Opinião - Ethan Ewing venceu a bateria que a WSL não queria

Perdeu o surfe competição, perdeu todos nós.


Veja bem, para início de tudo, admito que torço, também, para John John Florence. Realmente gosto muito do surfe dele - inclusive acho que, de uma forma geral, além das competições, é o melhor surfista do mundo na atualidade. Além do mais, ele é, para mim, um dos que representa o verdadeiro espírito do que é o surfe. Tudo muito relativo. E isso não significa dizer que ele seja o único surfista a me passar esse feeling .

Como eu disse no início, eu 'também'  torço para o JJF; e isso não significa que eu desejo o seu título mais do que desejo o título mundial do Medina. Na real, acredito que isso é o que menos importa no surfe. Eu não sou menos brasileiro porque ficaria feliz de ver um havaiano loirinho vencer o mundial. Não trato o surfe como eu trato o futebol, por exemplo. Eu quero mais é ver o que há de melhor em nosso esporte, quero ver os melhores nas melhores ondas do mundo.

Apesar de tudo, é claro que sou brasileiro, é claro que sou fã do Medina e quero muito que ele vença o título - e ainda mais agora. O cara é um monstro! Fenômeno mesmo. Tem uma puta de uma história e também é surfista de alma e bate de frente em qualquer mar cabuloso que apereça durante as competições. Ele não precisa estar sempre lá. Quando vai, de tão bom que é, se garante e faz frente com qualquer um. Se o apertarem então...

Mas quer saber, no final, se eu prefiro que vença o JJF ou o GM na disputa do título mundial ou que seja o Ítalo ou o Fioravanti o campeão do Pipe masters,  ou o Jadson ou o Mineiro para avançar na bateria eliminatória do round 2, isso não importa. Isso pouco importa!

E também pouco importa a discussão do que significa ou deixa de signifcar o surfe para você ou para mim. Já que há uma competição, já que há um circuito, com regras definidas, premiações, patrocinadores e , principalmente, pois não se engane, a razão de haver qualquer circo que seja, é seu público, a obrigação mínima, algo intrínseco a palavra competição, é que esta seja  justa.

O cenário perfeito imaginado em minha mente era que ambos fossem até às semis e que lá as coisas seriam decididas. Que John John perderia para um Kelly Slater por um placar de 20.00 x 19.99 e que Medina avançaria à final e venceria o careca em Pipe, também com um placar de 20,00 contra 19,99, com uma virada na última onda e no último segundo num tubo perfeito e profundo. E isso, olha só, ainda pode acontecer.

Só que pouco importa! Nada interessa o meu desejo de ver quem eu julgo serem os melhores do mundo surfando em uma das melhores ondas do mundo na etapa final do Tour, não interessa quem o Cláudio do Pastel ou ou Richie Porta pensem ser os melhores surfistas e os mais merecedores do título. Os critérios devem ser os mesmos e se um John John tiver que perder de um Ethan Ewing da vida, por mais sem graça que pareça, que assim seja.

E sim, de fato, John John perdeu aquela bateria contra Ethan Ewing no round 3. E pouco importa se foi do Ethan Ewing ou do Kelly Slater. Pouco importa se foi numa bateria que parecia sem graça e totalmente controlada pelo havaiano. Um fato é um fato e, mesmo na subjetividade do julgamento, há um limite para a margem de erro de quem interpreta suas variáveis.  Os juízes simplesmente não quiseram dar a nota. Ou, apenas um deles, vai saber... 

Se o meu cenário ideal imaginado não for alcançado, e o João João for o campeão, eu também ficariei feliz. Beleza, sem problemas. Continuo não me considerando menos brasileiro ou nada do tipo desse discurso raso de ‘baba-ovo-de-gringo’, apenas acho que o título também estaria em boas mãos. Até porque, Medina é novo e tem muita lenha pra queimar e muito troféu para erguer - assim como Florence.

Mas, da forma que foi, mancha todos os cenários que nós, os espectadores da fábula “You Can’t Script This” pudéssemos ter imaginado. Isso mancha, principalmente, todo um trabalho de quem nada tem a ver com isso: os próprios surfistas. Isso mancha a minha e a sua percepção do desfecho final.

Se o JJF vencer, mesmo com os acontecimentos tenebrosos, terei a certeza de que foi merecido. Ele não precisa disso e nem nunca pediu por isso. O cara quase se desculpou por um erro de uma arbitragem nebulosa e pouco confiável. Cadê esses caras? Cadê a prestação de contas para quem permite que todo esse negócio continue vivo? Eu vejo o surfe como algo que transcende o esporte, algo muito pessoal. Mas também sou fã do surfe como competição. E, como fã,  não gostaria de ver títulos sendo decididos dessa forma. Com os juízes fazendo na cara dura e saindo de cara limpa enquanto nós, aqui, horas a fio vendo através de uma tela, com o queixo caído ou quase quebrando o computador, perplexos, nos questionando: - Até quando?

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