Equipamento: Rico de Souza fala sobre o novo conceito de biquilhas

Sala de shape


 

Venho surfando e shapeando há muitos anos, mais de cinquenta para ser mais exato. Acompanhei bem de perto a transição das monoquilhas ( pranchas com uma quilha), para as biquilhas. No caso as monoquilhas eram boas para ondas médias e grandes, porém quando se tratava de ondas pequenas, elas deixavam a desejar: eram presas e não desenvolviam muita velocidade. Além disso, os bons surfistas da época precisavam de inovações. Lembro-me que as primeiras pranchas biquilhas que vi proporcionavam troca de direção incríveis, além de cutbacks rápidos, com ótima retomada de velocidade. Com as biquilhas, você podia andar na onda em lugares que com as pranchas de uma quilha não conseguiria. Foi no Havaí, no Inverno de 1976, que vi o australiano Mark Richards arrebentando com uma biquilha. Ele estava fazendo um surfe mais moderno, voando nas ondas tubulares do Backdoor e Rock Point. Ele também me impressionava surfando Sunset Beach com um tamanho médio, entre seis a oito pés. Sem dúvida esse modelo de prancha estava chegando para ficar.

Mark Richards foi um dos principais difusores das biquilhas -  Foto: Peter Boscovic

O australiano Mark Richards se tornou tetracampeão mundial de surfe profissional ( 1979, 1980, 1981 e 1982) pela então IPS ( International Professionals Surfing), atual WSL ( World Surf League ), era um dos principais atletas que demonstraram a eficiência das pranchas com duas quilhas. Não demorou muito para que praticamente todos os surfistas aderissem à nova tendência. Lembro-me de encontrar com M.R. em Sunset e na ocasião trocamos várias informações sobre o funcionamento das biquilhas. Foi então que trouxe alguns dos primeiros modelos para o Brasil.

As biquilhas Rico, que fizeram história, agora atualizadas -  Foto: Gerson Filho

Nessa época eu tinha uma oficina no Recreio dos Bandeirantes, bem em frente à praia. E foi ali que comecei a fabricar os primeiros modelos das biquilhas Rico, um modelo que fez história. As pranchas fizeram muito sucesso e todos queriam testá-las principalmente por conta do ótimo desempenho e competência da "Equipe Rico" que marcou época e que contava com excelentes sufistas, entre eles: Frederico Dorey, Cauli Rodrigues, nosso saudoso Roberto Valério, Picuruta Salazar, Valdir Vargas, além de vários surfistas de fora do Rio. 

 

Equipe Rico no Stubbies de 1981 na Gold Coast – Austrália. Fred d’Orey, Valério, Rico e Valdir Vargas. 

Foi uma época espetacular, na qual o surfe estava evoluindo, os famosos Festivais de Saquarema sendo realizados, além do importante Waimea 5000 sendo disputados em alto nível. E nesse momento, todos queriam as biquilhas, que variavam ente os tamanhos de 5'6" e 6'0". Lembro-me que na época estava fazendo pranchas para alguns havaianos como Michael Ho, Hans Hedemann, Buzzy Kerbox, Jimmy Carvalho além do americano Jeff Crawford, campeão de Pipeline, que adorava minhas pranchas com canaletas. Um tipo de fundo que eu usava bastante era a combinação de canaletas com V-bottom, que ajudavam bastante na rápida troca de direção, com canaletas, que aumentavam consideravelmente a velocidade das pranchas.

As biquilhas com canaletas, tendência australiana -  Instagram: Torren Martyn

Agora, cerca de trinta anos depois,elas estão voltando com força total, boa parte impulsionadas por performances de surfistas como Torren Martyn ( dica: assista o filme "Tesouro Enterrado" ). Torren surfa muito bem, arrepiando as ondas, fazendo todos os tipos de manobras entubando muito, e colocando à prova suas biquilhas. Esse movimento de retomada das biquilhas está forte no Brasil, Havaí, Austrália, entre outros países. Eu tenho recebido bastante encomendas desse tipo de pranchas, inclusive de fora do país.Uma delas está em produção para meu amigo Vitor Marçal, brasileiro que chefe dos guarda-vidas no Havaí. Estou shapeando para ele uma prancha um pouco maior - 6'10'- especial para Sunset , onda que ele adora surfar de biquilha. Outros amigos de São Paulo, como Fernando Pupo, Dennis Andrade, entre outros do Rio de Janeiro, também querem as suas versões modernas das biquilhas Rico. Essas versões das biquilhas têm o outline diferente, com um bico mais estreito, uma curva de fundo ( rocker) mais rápida, além de uma colocação de quilhas diferenciada.

Rico com uma de suas biquilhas na capa da Brasil Surf, a primeira revista de surfe do Brasil - Reprodução internet

A maioria têm rabetas atuais são diferentes das tradicionais swallow, que estavam em voga nos anos 1970/1980. As biquilhas modernas, em sua maioria, são round squash: quando a prancha é para uma onda pequena, as rabetas são mais largas, quando a intenção é pegar ondas maiores, elas vão ficando mais estreitas, e mais pintail. As canaletas podem ser feitas no mesmo estilo que as dos anos 1970 - uma de minhas referências quando se trata de canaletas é o australiano Col Smith ( inventor das canaletas). Col normalmente que fazia as canaletas bem no final da rabeta - canaletas começando na frente das quilhas e saindo no final da rabeta. A minha versão de canaleta, que testei durante muitos anos, é a canaleta que começa um pouco à frente do meio da prancha, e acaba antes das quilhas. Tive uma excelente experiência com essa versão.

Rico com uma biquilha feita para seu filho Eric de Souza novo conceito: rabeta round squash - 5’9’’x 19 1/2 x 2 3/8  

Uma outra tendência que tem crescido são as réplicas, pranchas idênticas às que eu usava nos anos 1970/1980. Algumas delas históricas, como as que ganhei alguns eventos importantes ao longo de minha carreira, ou mesmo tem uma história em particular, como o modelo que foi capa da revista Brasil Surf, a primeira revista de surfe do Brasil. As pranchas funcionam muito bem, mas por conta de sua beleza e importância histórica, muitas pessoas as encomendam para fins de decoração. De qualquer forma, caso você queira uma legítima biquilha Rico, será um prazer shapear uma especialmente para você! Aloha! 21 98817-7190 / Ou mande um direct: @ricodesouzaoficial.

Comentários