Vídeo - Eric de Souza “Desvairando pelos sete mares"

“...após um dia épico de surfe, saboreando uma cerveja e tentando me explicar que, durante a vida, de todas as ondas que surfamos, você consegue lembrar detalhadamente apenas de três ondas”




Acredito que viajar e sair da sua própria zona de conforto deve ser algo imprescindível a qualquer pessoa, independente do seu objetivo. Porém,  ter a oportunidade de rodar esse mundo buscando as ondas que você sempre sonhou, indiscutivelmente é fascinante.

Quanto mais você viaja mais você quer viajar. Principalmente com tantos lugares e possibilidades nesse planeta tão abundante. Pois só quem viajou e já sentiu esse "gostinho" dessa busca insaciável, pode entender as decisões e o raciocínio de um surfista residente no Brasil (longe e caro) literalmente viciado em ondas perfeitas e tubulares.

Realmente,  às vezes pode parecer nem um pouco coerente, alimentando seu próprio vício como prioridade, além de todo tempo investido, almejando algo que parece estar na contra mão de uma sociedade, um tanto surreal, quase insustentável. E, de certa forma, também  se abdicando de alguns estereótipos sociais na qual julgamos essenciais em nossas vidas. O que acaba inconscientemente remodelando seus próprios valores, opostos ao padrão, deixando cada vez mais evidente o que realmente te faz feliz. Difícil de entender, até mesmo de explicar. Afinal, gosto e objetivos não se discutem.

Às vezes me questiono o porquê dessa busca infinita, colecionando esses momentos  onde o oceano nos envolve com toda sua grandiosidade e encanto, fazendo  o tempo parar.Onde cada segundo equivale a quase  uma eternidade. Onde a eternidade parece estar expressa em curvas e na Divina arquitetura do mar. Onde essa paixão tende a nos enfeitiçar, nesse  momento único em que o oceano esculpe tal visão tão indescritível aos olhos, verdadeira sensação sem par.

Algo surreal que de certa forma te faz sentir vivo por aquele momento poder desfrutar,  conectado com a natureza te ensina a amar. Amar o mar. Mas também a todos animais que nele estão vivos a nadar. Amar natureza e qualquer experiência que te põe pelo mar a navegar. Algo que o dinheiro nunca poderia comprar, pois nāo é um bem que num cofre você poderá trancar. Uma riqueza diferenciada que não é possível contar, apenas visível aos que à esse encanto podem notar, uma riqueza que não te faz sentir poderoso, mas sim conectado com Iemanjá  e através  dessa sensação única que lhe causou tal enraizamento desse viciou tão profundo, agora te joga ao mundo a procurar.

Cada vez mais e mais, que chega parecer inviável só de pensar em voltar. E o mais interessante  é que, uma conta te cobrando pelos tubos e as experiências que você viveu pelos sete mares nunca irá chegar. O ticket do avião até a Indonésia podem até te cobrar, mas pra ser presenteado pelo mar tem que temer e respeitar, pois só ele sabe quais sonhos você deve cobiçar.

E nessa relação não só exige humildade e respeito para se provar, mas principalmente  sua dedicação que  irá contar, pois com o mar muito calmo, bom marinho não ira se tornar.  Pode-se dizer que o surfe tende a ensinar com essa profunda conexão mágica estabelecida com mar. Por mais que eu tente, com palavras não há como explicar. Tão místico para alguns chegando até revelar, sentimentos que a olho nu, nunca poderia atentar. Chega ser contraditório, um vício que consegue te doutrinar.

Algumas vezes na minha vida acabei literalmente trocando o dinheiro todo de um carro por muitos tubos e memórias imensuráveis. Uma decisão completamente insana e impulsiva da minha parte como se não houvesse amanhã. Mas de certa forma o amanhã é ligeiramente duvidoso e o tempo não tende voltar. Assim como as ondas também não tendem a regressar. Sempre marchando a frente sem para trás olhar. Cada oportunidade dada jamais será igual. O que de certa forma me faz lembrar de uma história contada por um surfista experiente, que eu admiro muito, após um dia épico de surfe saboreando uma cerveja e tentando me explicar que, durante a vida, de todas as ondas que surfamos, você  consegue lembrar detalhadamente apenas de três ondas.

E essas três ondas certamente vão ser tubos. Então, aproveite enquanto você tem tempo para concretizar bem essas suas lembranças. E realmente são essas lembranças que de certa forma funcionam como alavanca para tentarmos alcançar  nossos sonhos, sempre tentando ir mais longe, desfrutando do medo e da insegurança como um  combustível que instantaneamente nos levam a experimentar a tudo que desafia ou que conecta com a natureza..  

Porém, no fundo desse vício enraizado que nos leva a essa busca insaciável de um contentamento máximo, não se define por acertar ou errar. Simplesmente existe uma causa pessoal com objetivo tão satisfatório, ao ponto que inconscientemente te alimenta e direciona  ao que realmente te deixa com aquele brilho no olhar. E essas imagens que instintivamente  trazem lembranças e recordações vão te instigar,  para sair da sua zona de conforto novamente, metendo o pé na estrada, sem nem tempo pra trás olhar.

Independente das dificuldades, não esqueça da receita que te fez sentir mais vivo do que nunca, sensação que dinheiro nunca pode comprar, pois parece uma fórmula secreta, só não tem como anotar. Uma verdadeira droga natural que te faz sentir jovem pro resto da vida independente da sua idade .

É assim que você  vai se sentir,  se um dia um tubo pegar. Uma sensação que rejuvenesce a alma e transmite a falsa impressão de que se pode viver assim pra sempre, porém não se deixe enganar. Por isso, o melhor que se pode desejar ao final de uma vida, é ter  bons amigos espalhados pelo mundo para poder contar, assim como  boas lembranças derramadas pelos sete mares, pois o livro da tua vida que era em branco, assim você preferiu ilustrar.

Mas principalmente tenha a certeza de que, independente do dinheiro gasto e o tempo investido, tudo vale a pena, quando  a alma não é pequena. Viva intensamente e nunca vire as costa para seu próprio passado julgar, mas sempre olhando pra frente, por novas aventuras sempre a buscar.

Eric de Souza, atleta Arnette.

Comentários