Surf, pranchas e jiu-jitsu

CANAL RICO


Moises, Ismael, Cassio e Rico -  Foto: Gerson Filho

Em minha trajetória como shaper tive muitas alegrias em ver minhas pranchas funcionando. Houve uma época em que os cinco primeiros colocados do campeonato brasileiro de surfe em Saquarema, quatro usavam shapes produzidos por mim. Entre os grandes nomes que tive o prazer de confeccionar pranchas, Roberto Valério, Fred Dorey, Valdir Vargas, Picuruta Salazar, Cauli Rodrigues, entre vários outros grandes surfistas. E um desses grandes nomes do surfe foi Ismael Miranda, surfista que chegou a competir no Pipe Master, no Havaí, além de ter conseguido um resultado espetacular, quando foi vice campeão do Waimea 5000, um dos campeonatos mais emblemáticos do surfe mundial.

Mestre e discípulo — Foto: Carlson Gracie e Cássio Cardoso - Foto: arquivo pessoal Cássio

Quem também surfava muito bem com minhas pranchas é o hoje lutador, faixa preta da elite mundial do jiu-jitsu, Cássio Cardoso, que treinou e foi formado pelo grande mestre Carlson Gracie. Outro amigo que nos visitou foi Moises local casca grossa do Arpador, que fez história pegando altas ondas, competindo e que hoje segue trabalhando com suas artes fazendo as chamadas "sedas" ( logomarca do shaper impressa em papel seda que vai por baixo da laminação da prancha) para os principais shapers. Tive o prazer de receber esses grandes amigos no meu show room, para um bate papo no qual separei alguns momentos especiais que seguirão transcritos aqui no blog. Cássio veio para encomendar uma prancha e aproveitamos para bater um papo sobre a época de ouro do Arpoador, do Pier, entre outros assuntos.

Moises Levi - Foto: arquivo pessoal

Rico: "pessoal, um prazer recebê-los. Vamos começar lembrando da época em que o surfe era mais como uma família, todo mundo amigo, todos na mesma cultura, sem haver tanto dinheiro nas premiações e patrocínios, como o surfe tem atualmente. Existia localismo, um grande respeito aos surfistas mais talentosos, que eram os ídolos na época, havia uma atmosfera de amizade"...

Moises: "vivemos uma época áurea. Não só no esporte mas em todos os seguimentos. Eu ia para o Arpoador, e ainda não havia a passagem pelo parque Garota de Ipanema. Eu dava a volta e sempre passava e via o Tom Tobim, o Vinicius de Moraes, os caras estavam ali praticamente inventando a Bossa Nova. Me lembro que às 18h os guardas vinham e tiravam todo mundo da água. Não tinha jeito...ali era considerada Área Militar".

Hawaii — Foto: Ismael Miranda saindo de Sunset após uma caída nas pesadas direitas havaianas. À época com 28 anos - Arquivo

Ismael Miranda: "No início eu era surfista de peito. Pegava onda em Copacabana, ali na Santa Clara. Meu irmão começou a pegar onda de madeirite e ele sempre chegava em casa feliz e ia me passando uma energia que me contagiou. Ai eu comecei a ir para o Arpoador, onde aprendi a nadar, e comecei a pular do paredão da Praia do Diabo. Ali vi a galera surfando de planonda, de prancha de isopor... Eu comecei a perceber o surfe. Lembro que eu vi o Jeferson Cardoso e o Moises já surfando muito bem. Ai veio o Pier e fiz a minha prancha de fibra.

Cassio: "cheguei de Brasília com dez anos de idade e meus país me colocaram no colégio Castelo Novo. Comecei a surfar com o Nenem ( Helio Bitencourt). Eu pegava onda de peito no posto 5 e 6 de Copa. E depois comecei e pegar de planonda também no Arpoador. Os craques e já ídolos da época eram o Rico e o Bocão e inclusive a minha primeira prancha foi uma Rico. Era uma prancha velha, quebrada, mas eu curtia muito! Na escola eu me enturmei com o pessoal, mas já naquela época a gente tinha muita disputa, coisa normal para a idade. Lembro de trocar alguns socos na fila do macarrão, ali na hora do recreio do colégio, com o Gironcio (rs) eram aquelas brigas de adolescentes, entre amigos colegiais. O Jeferson me deu muita pilha para pegar onda de prancha de fibra, e assim comecei a conhecer a galera do surfe. Os caras na época e que comandavam os "xerifes", que aterrorizavam o Arpex eram o Jeferson, e o Moises".

Primeira escola — Foto: Almir Salazar, Rico, Fernando Bitencourt, Picuruta Salazar e Ismael Miranda - Foto: arquivo Rico

Rico: Moises quais eram as pranchas usadas?

Moisés: "No meados de 60...70 era um sacrifício você fazer uma prancha. As pranchas custavam entre 600 a 800 mil cruzeiros, e ainda demorava de seis a oito meses para você pegar a prancha. Lembro das pranchas Missari, Kaneca, Iso Amsler, Henrique.

