Colunista Gustavo Franck: O show tem que continuar

COLUNISTA



Chloé Calmon desfila sua categoria nas mini waves  -  Foto: divulgação

O show tem que continuar Depois do show de ondas nas fases intermediárias da etapa do CT no Tahiti, nas últimas semanas as atenções do mundo do surf estiveram voltadas para duas etapas distintas em categorias, estruturas e locais, mas com alguma coisa em comum...Enquanto que o longboard, agradecido por ver seu circuito um pouco mais vitaminado em 2019, desembarcou em Nova York, os melhores surfistas do mundo seguiram para o Japão, após terem sido “aconselhados” pela ISA a correrem os Surfing Games, sob pena de serem alijados dos jogos de Tóquio no ano que vem. Separados por meio mundo, unidos pelas condições pífias de ondas. E isso é um pleonasmo.

A equipe brazuca fez bonito no Japão -  Foto: divulgação

É fato que o longboard nunca teve a atenção que merece. Em que pese a decisão de se priorizar um estilo mais suave em detrimento da performance, a modalidade agrada em muito a comunidade do surf por sua vibe mais relaxada, onde a plasticidade dos movimentos parece estar em consonância com o balançar das ondas. Outro ponto interessante é que mesmo sendo tratada como a versão clássica do surf, suas principais protagonistas (Chloé Calmon, Honolua Blomfield e Soleil Errico) na média mal beiram os vinte e poucos anos de idade.

Phil Rajzman competindo no Surf Relik em Malibu - Foto: Paul Cohen

Diante disso, dá pena de ver os abnegados competidores se esforçarem em encaixar seus pranchões em ondas (???) que não chegavam a um pé. De face. É claro que a oportunidade não deveria ser desperdiçada, mas certamente ela (mais uma vez) acende a discussão da necessidade de se levar o longboard a locais que proporcionem condições a altura da sua importância e potencial. O Relik surgiu como alternativa, apresentando uma abordagem diferenciada em termos de estrutura de organização e que no ano passado deu um show na sua etapa em Trestles. Ainda precisa ser vitaminado e torçamos pra que isso aconteça, gerando para o longboard uma alternativa, ou até mesmo quem sabe uma migração definitiva. Já nos ISA Surfing Games faltou orelha pra tanta pulga, em relação ao que se esperar da estreia do surf como esporte olímpico.

MR foto: Peter Boskovic 

Condições de onda completamente abaixo do minimamente razoável, com um merrecal no início e a lavadora de roupas ligada no turbo no final. Para aumentar a preocupação, essa é considerada a melhor época do ano pra se pegar onda na terra do sol nascente e as olimpíadas serão entre o final de julho e o início de agosto, quando as previsões por lá orbitam ao redor do flat. Só nos resta torcer para que a tão sonhada estreia do surf no maior evento esportivo da Terra não culmine em um baita anticlímax, diante de tantas esperanças depositadas. Em ambos os casos, fica como aprendizado a necessidade de uma maior atenção com questões que têm o poder de minar todos os esforços envidados. O surf ainda engatinha no terreno dos grandes espetáculos esportivos, não pelo seu potencial mas pelas peculiaridades que lhe cercam.

Por isso, o cuidado precisa ser redobrado, para que os objetivos de torna-lo uma modalidade global não escorram por água abaixo. Sem trocadilho por favor. Muito antes de Kelly Slater abocanhar seus onze títulos mundiais, um outro nome já havia assombrado o cenário do surf de competição: Mark Richards foi soberano entre os anos de 1979 e 1982 levando pra casa os canecos de todas essas temporadas. Não obstante, o albatroz (como era conhecido, por seu jeito de surfar) deixou para trás as então onipresentes monoquilhas, apresentando ao mundo a sua versão de prancha com duas quilhas. Algo que já existia, mas que coube ao australiano repensar e adaptar para o cenário das competições e que sem dúvida pavimentou o caminho para o surgimento das thrusters poucos anos mais tarde.


Na semana que passou a Surfer lançou “Fast and Loose – Celebrating the legacy of Mark Richards”, um documentário com 15 minutos que conta essa história pra quem quiser saber, ou mesmo relembrar.Diga-se de passagem, Mark Richards é daqueles seres humanos tão grandes dentro quanto fora da performance, algo que não se vê muito por aí nos dias atuais.

Fast and Loose: https://youtu.be/9obQD3JAVVA

Comentários