Exclusivo - Alejo Muniz: “Ninguém está livre de nada, tem que batalhar”

Catarinense falou sobre vários assuntos, incluindo a falta de um patrocínio de bico, a luta no QS, a nova vida de pai, o novo circuito da WSL, se os atletas de base regular levam vantagem no CT e mais


Alejo Muniz teve um fim de 2017 e um início de 2018 movimentados. No final de dezembro ele anunciou o fim da parceria com a Hurley/Nike, marcas que o patrocinaram durante 7 anos. No dia 17 de janeiro nasceu seu primeiro filho, Martín Hokedei Muniz. Uma montanha russa de emoções para um surfista de elite que sofreu uma lesão grave no joelho na etapa francesa do CT em 2016, que caiu para a divisão de acesso e que não conseguiu se reclassificar para a elite de 2018.

Pra saber como está a cabeça desse top, a equipe do Ricosurf preparou a entrevista abaixo. Confira:

Alejo Muniz está de olho na vaga no CT 2019. Foto: divulgação.

Alejo Muniz está de olho na vaga no CT 2019. Foto: divulgação.



Carlos Matias - Como está a vida de pai?

Alejo Muniz - A vida de pai está muito massa, estou curtindo pra caramba, cada dia a gente aprende uma coisa, pois apesar de ser muito neném e de não interagir tanto, o cara aprende muito e começa a entender um monte de coisas, como o que realmente vale na vida e o que a gente tem que dar valor. Estou curtindo um monte e aproveitando cada minuto antes de viajar.

O que você acha que isso pode te ajudar na vida profissional?

Quando estava perto de ser pai, muita gente falava que filho sempre traz sorte, mas eu procuro não pensar nisso e fazer o melhor por ele agora. Acho que nesse quesito ele vai me ajudar bastante na minha vida profissional, por que eu já comecei a pensar: "Po, na Austrália eu quero ir muito bem, que é pra fazer bem por ele". Acho que um filho ajuda mais na parte pessoal, a ser uma pessoa melhor, do que no lado profissional, mas no profisisonal eu acho que vai me ajudar por que eu sempre vou querer fazer ainda mais por ele.

Foto: divulgação.

Foto: divulgação.



Você iniciou 2018 sem o patrocinio de bico (principal). Como você está se organizando para o circuito? Houve alguma mudança?

Essa é primeira vez, depois de muitos anos, que vou estar competindo desde o início da temporada sem um patrocinador principal. Eu sempre tive patrocínio. A notícia me pegou meio despreparado, mas são coisas que acontecem, a gente vê isso acontecer todos os dias no mundo do surf.

Mas também foi uma coisa que me fortalceu um monte e me mostrou que ninguém está livre de nada, tem que batalhar, tem que correr atrás, como eu sempre fiz, para as coisas acontecerem. Então isso foi só mais uma maneira de eu tentar pegar forças de outro lugar para ir melhor nesse ano. E se Deus quiser vou conseguir os resultados que eu preciso e vou conseguir fechar um patrocínio novo.

* Alejo segue com o patrocínio da Dragon e da construtora Nosso Lar, e a novidade de 2018 é a Dicolore, que é uma indústria de cosméticos de Santa Catarina.

Alejo fechou esse ano com a Dicolore. Foto: divulgação.

Alejo fechou esse ano com a Dicolore. Foto: divulgação.



Na primeira vez que você saiu do CT (2014), conseguiu se reclassificar com muita facilidade e velocidade no QS do ano seguinte. Nessa segunda saída (2016), você não conseguiu a reclassificação. O que você acha que aconteceu?

Na primeira vez que eu saí do CT eu me reclassifiquei em seis meses, o que foi um tempo recorde. Foram vários fatores naquele ano, um é que eu saí do CT em alta. No Pipe Masters eu fui super bem (foi até as quartas de final terminando em 5º lugar). Foi o ano que o Gabriel foi campeão. Então aquilo me deu muita confiança.

A outra é que eu acho que eu tinha atingido um nível muito bom de surf e de preparação física, então eu consegui me focar bem nos campeonatos e fazer bem o que eu precisava.

