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Memória - Uma entrevista de Maraca

Autor: Administrador
Data da publicação: 09/11/2016 - 00:02h
Maraca no Maracanã do Surf, Itaúna. Foto: Nilton Baptista.

Em 19 de julho de 2012 uma entrevista foi publicada no site da Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro - FESERJ. O cara entrevista foi nada menos que Rossini Maranhão, o Maraca, lenda do surf brasileiro que faleceu nesta terça-feira em Saquarema.

No bate papo o legend falou de sua entrada no mundo do surf, lembranças de dias gigantes no Hawaii, perrengues dentro d’água, sua vida profissional e ainda mais.

Confira a entrevista:

O nome dele é Rossini Maranhão, o Maraca. Grande surfista da década de 60, um dos pioneiros do surf carioca. Abriu as portas para o surf de ondas grandes para os surfistas brasileiros, sendo o primeiro brasileiro a surfar em Waimea, 1969.

Perfil do atleta

Data de nascimento: 03/03/1950

Apelido: Maraca

Tempo de surf: 48 anos

Posicionamento na prancha: goofy-foot

Quiver: 6’4”, 6’9”, 7’2”, 9’4”

Perguntas

Quando o surf começou a fazer parte da sua vida?

Em 1963 no Leme e na praia de Copacabana nos Postos 2, 3, 4, 5 e 6, Arpoador e Quebra-Mar. Também nas praias da Barra da Tijuca, Macumba, Prainha, Grumari, Guaratiba, Saquarema, Cabo Frio e Búzios.

Faça uma comparação do surf de hoje (2012) com o de quando você começou. Quais as principais mudanças desde as pranchas até os melhores picos de ondas?

O Longboard tinha um estilo clássico e o noseride era a manobra mais considerada. Aí comecei a surfar com a maior rapidez e fazendo manobras, dando viradas na base e passagens rápidas nas paredes, cobrindo assim uma maior extensão nas ondas. E hang-five ou strecth era a posição mais segura e luxuosa para passar paredes.

Maraca no Píer em 1973. Foto: Fedoca Lima.

Maraca no Píer em 1973. Foto: Fedoca Lima.



Como você se sente sendo o primeiro brasileiro a surfar Waimea?

Me senti um big rider mesmo deste dia em diante, porque eu cai num dia de 22 a 25 pés de oeste, com maior força d’água e gigante em 1969, mas perfeito, daqueles impressionantes. A noite não consegui dormir de maneira nenhuma, porque não baixava a adrenalina. Fiquei impressionado com aquelas verdadeiras montanhas d’água que surfei e achei que foi uma atitude “over”. Aquela situação vinha de novo na memória, mas como eu encarei concentradíssimo eu tinha certeza que poderia dropar, porque estava preparado fisicamente e com fôlego em dia porque já tinha caído em Sunset 15 pés várias vezes, e principalmente em outros dias de 18” pés que são piores que Waimea.

Já tinha passado por uma situação de vida ou morte com o Eddie Aikau, quando nós estávamos lá fora num dia de 18 pés e ondas de 25 a 28 pés fecharam de Backyards a Pipeline. Tive o fenômeno psíquico de ver toda sua vida em 1 ou 2 segundos, passar o filme como dizem quando você pensa que vai morrer mesmo ou você sabe que passou dos seus limites. Graças ao meu preparo físico e de fôlego de 2 minutos e meio a três, que eu que, me salvei no extremo limite quando pensei que não ia dar mais.

Qual a dica para surfar o Waimea?

Muito preparo físico, estar bem concentrado e com o fôlego em dia. Não se pode achar que é fácil, porque não é. Sempre esteja com um equipamento especial pro tamanho do mar. Já no point, primeiro, a entrada no quebra-coco é radical e se você não espera o momento certo, você pode ficar ali apanhando radical e pode até quebrar a prancha ao meio ali mesmo.

Depois que passar o super quebra-côco, uma Itacoatiara grande, você começa a remar lá pro outside com cuidado pra não ficar na zona de impacto e é bom saber se a maré está enchendo ou esvaziando, porque a força d’água é imensa e se a maré estiver enchendo você rema o dobro. Na vazante é bem mais fácil, mas você tem que olhar constantemente pro horizonte a direita se for um swell de norte e a esquerda se for de oeste que é mais perfeito, mas muito mais perigoso, pois toda hora vem uma mais pra fora.

