Sufoco na Prainha

Fernando Gaspar relata perrengue sinistro que passou ao tentar varar a arrebentação com uma gun


No swell de domingo, vivi uma situação inusitada que vale ser compartilhada. Para esses dias de “big surf” à moda carioca, tenho uma gun 9’9” que fica esquecida num canto a maior parte do ano, mas nos dias certos, vive seus dias de glória.

Na foto, da direita para esquerda; Ricardo, Thomas, Vinicius e Gaspar (selfie na remada de Grumari para Prainha) Foto: arquivo pessoal do Ricardo.

Nesse momento era só felicidade, mas antes o negócio ficou estranho. Na foto, da direita para esquerda; Ricardo, Thomas, Wladmir e Gaspar (selfie na remada de Grumari para Prainha) Foto: arquivo pessoal do Ricardo.



Quem já remou num trambolho desses (kkk), sabe como é difícil varar uma arrebentação ou furar uma onda, dificuldade essa compensada na remada poderosa que esse tipo de prancha confere.

Pois bem, no domingo eu e meu brother de surf Alan decidimos surfar na Prainha e, para isso, enfrentar a poderosa arrebentação do canal no canto direito. Antes de entrar eu até pensei: “aquele canal ali vai me dar trabalho com essa gun”.  Entrei no mar. Tudo corria bem, até chegar naquele meio do caminho em que você encosta um pouco mais para direita para aproveitar a corrente e fugir da série.

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Numa fração de segundos, eu estava diante de umas daquelas ondinhas safadas de 1 metrão, mas que vêm cheias de energia, com aquela espuma branca. Impossível varar com a 9’9”. Ela me embola, subo, logo vem outra, a prancha se afasta de mim, me puxando.

Foi aí que olhei para trás e vi..a pedra! Como assim? Não acreditei. Estava enfiado num cerco de pedras, e com um espumão vindo na minha direção com cara de pouquíssimos amigos.

No segundo seguinte, eu já estava sendo arremessado com tudo para as pedras. Numa reação instintiva, coloquei meu corpo totalmente na horizontal, de modo que eu pudesse planar por sobre elas, na esperança de, em algum momento, poder parar num lugar seguro. Vi os mariscos passando a centímetros do rosto, mantive a cabeça erguida e as mãos espalmadas, com os braços abertos.

De repente, cai dentro de uma fenda! (alguém sabia que tem uma pedra com uma fenda enorme no canto direito da Prainha? Nem eu) Na tal fenda confortavelmente caberiam mais 3 pessoas, com as paredes e tudo em volta lotado de mariscos.

Com  a prancha do lado de fora e o leash 12 pés puxando meu pé, rapidamente tirei a presilha e fiquei agarrado aos mariscos no fundo da fenda, vendo as espumas passarem do lado de fora. Veio um espumão que encheu a fenda, mas não  o suficiente para me arrastar com violência. Fico agarrado na pedra, mãos e pés nos mariscos, esperando o momento certo. Passa mais uma onda, uma terceira, e percebo que é o momento de sair dali.

Vem uma quarta espuma e saio da fenda boiando sem encostar em nada. Livre e com alguns arranhões; saí no lucro. Obvio que a primeira coisa que pensei depois que saí dessa roubada foi querer pegar minha prancha, mas 3 bombeiros que estavam no alto das pedras apavorados vendo a cena me convenceram, aos berros, que não seria uma boa ideia eu tentar subir nas pedras para salvar meu brinquedo. KKKK

Um dos bombeiros chegou a entrar na água para me resgatar. Não sei como, mas um deles pegou minha prancha. Aqui fica expresso meu enorme agradecimento a esses bombeiros pela preocupação e pelo cumprimento do dever.

Ao final, fiz questão de agradecer a todos eles e, após checar que as quilhas não tinham quebrado, de forma quase constrangida dizer: “obrigado mesmo, bombeiro, mas vou entrar de novo, tá?”. Kkkk

Para finalizar a estória, entrei de novo pelo maldito canal, fui varrido lá fora e ao chegar na beira, moral abalada, aparece um camarada dando pilha para entrarmos por Grumari. Achei ótima a ideia e lá fomos nós, 4 surfistas que mal se conheciam.

A remada de Grumari para a Prainha é incrivelmente tranquila, a ponto de me questionar como nunca tinha pensado nisso. A distância corresponde a algo como remar do Sheraton ao Pontão do Leblon, mas sem qualquer risco de tomar uma série varredora.

Chegamos ao outside tranquilamente, com direito até a selfie no caminho. Enfim, senti minha adrenalina baixar e relaxei. Agora era só esperar uma onda boa. Pena que uma série varredora pegou de jeito minha prancha e quebrou ela ao meio, lá fora...

Não era mesmo meu dia, mas fica a ótima lembrança dos prestativos bombeiros e desses novos amigos de “big surf” que, com certeza, chamarei para novas aventuras. Aloha.

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