Entrevista Jaime Viudes - Um papo sobre longboard

Longboarder profissional e surfista de alma, Viudes fala com exclusividade para o Ricosurf



"Acredito que o surf tem tudo para ser cada vez mais uma válvula de escape dessa loucura toda que estamos vivendo. É inegável o benefício da revolução tecnológica, mas confesso que me alopra." Foto: Luciano Cabal

Jaime Viudes é um nome de peso no longboard brasileiro. Visionário, escritor, competidor, idealizador... O cara entende do assunto e sabe muito bem o que fala ou, nesse caso, escreve. 

Nos correspondemos com o longboarder, que veio ao Rio recentemente, e batemos um papo bem abrangente sobre o que está rolando no mundo do longboard, quais são as tendências, tipos de pranchas, tipos de ondas, surf progressivo, clássico, Longboarding Experience, futuro, e outros tantos temas que você pode ver abaixo, sempre relacionados com o surf no sentido mais amplo da palavra.

"Minha esperança é que o surf seja um filtro poderoso de todo esse bombardeio de informações e interferência cultural. Para surfar é preciso estar conectado com a natureza e consigo mesmo, e para que isso aconteça é preciso estar offline.", afirma Viudes.

Confira a entrevista na íntegra:

Iuri Corsini - Estamos na era das evoluções, da constante mudança e da velocidade das informações; dizem alguns especialistas, inclusive, que estamos no meio de uma revolução tecnológica. 
O surf, por essência, é traduzido naquele verídico clichê de que o nosso esporte é, além de tudo, um estilo de vida. E um estilo de vida no qual resguarda muitas tradições e tem como pano de fundo a simplicidade e magia da interação homem natureza. Nesse aspecto, como você enxerga o futuro do nosso esporte?
 
Jaime Viudes - Acredito que o surf tem tudo para ser cada vez mais uma válvula de escape dessa loucura toda que estamos vivendo. É inegável o benefício da revolução tecnológica, mas confesso que me alopra. E não acho que isso aconteça só comigo. As pessoas andam muito aceleradas e ansiosas. Estamos cada vez mais precisando de reflexão, de momentos de paz. Hoje não temos mais um tempo a sós. O celular não nos permite mais isso. Acho também que estamos perdendo nossa identidade. O acesso fácil ao que acontece no mundo está deixando tudo muito igual. No surf, mais especificamente entre os loggers, muita gente, por exemplo, copia os californianos. Se basear em performance ok, mas estão copiando os caras até fora dágua.  Cadê nossa identidade? 
Minha esperança é que o surf seja um filtro poderoso de todo esse bombardeio de informações e interferência cultural. Para surfar é preciso estar conectado com a natureza e consigo mesmo, e para que isso aconteça é preciso estar offline. 
 
E no que diz respeito a produção de pranchas, parece-me que há uma certa "rivalidade" entre os handshapers e aqueles que fazem o shape na máquina. Como você avalia isso? Na sua opinião a fabricação de pranchas através da máquina perde um pouco da essência do surf ou faz parte da evolução natural das coisas?
 
Sem dúvidas faz parte da evolução natural. Agora, não dá para queimar etapas. O cara tem que saber fazer na mão antes de dominar a máquina. Isso dá embasamento, credibilidade, muito mais intimidade com a arte. Acho que a rivalidade existe pouco, mais para quem não tem uma demanda grande de encomendas. Porque se o cara tem uma alta procura, ele não vai dar conta de fazer tudo à mão. Acho que a máquina veio para agregar, é uma ferramenta a mais. A essência fica mais para o shaper, o cara que vai botar a mão na massa. Para o surfista que vai usar independe. O que importa é se a prancha vai funcionar. Ele vai ficar feliz de qualquer jeito, sendo a mão ou à máquina. Mas acho importante o shaper trabalhar das duas formas. 
 

Viudes esteve há pouco tempo na Praia da Macumba. Foto: Luciano Cabal

E nessa levada, agora falando do estilo de surf. Em coluna sua em um site especializado, você narrou um divertido "enterro" do estilo clássico do longboard, protagonizado por um ícone do surf clássico, Fuad Mansur. Como você enxerga essa "disputa", digamos assim, entre os progressistas e os puristas.
 
