Colunista Paola Simão: Bodyboarding, onde tudo começou

BODYBOARDING


 

Foto icônica das irmãs 

As Cariocas, que na década de 80, foram as grandes responsáveis por escreverem a história do esporte e também levarem a bandeira brasileira para águas internacionais como Hawaii, Austrália, Indonésia, México e diversos países falam sobre se início, esporte, ondas, entre outros assuntos. Vale o drop.
Melhores amigas, irmãs e principais rivais dentro dos campeonatos, essas feras contam um pouco das suas participações nesse esporte que durante décadas foi febre em todo litoral brasileiro e também deixam claro, a admiração que uma tem pela outra até os dias atuais...


Isabela Nogueira  -  Foto: arquivo pessoal

Vale conferir:

Paola Simão - Como e quando começou a pegar onda?
Isa – Comecei a pegar onda em janeiro de 85, ia completar 15 anos e costumava cair na Barra. Nessa época estava surfando em frente ao condomínio Beton e num belo fim de semana, estava tendo um campeonato de bodyboard. Os atletas Kung e o Xandinho, me viram surfar e perguntaram se eu queria competir, se queria patrocínio e na sequência, o Xandinho me colocou na equipe da Cantão em meu primeiro campeonato, que foi em julho, o CampeoGatas. E assim começou, a Redley surgiu em seguida e ficou sendo meu principal patrocinador por bastante tempo e a Mari também foi a primeira patrocinada pela marca e formou uma equipe muito boa.

As irmãs se divertindo na Prainha atualmente -  Foto: Ricardo Índio

Mari – comecei a pegar onda por causa da minha irmã no verão de 85, eu roubava a prancha dela ,após alguns meses, ela pediu uma prancha nova para o meu pai e eu fiquei usando a antiga dela por um bom tempo.

Paola Simão - Vocês foram as pioneiras do esporte no Brasil e praticamente no mundo. Naturalmente vocês despontaram no cenário, abrindo portas para grandes empresas. O esporte crescia gradativamente sendo conhecido e respeitado mundialmente. Vocês fizeram um grande esforço para conseguir bons patrocínios?

Familia Nogueira reunida 

Isa - As coisas foram acontecendo, o esporte foi crescendo e fomos juntas com ele. Nós ganhávamos quase todos os campeonatos, as finais eram sempre eu e a Mari. Ela sempre foi a minha maior adversária e rival, mas ao mesmo tempo minha melhor amiga. E acho que isso chamou muita atenção de patrocinadores, da imprensa e mídias em geral, isso foi muito importante. Depois dessa fase arrumamos outros patrocínios que pagavam bem na época. Em 1987, teve um circuito de duas etapas, o Bliss Competition, onde eu ganhei uma etapa e fiquei em quinto na outra e a Mari também, mas a Glenda tirou um segundo e terceiro e ganhou uma passagem para o Hawaii, onde participou de um campeonato em Sand Beach e ganhou, chegando no Brasil dizendo que era campeã mundial. Na época não existia circuito. Nenhum país se comparava com o nível técnico das atletas brasileiras. No ano seguinte, em 88, todas as brasileiras foram para o Hawai e dominaram as primeiras colocações desse evento. A partir daí começou a história de campeã mundial. Éramos todas amadoras e em 1989 começou a ter a categoria Pro e várias meninas se tornaram profissionais, eu, Mari, Stephanie, Dani Freitas, etc...e também surgiu o circuito brasileiro, na qual eu fui primeira campeã profissional. Com isso, o esporte ficou enorme, grandes patrocinadores começaram a investir nos circuitos e nos atletas, foi uma época maravilhosa. Com o passar dos anos, veio aquela crise no país, os investidores não puderam mais apoiar, o esporte também teve um crise de comando na diretoria, atrapalhando e prejudicando até os dias atuais.

As irmãs nos anos 1980 

Mari – tudo aconteceu naturalmente, comecei a pegar onda para me divertir e o esporte foi crescendo com a gente. Surgiram apoios, patrocínios, as marcas começaram a investir e o esporte foi numa crescente muito forte, até mais do que o surf na época. As coisas vinham sendo oferecidas, as viagens aparecendo, os circuitos estaduais, brasileiro e locais também. Tivemos muita sorte de ter vivido isso tudo. Foi muito bom para nós como pessoas e atletas. Não tenho palavras! Tudo que sou hoje em dia é devido ao bodyboard. Nossa primeira viagem para competir fora do país em 88, foi para o Hawai, onde as brasileiras dominaram. Eu ganhei na minha categoria e depois teve uma bateria com as campeãs de cada categoria, na qual eu ganhei também. Na sequência fomos para o México, fazer uma matéria para a Fluir Bodyboard , com o kung, Stephanie, Bela e o Sebastian (fotógrafo), foi muito legal. Depois disso começaram as viagens durante todo ano para diversos países.

Isabela Nogueira 

Paola Simão - Como vocês analisam o atual cenário? Qual o melhor caminho a seguir para que a modalidade volte a ocupar seu lugar no mundo dos esportes radicais?

Isa – Acho que o esporte vai retomar e vai ascender novamente, porque é um esporte lindo , principalmente para mulheres. Agora com as mídias sociais, as coisas vão acontecendo de certo modo com mais facilidade. Independente do surf, tem que ter essa separação, é outra esporte, é tão bom quanto, tem tudo para dar certo. Acho também que precisa ter um treinamento, categorias de base, investimento em escolinhas para ter uma renovação. Porque vemos que as campeãs mundiais brasileiras que estão no tour na disputa pelo titulo, são as mesmas a anos e isso tem que ser renovado.

