Colunista Gustavo Franck: insira a moeda

A badalada estreia do surf olímpico programada para o ano que vem nos Jogos em Tóquio


 A badalada estreia do surf olímpico programada para o ano que vem nos Jogos em Tóquio, traz a reboque estratégias e movimentos que visam a massificação do esporte no mundo todo, tirando-o definitivamente do histórico quintal anglo-saxão (leia-se Austrália e Estados Unidos). E mais, a eterna dicotomia entre o lúdico e o profissional parece estar definitivamente em vias de decretar seu vencedor. Mas como se constrói essa teia de interesses? Começando pelos Jogos, o Comitê Olímpico Internacional vem detectando (e não é de hoje) o envelhecimento da sua audiência, que migra atenções para atrações mais radicais e que podem ser sintetizadas na figura dos X Games. Com a luz amarela acesa, a primeira providência do COI foi trazer pra perto de si modalidades que encantem as novas gerações.


Nicole Pacelli durante o Pan no Peru -  Foto: divulgação

Afinal de contas, qualquer moleque em sã consciência vai preferir um bowl a uma quadra de badminton. E assim, skate, escalada e o surf foram alçados a categoria de esportes olímpicos. Como o assunto por aqui é surf, deixemos a trepação parede acima e o primo com rodinhas pra quem deles entende. E no caso do esporte dos reis, pode se dizer o que juntou-se a fome com a vontade de comer. Desde a aquisição da Associação dos Surfistas Profissionais (ASP) pelo fundo de investimentos do senhor Dirk Ziff (que a rebatizou como WSL), o mundo das ondas vem experimentando um processo contínuo de “profissionalização”, visando promover um crescente protagonismo aos eventos da modalidade e tudo mais o que a cerca (e que possa render dividendos).


Gabriel Medina é uma das principais estrelas do circuito da WSL -  Foto: divulgação

A transmissão das etapas do CT, hoje com um show de imagens e dignas de todos os elogios, nem de perto lembram seu início, onde a tarefa do internauta-viciado era escolher torcer pelo pixel vermelho ou pelo pixel azul. Mas monetizar a internet (ainda mais nos patamares alcançados pelas transmissão dos demais esportes, principalmente via TV aberta) está longe de apresentar uma luz no fim do túnel. Muito longe...Assim sendo, a oportunidade de estar associado a algo do porte dos Jogos Olímpicos é inestimável, visto que, apesar dos pesares ainda é o evento mais assistido em todo o mundo.


As piscinas são uma realidade que está apenas começando - Foto: Wave Garden

Mas não dá pra ficar esperando ciclos quadrienais pra se tirar uma casquinha do mainstream, as séries (e o dinidm) precisam continuar entrando.E aqui entra o tópico, que junto com a inclusão olímpica tem mobilizado discussões do surf outsides mundo afora: as piscinas. Não é de hoje que o bicho homem tenta brincar de Deus criando ondas artificiais. Isso vem desde os longínquos anos 1980 (portanto muito antes dos pixels vermelhos e azuis e da própria internet popularizada), quando insossos jatos de água tentavam emular os movimentos dos oceanos, empurrando desordenadamente pranchas e afins. A história ficou meio que em banho maria durante um bom tempo, até que em 2005 surgiu no País Basco uma proposta capaz de transformar esse sonho em realidade. Cinco anos mais tarde o primeiro protótipo era apresentado, produzindo ondas de até meio metro. Como sabemos, desde então essa história andou bem rápido. Atualmente há quatro principais tecnologias em implementação, cada uma no seu nível de desenvolvimento. Aquela de 2005 (Wavegarden) é a mais disseminada, seguida pela American Wave Company, que tem sua “garota propaganda” em Waco, no estado do Texas.

 


Ao melhor estilo "Mad Max" a Surflake chega com outro conceito

Correndo por fora e ainda em fase de testes está a australiana Surf Lakes, que produz ondas em um formato circular e com um conceito diferente das anteriores. Fechando o quarteto a KSWC (de propriedade da WSL), que com a sua instalação em Lemoore (Califórnia) hospeda uma etapa do mundial de surf desde o ano passado. Mas e aí, será que as piscinas popularização definitivamente o surf? Hummm, ainda não. Em que pese a possibilidade de serem instaladas em localidades longe da costa, os custos de implementação e operação ainda são muito altos, principalmente em países onde o câmbio é desfavorável, como no Brasil.


Slater testando seu "brinquedo" a KSWC

Segundo três dos quatro fabricantes, para a construção da piscina mais equipamento (fora a aquisição do terreno) a brincadeira começa na casa dos 22 milhões de dólares. Atualmente para se poder desfrutar de sessenta minutos de surf, os locais abertos ao público já em operação (Inglaterra e Texas) cobram entre 65 e 90 doletas por cabeça. E para os abonados, uma sessão com a mesma duração naquela piscina que tem o careca como garoto propaganda, sai pela bagatela de 5.500 verdinhas. O futuro é promissor para as ondas artificiais, mas ainda estamos em um momento onde há mais espuma do que onda, sendo assim sensato frear o afã dos mais entusiasmados. Muito tem se falado, projetos mirabolantes anunciados, mas como diz o velho ditado, “na prática a teoria é outra”.

 

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit.

E pelo jeito, as praias e suas ondas salgadas continuarão sendo a opção mais popular e acessível durante um bom tempo. Com tanto assunto rondando em torno do perseguido faz-me rir, o pitaco musical da semana não teria como não ter algum quais quais no seu contexto. Aí me veio à mente uma faixa, quase exótica, chamada “Money that’s what I want”. Trata-se de uma composição dos nigerianos do Lawrence Amawi Group, do início dos anos 1970 e que fez parte de um movimento musical daquele país que ficou conhecido como Nigerian Psycodelic Rock.

Fela Kuti 

Cheio de criatividade e improvisação (devido à falta de recursos), as canções são o produto de uma geração de jovens recém saídos de uma sangrenta guerra civil e sedenta por manifestar suas emoções, experiências e visões de mundo. Suas texturas lembram muitas vezes Bob Marley, ainda nos tempos de Trenchtown, num autêntico movimento de fluxos e refluxos da sempre maravilhosa cultura do continente mãe.Apesar de não ter ocupado de forma contundente o cenário musical fora do país, o Nigerian Psycodelic Rock influenciou em demasia Fela Kuti, indubitavelmente a maior estrela local. E certamente teria levado à loucura gente como James Brown e George Clinton, sempre a procura de uma nova forma de swingar suas canções. Lawrence Amawi Group - “Money that’s what I want” https://youtu.be/nMDaLGGHBqs

Comentários