquirir matérias primas baratas, de má qualidade, mas principalmente devido a facilidade de se manter na informalidade, colocam no mercado produtos aparentemente de baixo custo, porém de extrema má qualidade, competindo de forma desigual com aqueles que levam a atividade a sério.

No Brasil, para voce abrir uma borracharia é necessario uma inscrição municipal, um alvará de funcionamento, enquanto que em uma atividade bem mais complexa como fabricar uma prancha basta ir na esquina comprar um pedaço de isopor, resina de caixa d’água, e pronto, surge uma nova fábrica, que remunera o próprio dono pior do que um emprego simples como o de faxina com carteira assinada.

Não entendo o por que de tantos fabricantes insistirem em manter-se na informalidade, pois é por conta disso que eles estao com tantas dificuldades. As pranchas de eps/epóxi quando bem feitas resultam em um equipamento de boa qualidade, porém de performance diferente. Isto significa que alguns surfistas se adaptam e gostam desse tipo de prancha e outros não. A grande maioria dos surfistas no tour tem em seu quiver pelo menos uma pranchas de eps/epóxi, mas na maioria das etapas eles optam pelas de pu/poliester ou pu/epoxi, pois consideram melhores para executar manobras de impacto e alta performance na parte crítica das ondas.

Se analizarmos um a um o que os 23 atletas que terminaram o CT 2017 estão utilizando nas competiçoes, veremos que apenas 1 utiliza 100% eps/epóxi, o M Bourez, que terminou em 19o. Tres usam eventualmente, e 19 usam exclusivamente pu/poliester/epoxi nas competicoes, inclusive todos os campeoes mundiais na historia, inclusive o Slater, que depois que mudou a tecnologia do equipamento ganhou apenas um evento.

Um detalhe importantissimo no contexto da fabricação de pranchas diz respeito a questao da segurança do usuário, o surfista. Quanto mais duro seu equipamento maior a possibilidade de você se machucar se houver impacto, e a prancha de eps/epóxi demanda que a laminação seja bem dura, pois o miolo da prancha, o eps, tem uma resistência muito pequena a tensão, a flexibilidade, portanto são laminadas de forma a ficarem mais rígidas.

O Slater machucou-se feio durante a etapa de Jeffreys, fraturou o pé em três lugares diferentes quando o mesmo caiu dentro do tubo e rodou com a onda acertando-a em cheio. Se fosse uma prancha com laminação polyester provavelmente a prancha teria partido ao meio, mas o pé dele nao teria sofrido tanto.

Também recentemente o Stuart Kennedy, que aliás ficou fora do CT para 2018, também rodou com a onda durante o campeonato de Sunset e também acertou a prancha, machucando-se e ficando fora da última e decisiva etapa para ele, em Pipeline.

Portanto as vezes é melhor ter um equipamento mais fragil, que absorva o impacto e mantenha a integridade física de quem o utiliza. Foi assim com a indústria automobilística.....

O EPS cresceu no mercado com uma fama de produto “sustentável”, e ganhou força no mercado de pranchas com as pranchas do Kelly Slater (Firewire). Como empresário, o que você achou desse Marketing?

Como empresário não me importa o que as pessoam usam para surfar, seja PU, EPS, Madeira, etc, o importante é que voce se sinta bem e se divirta praticando um esporte, tanto que também fornecemos uma linha completa dos blocos de eps, e em 5 densidades diferentes.

Como surfista e amante do esporte me senti decepcionado pelas atitudes de algumas pessoas, inclusive do Slater. Será que para se obter sucesso é necessário denegrir e deturpar o trabalho do concorrente? Isso é no mínimo antiético e inaceitável. A quem eles querem enganar?

O eps é um derivado do petróleo assim como o poliuretano. Ambos podem ser reciclados, porém nao existe tecnologia que os tornem “sustentáveis”. Existe uma grande diferença entre produtos recicláveis, reciclados e sustentáveis. O eps é proibido em forma de embalagem nas principais capitais do mundo desenvolvido (https://groundswell.org/map-which-cities-have-banned-plastic-foam/), pois são de difícil coleta, e boa parte vai parar no leito dos oceanos, servindo de comida para o plancton e compremetendo toda uma cadeia de fauna marinha (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0025326X74903117). Há uma desinformaçao que é explorada por alguns de forma imoral, que visam apenas seus interesses próprios.

Para transformar um determinado volume de eps em novo volume para mesma utilização, é necessário a adiçao de 90% de matéria prima virgem, ou seja, em uma prancha de eps reciclado, 90% da matéria prima é na realidade virgem. Não há um só fabricante de eps no mundo que prove o contrário. Aliás, a maioria dos fabricantes de eps sequer aceitam resíduos deste material para reciclagem.

Infelizmente até mesmo uma instituição renomadamente e séria como a Surfrider Foundation divulgou esta verdadeira fraude ambiental através de vídeo, onde recolhem resíduos de eps e levam para uma máquina de compressão que transforma as pérolas do eps em uma pasta rígida que supostamente seria utilizada para fabricar uma quantidade de pranchas, porém não mencionam o quanto é necessário de adição de matéria prima virgem para que isto seja possível.

O Slater fabrica pranchas e tem como sócio a WSL na piscina de ondas, ou seja, eles querem vender o produto deles. Tudo bem, não há nada demais nisso,  se for colocado de forma explícita. Porém o que aconteceu foi que  o principal diretor da WSL convocou a todos durante o evento de Trestles no ano passado para informar que no evento do ano seguinte apenas pranchas sustentaveis poderiam participar do evento, mas afinal de contas o que é uma prancha sustentavel? Por definição um produto sustentável é aquele que apresenta o melhor desempenho ambiental ao longo de seu ciclo de vida, com função, qualidade e nível de satisfação igual, ou melhor, se comparado com um produto padrão, ou seja, a intenção deles é outra. Várias pessoas sacaram isso, entre elas os jornalistas Nick Carol e Chas Smith, que os comparou a Fascistas (http://beachgrit.com/2016/10/fascist-wsl-to-regulate-surfboards/).

A empresa lançará algum produto novo em 2018?

Nossa missao é atender a demanda com produtos de qualidade. Iremos apresentar alguns produtos novos, tanto na linha do EPS quanto do PU, que terá como destaque o Premium Pro.

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