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Surf nas Olimpíadas - Nada de piscina, o pico no Japão vai ser Shida Shita

Autor: Administrador
Data da publicação: 21/09/2016 - 00:05h
Esse vai ser o palco das disputas de surf nos jogos olímpicos de Tóquio em 2020. Foto: Pedro Gomes.

Assim que imagens da piscina de ondas de Kelly Slater começaram a circular nas mídias e o tema “Olimpíadas” entrou em pauta, uma dúvida pairou no ar: os japoneses vão construir um lugar com ondas artificiais para as disputas dos jogos de Tóquio em 2020? A resposta do Comitê Olímpico Internacional foi não.

Para saber e conhecer o lugar onde vão ser realizadas os confrontos, a equipe do Ricosurf fez contato com o fotógrafo freelancer especializado em surf, o brasileiro de Porto Alegre Pedro Gomes @pedrogomesphotography, que vive no Japão há 15 anos.

No bate papo, Pedro falou sobre a praia que irá sediar as disputas, comentou como a sociedade japonesa enxerga nosso esporte, localismo, quais os principais picos do país, radiação, melhor época para o surf, competições japonesas, nova geração e muito mais.

Confira:

Carlos Matias - Onde você vive no Japão?

Pedro Gomes - Eu moro em Omaezaki, uma cidade litorânea bem pequena na província de Shizuoka, que fica aproximadamente há 200 km de Tóquio.

Você já trabalhava com o surf quando foi para o Japão? Como foi o início do trabalho com o esporte por aí?

Não, eu já trabalhava com fotografia, mas nada a ver com surf e no primeiro momento tive uma enorme dificuldade em me inserir no meio fotográfico aqui no Japão, até muito em função do idioma, já que eu não entendia nada.

Eu sempre peguei onda de bodyboard e nunca passou pela minha cabeça perder um dia de altas ondas para fotografar os outros. Em 2009 a empresa que eu trabalhava faliu e o país enfrentava uma crise econômica muito grande, foi nesse momento que resolvi retornar a fotografar, e por morar de frente para a praia resolvi também incluir o surf ao meu trabalho fotográfico.

Como a comunidade do surf no Japão recebeu a informação da entrada do esporte nos jogos de Tóquio em 2020?

Com muita euforia e esperança. O surf nacional é muito bem organizado, com uma entidade nacional bem estruturada (JPSA - Japan Pro Surfing Association) que realiza o campeonato nacional com mais ou menos oito etapas anuais, e também com uma entidade nacional de surf amador, a NSA (Nihon Surf Association), que também realiza diversas etapas a níveis regional e nacional.

Apesar da organização e da boa estrutura oferecida, o mercado do surf sofre com a falta de investimentos no setor, até como um reflexo da atual economia japonesa que se encontra estagnada por anos.

Outro aspecto que cabe ressaltar da entrada do surf nas olimpíadas é sobre a imagem do surf como esporte perante a sociedade japonesa. No Japão o surf ainda é visto como um esporte alternativo, do cara que não gosta de trabalhar muito, só pensa em pegar onda e tem um estilo de vida que não se enquadra nos padrões japoneses.

Com a entrada do surf como modalidade olímpica esta visão pode mudar e está é a grande esperança de quem trabalha com surf no Japão. Uma vez que a imagem do esporte melhore e que o surf tenha uma aceitação pelo grande público, existe a possibilidade de grandes empresas começarem a investir mais no esporte gerando mais renda para surfistas e profissionais do ramo.

Onde vão ser realizadas as disputas de surf nos jogos de Tóquio em 2020?

A competição acontecerá em praia natural na província de Chiba, mas precisamente na praia de Shida Shita, localizada a 100km de Tóquio onde acontecem as principais competições de surf do país, como o último QS6000 que rolou em maio deste ano com uma boa presença de surfistas brasileiros.

