Entrevista exclusiva: Caio Teixeira, noserider por excelência

LONGBOARD


 

Caio Amarradão - Foto: Felipe Ditaldi

Caio Teixeira, 33 anos, é um daqueles surfistas que chamam atenção pelo seu surfe leve e estiloso. Sua especialidade são os hang ten, hang fives, cut backs, tudo sempre com muito estilo. Atualmente Caio se divide entre a produção de conteúdo para seus patrocinadores, fabrica pranchas, além de ministrar alguns workshops relacionados às manobras que são sua especialidade. Na entrevista abaixo ele fala sobre seu momento atual, pranchas loggers, entre outros. Vale o drop! (GALERIA DE FOTOS NO FINAL DA MATÉRIA)

Gerson Filho: Como você começou a surfar?
Caio Teixeira: Comecei a surfar por incentivo do meu pai, meu mentor e professor. Desde os meus 3 anos de idade já tinha minha pranchinha ali no cantinho da sala pronta pra quando eu "quisesse" surfar ela já estava ali de prontidão aguardando minha iniciativa. Mas foi apenas com 8 anos de idade que a vontade se manifestou e cresceu. Morávamos em São Paulo, porém, com mudanças nos planos na vida do meu pai, fomos viver em Cabo Frio, cidade no interior do Rio de Janeiro. E através dos meus vizinhos e amigos, a curiosidade em deslizar nas ondas, de fato, surgiu. É engraçado recordar isso, por que eu lembro perfeitamente, como se fosse ontem, que eu tinha acabado de chegar do colégio e exclamei em alto e bom som: PAI, ME ENSINA A SURFAR? Ele não conteve o sorriso, muito menos a empolgação. Era pouco mais de meio dia e minha mãe preparava ainda o almoço e ele, ansioso por si só, com tamanha vontade de ver um filho se aventurar no esporte que ele tanto amava, saiu correndo para oficina de reparos de prancha do amigo Babu a procura de uma pranchinha usada para me presentear e me colocar dentro d'água o quanto antes. TCHARAM, não sei de onde ele surgiu e como ele fez pra aparecer com uma prancha tão rapido, mas lá estavam eles, meu pai e minha primeira prancha. Era uma World Coast, com um tom de amarelado de toco velho que só quem já viu uma dessas sabe o que eu to falando. Uma 6'2'' relativamente gigante para um mlk de 8 anos, mas isso era o que menos importava eu queria mesmo era colocar na água a minha primeira prancha "nova". O momento foi muito marcante pra mim. Minha mãe me incentivou muito também e não media esforços em me apoiar.

Caio radicalizando com estilo - Foto: Felipe Ditadi

Gerson Filho: Na época você já surfava de longboard?
Caio Teixeira: Comecei a surfar de longboard ainda muito cedo, meu pai surfava com as longs e tive uma influência muito grande através dele. Foi num final de tarde na praia do Peró que tive meu primeiro contato deslizando em uma prancha acima dos 9’0’’, eu tinha pouco mais de 11/12 anos e lembro perfeitamente desse dia. Após umas ondinhas sentindo um deslizar mais estável a remada mais fácil e uma velocidade que eu ainda não tinha experimentado, me fizeram repensar se aquele estilo de pranchas fosse mais fácil e mais divertido. Não demorou muito e pouco tempo depois eu já não surfava mais com minha pranchinha pequena e só queria surfar na do meu Pai.

Caio com seu pai Telmo Moraes, colecionador de pranchas com seu Museu do Surf ao fundo -Foto: arquivo

Gerson Filho: Quais foram seus melhores resultados como competidor?
Caio Teixeira: Eu nunca fui um bom competidor, não gosto muito da disputa e sempre optei em ir para as competições pensando mais em reencontrar e confraternizar com os amigos do que propriamente a procura dos títulos.Consequentemente participei de eventos importantes que obtive bons resultados, fui 3º colocado no Mundial MexiLOG fest, Campeão Latino Americano, Campeão Brasileiro Open, Vice Campeão Brasileiro Profissional entre outros que me deram muita experiência dentro desse mundo competitivo. Mas nesses últimos 6 anos os festivais de surf tem roubado a cena, e com as festividades eu tenho me identificado mais pelo fato da troca com outras pessoas ser realmente o mais importante, conhecer e surfar com outros equipamentos, assistir as palestras com diferentes shapers, conhecer novas bandas, prestigiar a cultura local e por ai vai, são inúmeras atividades que formam os festivais e isso me cativa a cada evento que participo.

Gerson Filho: O que fez você enveredar para o surfe mais clássico, com as monoquilhas, loggers, etc?
Caio Teixeira: Eu tive isso na minha vida de uma forma muito orgânica, assim que eu comecei a surfar o meu pai Telmo Moraes tomou a decisão de criar um Museu do Surf, foram anos colecionando pranchas do mundo todo. Tive a imensa sorte de ter acesso a essas relíquias e passei a acompanhar todo o processo de aquisição das pecas para a coleção, eu busquei estudar sobre os nomes de quem faziam as pranchas, descobrir o ano e o lugar que foram feitas. Tudo isso me aproximou das pranchas antigas e me fez ter um carinho especial e o obvio aconteceu, eu queria surfar com elas, coloca-las na água e tentar sentir exatamente o que os surfistas sentiam a 40/50/60 anos atrás.O manuseio dessas pranchas antigas me trouxeram muita intimidade, e hoje com uma momento de releitura que buscam refazer essas pranchas que eram usadas naquela época eu apenas flui de uma forma muito natural, e quando percebi, virou uma febre no mundo todo e eu ja estava inserido sem ao menos me dar conta.