Ano passado foi um pouco mais difícil, por que no ano anterior eu competi com muitas dores no joelho após a minha operação, e ano passado eu ainda tinha muita dor e eu só fui ficar praticamente sem sentir nada do meio para o final do ano, quase no final.

Esse ano eu estou completamente curado, então o que influenciou ali mesmo foi a minha lesão, pois eu tive que voltar a competir muito antes do que o previsto depois da minha operação, e eu estava me recuperando, recuperando o meu surf, recuperando a minha confiança. Além de tudo eu tive bons resultados, consegui terminar o ano entre os trinta primeiros mesmo sem estar surfando e com a confiança que normalmente eu tenho.

Alejo venceu Mick e Kelly no Pipe Masters de 2014. Foto: divulgação.

Alejo venceu Mick e Kelly no Pipe Masters de 2014. Foto: divulgação.



O que você pretende mudar em relação ao ano passado?

Não vou mudar muito. As coisas principais que eu mudei foram as medidas das minhas pranchas, eu dei uma ajeitada para ficar um pouco mais fácil pra eu surfar. O foco é o mesmo todos os anos. No ano passado, apesar de eu não ter estado 100%, meu foco sempre foi me reclassificar e esse ano vai ser a mesma coisa, não tem muito o que mudar. A minha preparação fisíca está boa, só que eu acredito que a minha confiança e meu surf estão melhores esse ano do que no ano passado.

Como você tem visto essas mudanças da WSL, a entrada e a saída de alguns picos e a mudança (que ainda vai acontecer) no calendário?

Mudanças sempre causam estranheza na gente, mas acho que é uma questão mais de costume. Keramas, uma das ondas que vão entrar no CT e que fica na Indonésia, é uma onda muito legal, uma onda muito perfeita, de high performance.

Eu gostaria que Fiji e Lowers (Trestles) não tivessem saído, e que Keramas e a piscina de ondas fossem adicionadas e que não trocasse duas por duas. Mas eu acho que vai ser legal do mesmo jeito para assistir e para o atletas surfarem também.

Keramas é uma onda animal e a Indonésia em si tem muita onda, então todos os anos quando nós vamos competir por ali sempre acabamos pegando muitas ondas. E a psicina de ondas é a novidade, todo mundo que surfar, todo mundo quer assistir, todo mundo quer competir, então eu acho que vai ser legal.

Keramas. Foto: divulgação.

Keramas. Foto: divulgação.



Você, como um regular, acha que quem surfa de frente para a direita leva vantagem no atual circuito da elite?

Eu não dou muitos créditos a isso de levar vantagem sendo regular ou goofy. Claro que em ondas como Jbay é muito mais fácil surfar de frontside, pela velocidade dela, mas muitos goffys já fizeram bons resultados lá.

É difícil dizer isso (que os regulares levam vantagem), pois tem caras como o Gabriel que surfam muito em todas as condições, não tem um mar que você fale: “Po, eu vom competir contra o Gabriel para a direita e tenho mais chances”. Não, se você não surfar bem ele vai te vencer.

Acho que isso era mais coisa do passado e de gosto. Claro que os regulares vão querer ir para a direita e os goofys para a esquerda, mas essa questão de ser favorecio eu não consigo enxergar.

Alejo está treinando forte para o QS 2018. Foto: divulgação.

Alejo está treinando forte para o QS 2018. Foto: divulgação.



O que você diria para um surfista que está começando a se profissionalizar e que pretende participar do Circuito QS?

É pra ir de cabeça, não se abalar com resultados ruins no começo, por que o QS é bem injusto nessa parte, você acaba competindo em mares ruins, tem muitos surfistas bons, são muitas baterias e é fácil você ficar frustrado. O QS é uma batalha de um ano inteiro, não pode se abater se for mal no começo, nas primeiras etapas, e ao mesmo tempo se você for bem não pode achar que o trabalho já está feito.

O QS é constância, então procurar ser o mais constante possível, ter sangue nos olhos pra ir pra cima de todo mundo, querer ganhar de todo mundo e dizer que é possível, pois só tem que terminar entre os dez primeiros no final do ano. Ali tudo é possível, é só a pessoa ser constante, estar concentrada e preparada para cada momento.

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