Na verdade foi o enterro da prancha clássica do Fuad. Um caso específico. Ele sempre foi defensor ferrenho da abordagem clássica, mas depois de um longo tempo experimentou uma prancha minha mais progressiva num dia que o mar estava bem grosso no Guarujá. Ele sentiu uma coisa que não sentia há muito tempo. Performance! Ele estava no comando da prancha, sentiu velocidade, fluidez e segurança. Saiu amarradão e daí surgiu aquela brincadeira. Mas ninguém quis matar o surf clássico. No máximo quisemos dar um ressuscitada no progressivo, que vinha sendo tão massacrado pela mídia e pelos loggers.
Sobre essa disputa entre progressistas e purista, é preciso respeitar as diferenças antes de qualquer coisa. Esses dias um cara comentou sobre um vídeo que postei no Instagram, em que eu surfava com meu Log 9'6 num dia de marolas perfeitas. Ele escreveu: "Isso sim é longboard de verdade". Me chamou a atenção, quer dizer que o surf progressivo é uma grande mentira? 
A prancha progressiva nada mais é que uma evolução. Uma prancha mais obediente, onde a força se sobrepõe à técnica. Oferece uma resposta mais fácil e mais rápida, que anda com mais velocidade e controle em ondas irregulares ou maiores. O longboard passou por alguns processos e quem vive a modalidade hoje tem sorte de usufruir de uma gama maior de equipamentos. Somos beneficiados por termos informação suficiente de que um longboard tradicional, single fin, é muito eficiente em marolas lisas e limpas. Mas sabemos que para outros tipos de ondas um equipamento mais versátil vai ajudar a obter a tal performance que o Fuad já havia se esquecido.
De uns cinco anos para cá, a cena do surf clássico cresceu, graças aquela globalização que mencionamos no início da conversa. Eu achei que o surf progressivo ia acabar tamanha força que o clássico veio. Entrei de cabeça nesse segmento. Foi um grande laboratório, só agregou. Entendi muita coisa e resgatei outras que sabia mas tinha esquecido. Comecei no longboard com pranchas clássicas, mas aí vieram as competições e peguei o boom do surf progressivo. Então esse resgate para mim foi precioso. Mas conforme o swell explodia eu percebia que precisava das minhas pranchas progressivas.
Então, eu vejo muita coisa boa no clássico, mas até que ponto uma prancha clássica é mais funcional em ondas como as que surfei na Macumba esses dias? O swell estava sólido, 6 pés. Eu não teria o mesmo aproveitamento daquelas massas de estivesse com meu Log 9'6. Por isso usei um modelo intermediário, entre um clássico e um progressivo. Antes de ser taxado de longboarder, logger ou o que quer que seja, somos surfistas. Surfista gosta de onda boa. Vai atrás de swell. 
A cena clássica não é entendida por todos. Caiu no gosto de iniciantes, por exemplo, pela prancha ter medidas mais generosas, oferecendo maior conforto na remada e estabilidade para ficar em pé. Mas o surf clássico legítimo é a vertente mais técnica do longboard. Não é porque você desliza na onda com um Log que você está fazendo surf clássico. Conseguir performance de verdade nas manobras tradicionais é que determina isso. Uma prancha clássica é uma prancha técnica, é preciso levar ela no jeito, ou seja ela quem dá as cartas. Para remar e ficar de pé é mais fácil, mas todo o resto é mais difícil.
Também tem gente fazendo e usando pranchas que eu não definiria como clássica. Aliás tem um monte por aí. Falo isso porque já experimentei algumas.
Dentro do universo dos pranchões, eu traço qualquer tipo de equipamento. Quem escolhe minha prancha é o mar. Eu só obedeço. Se tiver marola vou optar pelo meu Log 9'6 single fin, mas a progressiva ainda me atende sempre que o caldo engrossa. O estado de espírito também conta. Se estou na dúvida de qual prancha uso, um modelo híbrido é garantia de bom surf. Acho o surf divertido demais para se prender a conceitos.
 
 O tipo de onda aqui no Brasil é mais propício para a evolução do surf progressivo?

O próprio Joel Tudor diz que o surf clássico ideal é praticado em ondas de pointbreak no máximo até a altura do peito. Quase não temos pointbreaks, com raras excessões. Então, a maioria dos nossos picos são sim mais propícios para o surf progressivo, mas até Maresias tem seus dias para o surf clássico. Por isso é importante ter um quiver variado e a mente aberta. Isso vai aumentar seu poder diversão e te transformar num surfista mais completo. Não existe guerreiro de uma batalha só.  


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O que significa o noseriding para você?
 