Mari descendo uma landeira  -  Foto: arquivo pessoal 

Mari – Fico feliz pelas japonesas que evoluíram muito, acho que ate graças as brasileiras, porque sempre tiveram a gente como exemplo, mas por um lado eu fico triste, porque venho de uma época em que as 8 primeiras do ranking eram brasileiras e estavam sempre nas finais. Existiu a Isabela Souza para renovar, mas eu vejo meninas antigas como a Neymara dando muito trabalho ainda na nova geração, mas tem que ter uma renovação maior, para não dependermos só de uma ou duas e sim de várias. Para isso tem que ter um trabalho de base para incentivar as meninas e mostrar aos patrocinadores que existe o bodyboard feminino. Não podemos ficar esquecidas, se não o apoio não ira existir... Gosto muito da idéia das mulheres se separarem dos homens no Brasil, temos muita força, um esporte lindo que chama muita atenção com a imagem de mulheres no mar. Acho que tem muitas empresas que podem se interessar. Tem que fazer um trabalho muito bem feito, com pessoas responsáveis e competentes, para conseguirmos reconstruir o que foi construído a anos atrás. Só dependemos de união e organização para isso.

Meninas do Bodyboard no melhor estilo New Wave

Paola Simão - Quais os lugares que mais gostou de competir dentro e fora do Brasil?

Isa- Adorava competir no hawai e na Austrália. Aqui no Brasil, adorava Bahia, ES, Sul, alias todos os lugares.
Mari - Eu gostava muito de saquarema. Aquela onda muito forte é desafiante. Quem pega onda em Saquarema grande, pega onda no mundo inteiro. Itacoatiara também era muito legal, sempre uma adrenalina. Meio da barra, que foi aonde cresci, adorava aquelas valinhas. Hoje em dia surfo muito na Prainha , é um mar que esta sempre diferente , onda cheia, buraco, tubo, vala, eu gosto de variar ...Também gostava da praia do Francês, em Maceió. Fora do Brasil, Pipeline era “o lugar” que desafiava os próprios limites. Também gostava muito das Ilhas Reuniões (antes dos tubarões) e Portugal,pois me sentia em casa.

Isabela executando um 360

Paola Simão - Momentos marcantes na carreira?

Isa- Quando surgiu o circuito brasileiro em 89 e eu fui a primeira campeã profissional brasileira. Esse foi um titulo muito importante para o bodyboard e para mim, pois na época, ser campeã brasileira era praticamente ser campeã mundial, pois as melhores atletas do mundo eram as brasileiras.

Mari – Ser campeã Brasileira a primeira vez,foi demais , aliás todas as primeiras vezes são emocionantes, ganhar Pipeline também era muito emocionante. Ser campeã mundial em 98, foi muito marcante porque eu estava grávida, e estava bem na frente no ranking, mas decidi que não ia para última etapa porque não queria arriscar nas ondas pesadas do Hawai, mas acabou que fui campeã ,me ligaram 1 da manha me contando e foi muito legal. Outro momento marcante também, foram as duas finais que fiz com a minha irmã no campeonato Bliss ( mega evento que lotava as areias) eu ganhei uma e ela ganhou outra. São detalhes que vão acontecendo na sua vida de atleta, que te marca e forma seu caráter como pessoa . 

Mari voltando de um rolão no Backdoor -  Foto: arquivo pessoal

Paola Simão - Maior inspiração?

Isa- Com certeza minha irmã.

Mari – Minha maior inspiração foi minha irmã, me espelhava nela e até hoje acho que ela tem o estilo mais bonito que já vi, não existe nada igual ... A Neymara, também sou muito fã , pelo surfe dela e como pessoa também. Alias, todas as meninas que competem hoje em dia estão de parabéns.

Mariana dando uma entrevista  

Paola Simão - Todos sabiam que existia uma grande rivalidade entre as brasileiras que durante décadas foram top 10 no ranking mundial, quem era sua maior rival dentro d’água?

Isa- A rivalidade era muito grande. Aquele sangue nos olhos, foi marcante na nossa época, isso era um atrativo, todo mundo ia para a praia e sabia dessa rivalidade. A minha com a Mari, com a Stephanie, Glenda , Dani...isso era uma coisa saudável, muito bom! Acho que deveria ter ainda mais entre as atletas na atualidade.

Mari – Essa época que as bodyboarders brasileiras dominarem o ranking, era muito legal, essa rivalidade tem que existir, isso era um estimulo para as atletas , você saber que tem que melhorar, porque não pode deixar que a outra seja melhor que você naquele momento. Pode ser amiga, mas dentro da água, você tem que ficar cega rsrs Tinha minha irmã, a Stephanie, Dani, Ney, Karlinha, Claudia dos santos, Leila, Tutty, todas as top 10 da época, eram difíceis de competir, não podia dar um mole se não já era, isso era muito importante e te fazia evoluir, tinha que entrar na bateria e dar tudo de si.

Foto clássica das irmãs

Recado para nova geração: Como todo brasileiro, temos que acreditar , correr atrás dos sonhos, tem que fazer por onde para o esporte continuar a crescer. Não aceitar migalhas porque sabemos do poder que o bodyboard tem. Temos que ter a sorte de encontrar pessoas capazes de conseguir patrocínio vigas, com credibilidade p o nosso esporte, pessoas com uma imagem legal e isso nós já temos.

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