Colunista Gustavo Franck - E lá se foi Keramas

Texto de estreia do novo colunista do Ricosurf tem comentários sobre a etapa de Keramas e também sobre música


Gustavo Franck. Foto: arquivo pessoal.

Gustavo Franck. Foto: arquivo pessoal.

Aloha galera!

Hoje tenho a honra de estrear como colunista nesse icônico espaço, do qual sou assíduo usuário (e depois leitor) desde os tempos do revolucionário Rico Disk Surf. Apesar de ter plena consciência de estar longe dos melhores conhecedores da matéria, mestres do quilate de Tulio Brandão e Julio Adler, sou obrigado a honrar a máxima do paladino tupiniquim, que certa vez vaticinou: “Missão dada é missão cumprida”. Pois bem, então seja o que Deus quiser!

E sem milongas nem delongas, vamos de Bali Pro.

De cara, valeu a pena esperar até o último da janela do evento. Tá certo que o mar começou meio barro meio tijolo, parecendo repetir a mediocridade dos dias anteriores. Mas foi melhorando, melhorando e acabou por proporcionar boas ondas nas fases finais. Sorte de quem chegou até elas.

Kelly Slater. Foto: WSL / Dunbar.

Kelly Slater. Foto: WSL / Dunbar.



Falando das performances do dia decisivo, na bateria que mais interessava a torcida por aqui, Kelly levou Filipinho na tática. Tática significando o mais puro eufemismo de malandragem. Engabelou direitinho o jovem talento de Ubatuba, fazendo-o forçar os canudos em detrimento do seu arsenal de manobras que o tornaram o melhor surfista de alta performance da atualidade. Kelly me lembrou o Romário em fim de carreira, indo pelos atalhos do campo e atraindo suas presas a segui-lo. Funcionou direitinho. Pena que dessa vez não deu pra Filipe se sobrepor ao highlander de Cocoa Beach. Se tivesse avançado até a final, deixaria Bali de posse da lycra amarela.

Filipe Toledo. Foto: WSL / Dunbar.

Filipe Toledo. Foto: WSL / Dunbar.



Ainda falando sobre Filipe (só que não), ninguém surfou mais como ele do que Kanoa Igarashi. O representante da terra do sol nascente foi rápido, agudo e preciso no ataque as ondas, ou seja, puro Filipinho! E se pela segunda vez em Keramas o brasileiro não conseguiu confirmar o seu favoritismo, coube um digno discípulo seu honrar a escola. Aliás, me parece que o surf de Kanoa evoluiu de forma interessante, após passar a também usar as pranchas Sharp Eye, do shaper brasileiro Marcio Zouvi.

Kanoa Igarashi. Foto: WSL / Dunbar.

Kanoa Igarashi. Foto: WSL / Dunbar.



O Brasil ainda contava com Michael Rodrigues na briga, que chegou até um honroso terceiro lugar. Confesso que torci muito pelo cara, que sem patrocínio no bico da prancha, merecia chegar até o topo do pódio. De qualquer maneira, mais uma vez deixou o seu recado aos donos das verdinhas que rolam pelas ondas: tem surf de sobra pra merecer o seu lugar ao sol. Pensamento corroborado por Martin Potter, o mais esclarecido dos comentaristas da WSL, que durante a transmissão soltou entusiasmado que pra ele, MR tem surf pra estar entre os cinco primeiros do ranking.

Achei que nas semis ele acabou mesmo perdendo para Jeremy Flores. No entanto, me pareceu que os juízes foram demasiadamente generosos com os tubos do francês. Se compararmos com o de Kelly Slater na outra semi, fica clara a discrepância de notas.

Michael Rodrigues. Foto: WSL / Dunbar.

Michael Rodrigues. Foto: WSL / Dunbar.



Entre as meninas, Keramas trouxe muito frisson, eliminações surpreendentes, pra no fim da história o caneco ficar nas mãos da heptacampeã Stephanie Gilmore. Sua majestade foi passando fase a fase sem chamar tanta atenção, deixando pelo caminho Courtney Conlogue (ainda minha aposta pro título em 2019), uma entusiasmada Nikki Van Dijk e o grand finale: sacar uma nota dez (perfeita!) contra Sally Fitzgibbons, cujo retrospecto lembra cada vez mais o de um certo time carioca...

O feito da rainha do surf pode ser ilustrado pelo fato dela ter menos notas dez do que títulos mundiais (7 x 5).

Stephanie Gilmore. Foto: WSL / Dorsey.

Stephanie Gilmore. Foto: WSL / Dorsey.



Resumo da ópera: virou, mexeu e Stephanie está nas cabeças de novo e vai para Margareth River ostentando a lycra amarela. Quem também segue pra lá lépido e fagueiro é John John Florence. Deu uma sorte dos diabos, com seus adversários diretos pulando fora em Keramas antes do tempo e assim, mantendo-se no topo dos rapazes. E afinal de contas, se tem uma etapa pra chamar de sua é Margies, ou seja, tem tudo para chegar em Saquarema mais líder do que nunca. Pro resto dos mortais, resta torcer pra Northern Point quebrar clássico nas fases finais da etapa, porque se ficar pra ser definida em Main Break, as rasgadas do havaiano (que não cansam de encher os olhos dos juízes) o tornarão mais uma vez imbatível no inóspito oeste australiano.

E a música, cadê? (Instagram: @surfandmusic_br)

Sticky Fingers, The Rolling Stones.

Sticky Fingers, The Rolling Stones.

Há exatamente 48 anos, “Brown Sugar” faixa de trabalho e de abertura do álbum “Sticky Fingers, dos Rolling Stones, atingia o topo da parada de sucessos da Billboard (bons tempos!). Lançado no mesmo ano, faz parte de um conjunto de discos da fase áurea da maior banda de rock do mundo, que foi de 1969 até 1972. Gravado no lendário estúdio Muscle Shoals (no estado do Alabama), traz 10 faixas que bebem despudoradamente nas influências da música negra estadunidense, que aliás o quinteto londrino tem o crédito de ter apresentado de forma definitiva ao resto do mundo. Rock and roll, blues, soul, country, está tudo ali.



Voltando a “Brown Sugar”, além da deliciosa letra com triplo sentido (pouco recomendáveis), estão ali também mais os impagáveis riffs de Keith Richards, vocais de Jagger em sua melhor forma e duas novidades que enriqueceram em muito o som da banda: a chegada do guitarrista Mick Taylor, disparado o melhor wing man que Keith já teve e do sax galhofeiro do saudoso Bobby Keys, uma dos maiores parceiros de Keith nas traquinagens off stage que o tornaram a maior lenda viva do rock and roll.

De quebra, o disco tem capa criada por Andy Warhol (censurada em alguns países) e trouxe pela primeira vez a logomarca da língua, hoje inconfundível em qualquer canto do planeta.

Pra quem não conhece Sticky fingers, vale muito se inteirar. Bom pra carvalho da primeira a última faixa!

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