O noseriding norteia o surf de longboard, independente da prancha que você esteja usando. Sou a favor do surf progressivo desde que o cara saiba usar a extensão da sua prancha. Gosto do exemplo do Bonga Perkins. Ele sempre começa suas ondas pelo noseriding ou encaixa em qualquer outro momento. Todo o resto do seu vasto repertório vem como consequência de uma leitura absolutamente voltada para o noseriding. O noseriding é a base de tudo no longboard, o resto é bônus.


Viudes no clássico hang five. Foto: Cássio Carvalho 

Como você explica a excelente performance dos nossos atletas de longboard nos circuitos mundiais? Temos o Phil Rajzman como bicampeão do mundo, e, agora, a Chloé Calmon muito perto de conquistar o seu primeiro caneco. Podemos dizer que as ondas brasileiras são boas para a prática do longboard ou são os nossos atletas que são super talentosos?
 
O talento jamais pode ser menosprezado. Mas também tem a questão do tamanho do querer de cada um. Falando de uma forma mais abrangente, o Brasil, junto com a Austrália, é o país mais competitivo do longboard mundial. Isso fomenta o desejo de ser campeão. Para o critério atual de julgamento, o surf da Chloé é perfeito. Ela é uma longboarder completa, muito eficiente na linha horizontal, com manobras de nose muito bem trabalhadas, um footwork apurado, curvas polidas e fluídas, mas também sabe aplicar força. Mentalmente está madura. Soube aprender com algumas derrotas recentes e é assim que se faz um campeão.
O Phil sempre teve mente campeã. É um competidor nato. Se reinventou para conquistar seu segundo título. O que ele fez foi incrível e mostra do que ele é capaz. Não acredito que ele tenha se dado por satisfeito. Vai querer sempre mais. É um dos veteranos no tour e isso, aliado a uma boa condição atlética, fazem dele sempre um favorito. O Phil é um exemplo de que também é preciso ter um bom "xadrez" na manga para

Como você enxerga o surf na sua vida?
 
A influência do surf é tão grande que eu nem sei explicar. 
 
Tem alguma nova produção engatilhada?
 
Tenho alguns bons projetos, mas no momento estou trabalhando para estruturar o Longboard On Line, um serviço voltado para atender e dar suporte aos amantes dos pranchões, como compra e vendas de pranchas novas e usadas, inclusive encomendas com alguns dos melhores shapers, aulas, clínicas, consultoria e tudo o que envolve o universo do longboard.
 
Recentemente ocorreu, em Ubatuba, o Longboarding Experience, que reuniu os grandes nomes da modalidade. Como foi esse evento?
 
O Longboarding Experience é um festival da cultura surf. Rolam várias atrações, como palestras, feira, música, sessões de surf, test drives, clínicas, workshops, conscientização ambiental, etc. Esse foi o segundo evento. Tivemos como palestrantes o Phil Rajzman e eu também apresentei minha palestra sobre a cultura longboard, além dos shapers Neco Carbone, Thiago Mariano e Marcelo Carbone. O Felipe e Fábio Siebert mandaram ver no workshop sobre pranchas de madeira. A Alma Quilhas também apresentou seu workshop exclusivo sobre quilhas. Foi uma grande confraternização com surfistas de todas as partes do Brasil.

 
Qual foi o grande legado deste encontro, que reuniu diferentes gerações e surfistas com diferentes abordagens?
 
O principal legado é de respeito a toda e qualquer forma de surf. O evento é entitulado Longboarding Experience - Do clássico ao progressivo. Isso não é a toa. É uma celebração ao surf e ninguém pode condenar a forma como outro surfa. É um evento democrático. São todos bem vindos. A principal mensagem é que não existe o certo ou errado no surf. O errado é não se divertir.

Qual a importância desse tipo de encontro?

Além de passar muita informação, é um evento que tem tudo para preencher uma lacuna que falta aqui no Brasil. Por aqui tudo é competição, todo evento tem que ter um campeão. No Longboarding Experience o campeão é a cultura surf. O clima é leve, festivo e divertido. Ficamos muito satisfeitos com a evolução desse segundo evento e seguimos motivados para crescer nesse seguimento e colocar a modalidade no lugar que ela merece. Tem novidade vindo por aí, mas vamos aguardar um pouco mais para soltar. Apenas queremos celebrar a cultura surf e o longboard tem essa missão, afinal é o símbolo do soul surf.

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