Iuri Corsini - Barrinha pesada em um evento transcendental

Nove dias de pura emoção no maior e melhor evento do ano


Fazer uma análise ou escrever sobre algo que você vivenciou tão intensamente e tão de perto as vezes torna-se uma missão mais difícil do que escrever sobre algo que você acompanhou a distância, bem o suficiente para entender todo o contexto, mas com um certo afastamento que te permite ser mais prático e conciso em sua análise.

Imponentes elementos se fizeram presente a todo o instante. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.

Imponentes elementos se fizeram presente a todo o instante. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.

 
Agora retorno de Saquarema após 9 dias de inesgotáveis emoções que, sem dúvidas, ficarão latentes em meu imaginário por um bom tempo. Há tanto o que dizer, são tantos os vieses a seguir, que organizar todos os pensamentos em algo não prolixo tornou este texto uma complicada missão.

Mais do que analisar os resultados dessa 4ª etapa do CT, gostaria de falar sobre os sentimentos, o clima e a energia que foram por mim, e por muitos outros, sentidos nesses dias de pura magia. Saquarema é mesmo abençoada. Sem querer comparar praia A com praia B, mas esta pequena faixa de areia que comporta duas das mais potentes e perfeitas ondas do Brasil é a faixa de areia mais surfe do país. Saquarema talvez esteja para os surfistas de alma brasileiros assim como o North Shore está para os havaianos. Só sente isso quem em Saquarema pisa e vê a ação rolar, ou dela participa.

Esta sensação só mesmo estando lá para entender, cada um da sua maneira. Só mesmo andando na Av. Oceânica, que nos 9 dias de circo armado virou uma verdadeira feira, ou vitrine de surfe, onde atletas se misturavam com os mortais, onde moradores, comerciantes, fãs e curiosos andavam tão a vontades e tão absortos naquele universo que nem mesmo o cansaço de quem acordava às 6h da manhã e ia dormir à meia noite conseguiu abalar.

Como disse, foram dias de pura intensidade. A ralação ao longo do dia, a merecida cerveja do fim de tarde banhada ao pôr do sol alaranjado por detrás da igreja de Nossa Senhora de Nazareth, até finalizar em alguma casa na praia ao ritmo de alguma boa música e mais uma vez acompanhado por mais uma ou duas cervejas geladas - e em algumas mais afortunadas horas, Corona com limão for free. Intenso e prazeroso, diga-se de passagem; mas não menos cansativo e exigente.

Os olhos do furacão Barrinha. Foto: Iuri Corsini (@iuricorsini).

 
O fato é que Saquarema proporcionou tudo o que de melhor havia. A direita da Barrinha quebrou de forma plástica, assustadora, lavando as pedras que divide o canal da igreja e rodando tudo ao longo da bancada, e lavando também a alma de muita gente cética em relação ao Brasil.

No dia em que foram finalizadas as finais do feminino e o round 4 masculino, quando a etapa voltou para o palco principal, no Point de Itaúna, as esquerdas, apesar de não estarem clássicas, deram as caras em ondas longas e manobráveis.

Itaúna teve seu ótimos momentos. Foto: Iuri Corsini (@iuricorsini).

Itaúna teve seu ótimos momentos. Foto: Iuri Corsini (@iuricorsini).



Foi neste cenário que vimos o único 10 do evento, naquele aéreo estratosférico de backside do Filipe Toledo. Estava fotografando da varanda do palanque principal ao lado do meu amigo e colega, o editor chefe do Ricosurf e criador do SurfeTV, Carlos Matias, que logo após ter visto Filipinho aterrisar no quase mentiroso aéreo, hora em que ambos e todo o resto do público gritávamos extasiados, me mostrou seu braço arrepiado, num sinal de que aquilo era coisa mesmo que só os grandes feitos poderiam fazer. E estávamos nós ali, trabalhando, mas sendo testemunhas em primeira mão do que estava acontecendo na pacata cidade da Região dos Lagos. Coisas que só ocorrem com quem entende de verdade o espírito do surfe, as variáveis sempre sob a regência da mãe natureza. Aquele momento único e sempre surpreendente.

A melhor manobra do ano e o único 10 do evento. Foto: Iuri Corsini (@iuricorsini).

A melhor manobra do ano e o único 10 do evento. Foto: Iuri Corsini (@iuricorsini).


Horas depois, na Av. Oceânica de Itaúna, para onde migrava todo o público das areias após o surfe, o presidente da Feserj, Guilherme Aguiar, perguntou ao Matias, "e aí, o que você achou das ondas hoje?", aparentemente meio desconfiado da pergunta, já que ele sabia que aquele não era o melhor mar do Point, respondeu, "cara, eu achei que tinham altas ondas". "Eu também achei isso. Se fosse esse mar no Arpoador, iriamos dizer que estava clássico!", rebateu de imediato o presidente, não só concordando com a resposta, mas mostrando a sua empolgação das ondas que estávamos vendo desde o início do campeonato.