No swell de norte vem algumas mais pra cá e outra mais pro canto da pedra e as vezes você se posiciona pro pico mais da esquerda e vem uma mais pra fora e aí você engole geral. Não é mole, tem que estar ligado geral. As ondas são enormes e você tem que estar bem posicionado senão a remada vai começar em lugar errado ai você caí lá de cima, ou a onda fecha porque Waimea tem um detalhe a mais que é o “elevator”, que é quando você rema e sente que entrou na onda e você pensa que vai despencar, a onda ainda te dá uma subida e aí sim você despenca geral.

Tem que estar preparado para esta jogada pois senão você se assusta e caí lá de cima, e aí sim terá problemas, porque a despencada é absurdamente perigosa porque caem milhões de litros d’água em cima de você e parece que você não vai subir mais, parece que seu corpo será esquartejado. Ainda tem a onda que vem atrás, que também vai te pegar e aí você tem problemas ainda maiores.

Nesse momento seu fôlego já está comprometido e aí se você não estiver em excelente forma física pode acontecer algo indesejável, que é beber água, e ai tem problemas maiores ainda.

Se ficar com medo aí a adrenalina te domina e diminui sua resistência. Tem problemas graves de ter que chamar o helicóptero ou Jet-ski porque você não tem mais força pra sair dali. E já aconteceu isto com vários surfistas, que chamaram o helicóptero que fica lá nos dias mais brabos e tem que pagar 500 dólares em 2 ou 3 dias senão você vai ser processado. E tem que pagar mesmo.

Conte um pouco da sua carreira como surfista profissional.

Estive em muitas finais no Hawaii, no Peru, no Brasil… Conquistei várias colocações, segundos, terceiros, quartos, quintos lugares e os mais expressivos foram vice-campeão Brasileiro em Ubatuba e o sétimo lugar no Campeonato Mundial de Ondas Grandes de Punta Rocas, em Punta Hermosa, Peru.

Nessa competição eu venci vários campeões de vários países,e todos ficaram chocados com minha excepcional e radical performance. Só não fui melhor na final porque ondas de 15 pés entraram na hora que cheguei no outside e levaram minha prancha após sucessivos caldos. Como não tinha cordinha, acabei perdendo a prancha lá fora e acabei nem surfando na grande final. Só nadei de volta e quando cheguei lá fora de novo a bateria acabou.

Uma experiência radical no surf.

Estava em Pico Alto, Punta Hermosa, Peru, em 1968, surfando 20 a 22 pés quando uma série maior de 25 / 26 pés entrou e me engoliu radicalmente. Quatro surfistas - Keith Paul - campeão australiano, Guilherme Wiese - peruano big rider, Chino Malpartida - big rider peruano e Pocho Awapara - outro super big rider peruano que estavam lá fora comigo, a 1 km da praia.

Pensei que ia morrer, passou o filme também, tomei uns 30 caldos inacreditáveis porque a onda em Pico Salto quando quebra a espuma cresce cada vez mais e não deixa afundar e te carrega por centenas de metros, não deixando você respirar.

Quando você consegue parar a espuma tem uns dois metros de altura e ai você não vê quando a próxima vem, com aquelas ondas monstruosas, geladas e com uma força estupenda. Daí nadei quase 2 horas pra chegar na areia, passando por várias arrebentações. Só quem sabe é quem surfou lá, o sufoco brabo que é.

A prancha foi parar lá em EL Silencio. Depois deste dia fiquei consideradíssimo lá no Peru, inclusive fui convidado pra jantar com tudo pago pelos peruanos. Pela coragem que demonstrei naquele dia e a sorte que dei porque minha prancha não quebrou ao meio.

Qual a dica que você daria para quem quer levar o surf como profissão?

Treinar com dedicação e fazer um trabalho de preparo físico e psíquico. Muita e dedicação concentração.

Ping pong

Onda: Jeffrey’s Bay

Tubo: Sunset Beach

Manobra: Snap back

Esquerda e Direita: Praia de Itaúna e Jeffrey”s Bay

Trip: África do Sul

O que não pode faltar na mala: Dinheiro.

Pico do Rio: Arpoador Clássico

Pico do Mundo: Sunset Beach

Surfista: Gabriel Medina

Shaper: Carlos Roberto L”Astorina

Música: Diane Krawl

Filme: Missão Impossível

Livro: Transição Planetária

Comida: Peixe na Brasa e frutas

Time de futebol: Flamengo

Deixe uma mensagem para a nova geração do surf:

Aproveitem, porque praticar o esporte em conjunto com a Natureza é o máximo.

Entrevista por Vanessa Corrêa - FESERJ





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