Colunista Gustavo Franck: de Dick Dale a Bob Marley, passando por Simon Anderson

Colunista fala sobre a intensa relação entre surfe e música


Foi sem nunca ter sido (instagram: @surfandmusic_br) No hiato entre as etapas do CT, a coluna direciona sua verborragia a outro tema que sempre surfa por essas linhas: a música. A ligação umbilical do surf com a música é incontestável e nenhuma outra modalidade esportiva goza de tanta proximidade com as claves, colcheias e semínimas. Afinal, quase todo mundo já ouviu falar em surf music, mas vôlei music, natação music ou (para o bem dos ouvidos mundo afora!) futebol music, neca de pitibiriba.

Essa cumplicidade tem como ponto de partida a adolescência dos baby boomers californianos do início dos anos 1960, quando o surf tomou conta das praias locais acompanhada pelos reverbs das guitarras de Dick Dale e os vocais dos Beach Boys. Diziam até que o som da Fender de Dale procurava emular um “som molhado”, seja lá o que isso quisesse significar. Diversos expoentes do subgênero do rock fizeram considerável sucesso nos EUA até serem varridos por uma tsunami que ficou conhecida como British Invasion e que trazia entre outros, nomes como os Beatles e os Rolling Stones.


Vinte anos mais tarde o termo surf music ressurge, dessa vez no entanto sem uma sonoridade específica que o caracterizasse. Ficou marcado pela chegada das bandas australianas (INXS, Australian Crawl, Hoodoo Gurus) às paradas de sucesso, capitaneadas pelo Men at Work.

 Australian Crawl

Não por acaso, numa época muito interessante para os assuntos relacionados ao esporte dos reis: a primeira entidade do esporte (IPS) dava lugar para a ASP, iniciando o grande processo de expansão do circuito mundial e funcionando até poucos anos atrás, quando da chegada da WSL. O tetracampeão Mark Richards, praticamente imbatível desde 1979, finalmente passava a coroa para Tom Carrol, o primeiro goofy footer a sagrar-se campeão mundial.

Simon Anderson mantendo o rip. Foto: Rad Season

Mas a grande novidade da época (quiçá a maior de todas na trajetória do surf) foi a invenção das triquilhas, por Simon Anderson. A aparição do modelo se deu de forma retumbante no Bell’s de 1981 -cavernoso, com cerca de 15 pés de onda- e que de cara levou seu seu criador a vitória. De lá pra cá, todos sabem o que aconteceu.

História do mais emblemático dos eventos em Bells: https://youtu.be/CNjJqKN6IyA 

Enquanto isso, o que rolava nas carrapetas e caixas de som? Bem, o rock, reinante desde os tempos dos Beach Boys, finalmente teve sua hegemonia entre o público jovem ameaçada com o surgimento da disco music e as rebolativas pistas de dança que pegavam fogo madrugadas adentro, mundo afora. Já o gênero de Arthur Crudup e Chuck Berry havia passado pelos clássicos ingleses, desaguado no virtuoso e rebuscado progressivo, guinado a 180 graus com a chegada dos punks e encontrava-se em um mais período de reinvenção e novas experimentações.

Enquanto Simon Anderson maravilhava os olhos dos surfistas, os ouvidos eram dominados por nomes como Bob Marley, The Police e Dire Straits, ainda antes da chegada dos australianos supracitados e de outros que viriam a compor o cancioneiro da década, como U2, The Smiths e The Cure. E se o Police era mais revolucionário em termos de sonoridade, o Dire Straits soava como puro surf, apesar de ter vindo da cinzenta e chuvosa Londres.


Bob Marley vem fazendo a cabeça de várias gerações.

E não há como não citar o primeiro disco da banda, na verdade a razão de todo esse texto. Lançado em 1977 o (homônimo) Dire Straits é composto por nove faixas, das quais “Sultans of swing” é disparada a mais famosa. Mas a maresia está principalmente nas duas canções que abrem o disco: “Down to the waterline”, com sua levada irresistível e “Water of Love”, deliciosamente tropical e contemplativa. Pra quem já passou dos 40 e tem até hoje na memória o anúncio dos calções Tico (nos intervalos do Realce), era ela que embalava o lindo e azul canudo balinês, aliás surfado pelo próprio Tico.


Dire Straits trouxe ao conhecimento do mundo o guitarrista Mark Knopfler, com sua indefectível técnica de banjo na mão direita e bebendo desbragadamente no cancioneiro do mestre J. J. Cale. Desse mesmo disco, “Six blade knive” e “Southbound again” são claros exemplos disso. Já “Setting me up”, foi regravada anos depois por ninguém menos do que Eric Clapton, outro dos fiéis discípulos de Cale. O set list ainda contém “Wild West end”, perfeita pra ser ouvida ao por do sol. De frente pro mar, claro.

LINKS INTERESSANTES: 

 

Down to the waterline: https://youtu.be/Z5CPsssPOcw

 

Water of love: https://youtu.be/MU_hMet2bmM

 

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