Cabe ressaltar que em caso de uma má formação ou vento não favorável, existe a possibilidade de o evento mudar mais ao sul da província de Chiba, para a praia de Hebara ou Kamogawa, mas a primeira opção é a praia de Shida Shita na cidade de Ichinomya.

Flavio Nakagima em Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.

Flavio Nakagima em Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.



A época dos jogos coincide com a temporada de ondas no Japão?

As olimpíadas acontecem no mês de agosto, o início da temporada dos tufões onde costumam rolar altas ondas, mas é tudo uma questão de direção do swell e da direção do vento. Tanto podem rolar altas ondas como pode ser um mar todo mexido de ressaca.

As ondas no Japão contam com uma ótima formação, mas por outro lado sem tufão tem uma constância muito ruim, com longos períodos de flat ou de ondas muito pequenas. Eu particularmente acharia interessante contar com uma piscina de ondas no caso do mar não estar nas melhores condições.

Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.

Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.



Quais são os principais picos para o surf no Japão?

O Japão é uma ilha com um litoral todo recortado. Existem inúmeros picos de surf com fundos de areia, pedra e coral pelo país todo, com todo tipo de onda, desde pequenas, longas e prefeitas para o longboard, até ondas tubulares e perfeitas com fundo de coral.

Os picos mais famosos são onde acontecem as etapas dos QS e antigamente o CT, como Shida Shita (província de Chiba), Shonan (província de Kanagawa) e Tahara (província de Aichi), porém existem inúmeros picos já conhecidos e tantos outros ainda a serem explorados.

Mas meu conselho para surfistas visitantes e tomar cuidado com o localismo, tem muito e é preciso saber tomar muito cuidado com isso para não entrar em nenhuma roubada.

Como está a nova geração do surf japonês? Quem você apostaria que vai entrar no CT nos próximos anos?

Desde que eu cheguei aqui o nível dos surfistas melhorou muito. Se nas gerações passadas só se ouvia falar de Masatoshi Ohno e da lenda em Pipeline Wakita Takayuki, hoje a nova geração tem vários nomes que acredito que tem potencial.

Eu destacaria o campeão do US Open de 2015, o Hiroto Ohhara, e cabe lembrar do japonês naturalizado americano Kanoa Iagarashi que já está na elite do surf mundial fazendo sua estreia no CT este ano.

Outro japonês que eu tenho muita fé que se destaque mundialmente é o jovem Joe Azuchi, de apenas 15 anos, que sempre se destaca na temporada havaiana, que já compete no circuito profissional nacional e que acabou de ganhar uma etapa do pro junior realizado pela WSL no Japão.

Hiroto Ohhara em Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.

Hiroto Ohhara em Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.



E o assunto radiação, isso ainda é um problema para o surf japonês?

Em conversas que tenho com membros da JPSA, eles me passam que não existe risco de contaminação. São feitos inúmeros testes no litoral que apontam um nível de radiação aceitável. Porém não se pode garantir com toda certeza, pois existem muitos interesses econômicos e sociais envolvidos na questão da crise nuclear.

Nos picos de surf perto da usina nuclear de Fukushima, onde ocorreu o acidente, não é permitido surfar, mas na província vizinha, de Ibaraki, há menos de 50 milhas marítimas, está liberado e acontecem, inclusive, etapas de surf profissional na região.

Hiroto Ohhara em Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.

Hiroto Ohhara em Shida Shita. Foto: Pedro Gomes.



As Olimpíadas do Rio animaram muita gente que agora já pensa em ir para Tóquio ver os próximos jogos. O que você pode falar para essas pessoas?

Que venham. O Japão é um destino ótimo para se viajar e ainda por cima rola onda. O povo é muito educado, o país muito seguro e costuma receber seus visitantes da melhor maneira possível. Creio que as olimpíadas de Tóquio têm tudo para ser um sucesso, assim como foram as olimpíadas do Brasil.

Ricosurf / Por Carlos Matias





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