Passando à toda de hangten - Foto: Alan Coutinho

Gerson Filho: Fale sobre sua carreira como shaper, por que decidiu começar a fazer pranchas?
Caio Teixeira: Essa história é longa mas vou tentar encurta-la ao máximo. Certa vez peguei uma metade de um longboard partido do meu pai e resolvi reaproveitar o bloco para fazer uma nova prancha. Usei as ferramentas que ali estavam disponíveis pra mim no momento, uns pedaços de lixa, duas latas de tinta que usei como cavalete pra poder apoiar o bloco, um serrote velho, um ralador de queijo e coragem, rs. Essa foi a minha primeira experiência fazendo uma prancha, obviamente ela ficou bem torta, mas foi ali que foi plantada uma sementinha no meu coração.Trabalhei fazendo alguns reparos nas pranchas do Museu, pintei pranchas na fabrica do Guilherme da Doctor Surf e sempre que possível acompanhava o Carlos Mudinho nas salas de shape. Mas acho que ninguém foi tão importante quanto o Tio Joca da Marola Surfboards, sou muito amigo do Douglas que é filho dessa lenda, nós tivemos o privilegio de ter total liberdade para usar as ferramentas, plainas, resina, roer os blocos e começar a ter intimidade com esse universo.Ele sem sombra de duvidas foi um dos caras que mais me motivou no começo. Mas comecei de verdade quando fiquei órfão de shaper há uns 7 anos atrás mais ou menos. O Pitasi me incentivou muito me ajudando com muitos contatos , me apresentando o Ruy da interaction e o Kodé , que é responsável pela First Glass onde venho desenvolvendo um excelentíssimo trabalho nesses últimos anos.Tenho estudado muito e procurado melhorar minhas pranchas com referencias do mundo todo. Ainda há muito o que melhorar, mas estamos no foco da excelência e de pranchas com qualidade acima da média.


Gerson Filho: Quem te inspira no surf?
Caio Teixeira: Eu tenho algumas pessoas que me inspiram, meus amigos no dia a dia são no geral quem mais me motivam a estar na água.

Gerson Filho: Quais foram as surf trips que você já fez e qual a que mais gostou?
Caio Teixeira:
 Tive o privilégio de fazer surftrips para California, Hawaii, Costa Rica, Portugal, El Salvador e Peru. Mas eu descobri que existem ondas perfeitas para o Longboard no Nordeste do Brasil, quando eu digo “ondas perfeitas” eu falo sério. Nunca imaginei que por aqui tivéssemos tanta onda de qualidade como tem pelo nordeste e ultimamente, lá tem sido meu refúgio.

Gerson Filho: Você surfa e mora na Praia da Macumba. Fale sobre a onda, ela é realmente boa para os longboarders, comparado às ondas gringas?
Caio Teixeira: Como toda praia no mundo, se a direção do vento e ondulação estiverem certas, Macumba vai estar de gala.Mas eu acho a onda da Macumba muito cheia para o longboard, eu particularmente prefiro surfar na Reserva, Grumari e Barra. Gosto de sentir a prancha realmente encaixar nas ondas, que até facilitam para as manobras de noseriding. E assim, comparando as ondas gringas, só mesmo com os Point breaks nordestinos é que poderemos chegar próxima das ondas internacionais eu digo de perfeição e distancia.

 

Caio exibe suas criações - Foto: reprodução instagram @caioteixeiradobrasil

Gerson Filho: Quais são seus planos para 2021?
Caio Teixeira: Eu estou muito focado na Caio Teixeira Classic Surfboards, a marca tem ganhado cada vez mais notoriedade no mercado e cada dia que passa temos mais pessoas desfilando com nossas pranchas. Estamos com muitas novidades de produtos que agregam ainda mais identidade para a marca, e isso só nos motiva, levando em consideração o pedido dos nossos clientes em expandir para novos horizontes. Já estamos com bastante pedidos para fora do país, e a idéia é expandir para o exterior também. Eu tenho trabalhado muito, tenho colocado muita energia e estudado bastante pra poder alcançar meus objetivos. Em paralelo a isso, eu tenho o Workshop Footwork & Noseride há 6 anos. Um evento que vem ganhando cada dia mais adeptos e promete um avanço muito grande pra quem procura evolução na brincadeira. O objetivo do Workshop é aperfeiçoar e apresentar algumas manobras do surf clássico. Além de oferecer ensinamentos para as técnicas do surfe tradicional, baseado na abordagem da linha horizontal com pranchas legitimamente clássicas. Infelizmente com o ano de 2020 sendo uma loucura para todo o mundo, não tivemos a oportunidade de realizar nenhum Workshop, mas ao que tudo indica, em 2021 teremos algumas edições. A cada dia que passa o universo das pranchas clássicas tem sido o meu foco, e claro, continuar desenvolvendo pranchas tradicionais e promovendo a alegria através delas. Seguimos trabalhando.

Gerson Filho: Qual seu quiver atual?
Caio Teixeira: Eu tenho algumas pranchas no meu quiver, passando de pranchinhas 5’0’’ até as longs 9’9’’ Sou aquele cara que gosta de estar na água indiferente do tamanho da boia, pq na verdade mesmo, o importante é boiar.

Gerson Filho: Deixe uma mensagem para os leitores do Ricosurf.com
Caio Teixeira: Acredite nos seus sonhos! 

Loko Maikaii.

Comentários