Silvana Lima na melhor onda do campeonato, quando fez o maior somatório do evento. Foto: Iuri corsini (@iuricorsini).

Silvana Lima na melhor onda do campeonato, quando fez o maior somatório do evento. Foto: Iuri corsini (@iuricorsini).



E este foi o último dia no Point. De forma mais do que acertada, diga-se de passagem. Para nós, pensando na logística de cobertura e em nosso conforto, era melhor que as finais fossem no pico principal, em frente à confortável sala reservada para a mídia, cuja fachada de vidro dava para ver toda a ação e que também dava acesso à 'luxuosa' varanda com vista privilegiada para todo o lineup de Itaúna. O campeonato quando ocorria na Barrinha, era esquema tipo guerrilha. Não havia conexão, tomadas para carregar o equipamento, telões com replays e tampouco espaço para a imprensa. Inclusive longe das ativações de marcas de todos os patrocinadores do evento, que muito possivelmente não ficaram nada contentes. Ficávamos longe do café e do lanche oferecido em nossa sala especial no palanque principal, mas muito mais perto do verdadeiro sentimento transmitido através das poderosas ondas da Barrinha, do calor da torcida e da mágica que era realizada dentro d'água.

Eu não sou religioso, apesar de acreditar em coisas além da compreensão que nos permite a lógica humana. Em entrelinhas, acredito, sim, em Deus, mas não de forma pragmática, teológica em seu cerne, mas à minha própria maneira. Quando no último e decisivo dia cheguei às 6h da manhã na Barrinha, e vale ressaltar que às 18h do dia anterior o mar estava praticamente flat, fui recepcionado por ondas de 1,50 metro, ainda meio bagunçadas, talvez pela preguiça da tão pouca hora, mas que foi melhorando, melhorando e melhorando, cada vez mais, com séries que explodiam atrás das pedras com mais de 2,0 metros.

Um lineup para nunca mais esquecer. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.

Um lineup para nunca mais esquecer. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.



Ali naquele cenário, em meio à ferrenha disputa por espaço em busca de uma visão mais privilegiada da ação, olhava a simples porém imponente igreja de Nossa Senhora, e sentia que nada poderia dar errado naquele dia. Era uma força até mesmo estranha, era a certeza de que houvesse o que houvesse, ela estaria ali e garantiria que a mágica e o divino se completassem naquele que se tornaria talvez o dia mais épico da história do surfe competição nacional. "Podem ir para a água, meus filhos. Eu vos abençoarei daqui. Apenas garantam o show de surfe para essa platéia sedenta", era o recado que meu imaginário parecia entender daquela imagem estática e tão conhecida da igreja no topo da colina.

Toledo no tubo impossível. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.

Toledo no tubo impossível. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.



No final das contas, não foi diferente. O brasileiro Filipe Toledo abusou das ondas, dos túneis às turbinas para decolagem, fez a mala de todos os seus adversários, saiu de um tubo na última e derradeira disputa que talvez só mesmo a Nossa Senhora de Nazareth tivesse acreditado que ele fosse sair, e pôs àbaixo as milhares de pessoas naquele pequeno pedaço de areia. A mágica estava feita, concluída em seu ciclo e consolidada mais uma vez com a bandeira verde e amarela no lugar mais alto do pódio. Filipe Toledo, em seu discurso de campeão, regojizou ainda mais a alma dos saquaremenses ao agradecer enfatica e categoricamente a "t-o-d-o-s os locais e moradores de Saquarema" que compareceram e viram de perto a mística sendo efetivada e consolidada.

Arrisco a dizer que foi a melhor etapa do CT deste ano, disparado. E digo que, pelo menos do que eu acompanhei até hoje, este foi o melhor evento da história a ser realizado no Brasil.

No fim de tarde deste mesmo dia, quando praticamente todos os trabalhos já haviam sido feitos, eu caminhava de volta ao palanque principal para pegar minhas coisas e começar as comemorações, quando passei perto do Diretor Geral da WSL da América do Sul, sozinho na área reservada do palanque, contemplando o pôr do sol do fim de tarde de Itaúna, e aproveitei para parabenizar (meio que a distância, já que a área não era de acesso à mídia) a WSL pelo evento e por todas as acertadas decisões que dessa vez eles tiveram ao longo de todo o campeonato. O diretor mirou-me com um olhar meio que cansado, meio que emocionado e contemplativo e me agradeceu pelas palavras e finalizou dizendo: "Estou aqui ainda tentando absorver tudo o que aconteceu nessa semana".

Talvez para absorver tudo o que foi e tudo o que significou, tanto para a WSL, quanto para nós brasileiros e amantes do surfe e, principalmente, para os locais de Saquarema, leve um pouco mais de tempo.

Só nos resta dizer obrigado aos elementos envolvidos e esperar até o ano que vem.

Amém!

A SAIDERA DA SAIDERA

- A maior disputa de todas foi pelas pulseiras. A divisão de classes no evento era demarcada pela ausência ou não das pulseiras e, no caso de ter uma dessas, a cor era que dizia quem era quem e quem podia o que. A pulseira roxa de mídia estava na base da pirâmide. Das festas mais concorridas, que não tinhamos acesso, em disparado era a Casa Corona quem mais atraia os ávidos pelo 'passe livre'. Um desses dias, consegui a pulseira laranja (cor daquele dia) para entrar na famosa casa. Chegando lá, o principal: a Corona era liberada. Mas também havia açaí, café gourmet e algumas outras coisas interessantes. Achando que estava tudo liberado, quando fui pegar um açaizinho, uma moça olhou minha pulsiera e disse: "açaí só com a pulseira preta". Ainda estou longe de virar um black belt, pensei. Ainda assim, saí bem feliz depois de algumas cervezas finas con limon. No dia seguinte, no show da banda do Teco Padaratz na Associação de Surfe de Saquarema, que era liberado para geral, apesar das coisas lá dentro serem pagas (mais do que justo), Teco, cheio das pulseiras coloridas (também mais do que justo), falou ao microfone: "Vamos lá galera, é só chegar. Aqui não tem esse negócio de pulseirinha não. Aqui é tudo junto e misturado, como deve ser".

- John John Florence realmente competiu no round 4 com uma infecção alimentar. Meia hora antes de sua bateria, na qual foi eliminado, ele estava no soro e foi para a água sem a menor condição de surfar. Uma pena.

John John, ainda com saúde, treinando nas fechadeiras do meio da praia. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.

John John, ainda com saúde, treinando nas fechadeiras do meio da praia. Foto: Iuri Corsini @iuricorsini.


- E numa conversa na qual eu era apenas um ouvinte, escutei que possivelmente, e agora ainda mais depois desse exemplo do JJF, o formato pretendido pela WSL a partir do ano que vem, onde ao final da temporada o título seria definido entre os 8 melhores do ranking em etapa única, perdeu ainda mais força. Já imaginou o cara lidera o ano todo com ampla vantagem e chega nesta derradeira etapa e passa mal, ou se machuca? Pois é. Parece que agora viram que o buraco é mais embaixo. Tomara que caia essa inteção que para mim apequenaria um circuito que chega muito perto de ser brilhante no formato atualde pontos corridos.

- Apenas uma nota 10 foi dada nesse evento - no aéreo do Filipe ETToledo. Porém deveríamos ter visto mais duas notas perfeitas. A primeira delas foi no 9.93 do Ian Gouveia, que entubou de backside e completou a junção mais bizarra do ano, e do próprio Filipinho, no melhor tubo do evento, que foi pontuado em 9.93 na final contra o australiano Wade Carmichael.

- Ao término da 4ª etapa, Julian Wilson é o líder isolado. Mas ao olhar pelo retrovisor, o australiano tem em sua visão um trio que bota pressão em qualquer um: Filipe Toledo (2º), Ítalo Ferreira (3º) e Gabriel Medina (4º). É o trio parada dura que se consolida como um dos favoritos ao título maior.

- Gabriel Medina venceu a bateria do round 3 contra o australiano Mikey Wright pelo simples fato de que os juízes assim quiseram. Dessa vez a juizada deu uma bela de uma ajuda para o surfista de São Sebastião.

- Ítalo irreconhecível na bateria em que foi derrotado por Yago Dora, também no round 3. Não usou de sua atitude que lhe é habitual.

- Palavras da minha mãe, que de surf não entende nada e que mora em Saquarema há anos: "Filho, consegui chegar só na hora da contagem regressiva da bateria da final que aquele brasileiro venceu. Como é o nome dele mesmo? Fiquei emocionada com a vibração da torcida. Foi incrível!". Ela, que não perde uma boa farra, foi lá para o meio e comprovou a justiça de Saquarema ser conhecida como o Maracanã do Surfe e também ficou lisonjeada com o discurso de agradecimento do Filipinho, que com certeza ganhou mais uma fã.

- Uma atitude negativa: a do brutamontes sem miolos do chefe de segurança da WSL. Um português sem a menor noção de como lidar com o público além da truculência. Sobrou braço até mesmo para uma criança que deveria ter no máximo seus 10 anos. Vários jornalistas chegavam na sala reclamando do mesmo brucutu. Até mesmo alguns staffs locais demonstraram total desacordo e desagrado com a atitude desse cara. Acontece que ele representa a entidade, que deve ter cuidado em suas escolhas. Um louco desses não pode ter tamanha responsabilidade.

- Que venha Bali. Que venha Keramas e Uluwatu. O bicho vai pegar!!!

- PQP, é a cidade mais surfe do Brasil!

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