Rico: e você Cássio, tem alguma lembrança bacana relacionada à pranchas?

Cássio: Uma passagem que eu não esqueço foi que quando eu era moleque, ficava ali no Pier pegando as pranchas da rapaziada, entre eles o Pepê, o Rico, entre outros. E uma vez eu já faixa preta o Luzinho e Carlinhos Niemeyer levaram o Pepê para fazer aulas comigo. Na ocasião o Pepê já treinava com o Rolls, era faixa azul e tinha uma noção legal. Ele falou pra mim: "sou seu fã Cássio. E eu disse: não cara, eu é quem sou seu fã. Lembra de uns moleques que ficavam lhe entregando a prancha na época do Pier? Então, um deles era eu. Lembro que ele ficou com os olhos cheios de lágrimas, emocionado.

Rico preparando mais um foguete na sala de shape - Foto: arquivo

Rico: Nessa época, meados dos anos 1970, as pranchas começaram a diminuir. Caíamos de monoquilha 5'6", 5'8". Aí, mais tarde, no final dos anos 1970, início dos anos 1980, vieram as famosas biquilhas. e a maioria dos surfista que tinham destaque, usavam as minhas biquilhas, assim como o nosso amigo Ismael Miranda:

Ismael: Justamente. Foi quando fui para a final do Waimea 5000 com uma prancha Rico!

Rico: falem um pouco sobre a relação entre o surfe e o jiu-jitsu:

Moises: eu ganhei uma bolsa. Quem arrumou pra mim foi o Mauro, irmão do Murilo Bustamante. Já treinei com o Cássio quando ele era azul e eu branca.

Ismael: surf x jiu-jitsu - a minha relação foi de sufoco neh! Eu sofri um pouco por causa do localismo, e por conta disso percebi que eu tinha que saber me defender, mesmo sem ser algo muito agressivo. Foi quando o Cassio me chamou para fazer um treino experimental e a gente foi fazer um treino na Carslon Gracie. E como eu já era judoca, eu passei a guarda de um lutador dele. A partir daí virei lutador do Carlson. Meu pai era fã dele e ficou super feliz em pagar a mensalidade.

Cassio após uma sessão de surfe - Foto: arquivo pessoal

Cássio: o surfe e o Jiu Jitsu tem tudo a ver porque o surfe te ajudar a fortalecer vários músculos e o surfe dá uma ótima mobilidade. Mas no meu caso, tive que parar de surfar porque chegou uma hora em que eu estava despontando no Jiu-jitsu e o surfe estava me atrapalhando. Foi quando o mestre Carlson Gracie me falou: você vai ter que escolher entre o surfe e o jiu-jitsu. Então hoje em dia estou voltando e inclusive fazendo um pranchão com o Rico.

Rico: eu nunca fui lutador, mas já fiz alguns treinos no Carlson. Cheguei até a treinar com o grande Cássio aqui, que me deu uma dura, mas treinar com quem sabe é outra coisa. Quem sabe não faz força, vai só na técnica e miniminiza as chances de você se machucar.

Rico: aquela época havia repressão mas a galera do surfe seguia na água...

Cássio: Lembro de um episódio que você (Rico) chegou com uma prancha linda. Acho que era uma prancha com canaletas, uma coisa linda mesmo. Aí um Policial Militar veio para te expulsar da praia e apreender sua prancha. Nessa hora todo mundo estava olhando tudo aquilo atônito! Foi quando você pegou a prancha e perguntou para o PM: "você vai realmente levar a minha prancha?" O cara falou que sim, e você quebrou a prancha em duas partes no meio-fio! Aquilo foi demais, ainda mais em uma época em que a Ditadura mandava no Brasil".

Pier de Ipanema nos anos dourados

Rico: houve algum episódio que tenha ficado gravado na memória de vocês?

Cássio: lembro de um campeonato da Magno na qual só tinha fera na água. Final Jeferson, Dorey, Valdir Vargas e Raul. Essa história ficou marcada na minha cabeça porque todo mundo no Arpoador, inclusive eu, estava se perguntando: quem vai levar essa, Jeferson ou Dorey? Mas sabe o que aconteceu? O Valdir Vargas engoliu os dois juntos. Ele acabou com o campeonato. Foi uma sessão de tubo, cut back tudo em alta velocidade. Fiquei impressionado com o surfe do Vargas.

Moises arrepiando - Reprodução

Ismael: Eu cheguei para surfar e um hippie me expulsou da água. Eu não tinha noção, não sabia nada de surfe. O tal hippie me deu um tapa na testa e me tirou da água. Nessa ocasião eu decidi que iria surfar no Arpoador e só iria voltar a surfar no pier quando aprendesse. Ali era lugar para profissional. Nessa eu conheci Moises, Jeferson, Gironcio, Cássio, Fernando e Helio Bittencourt. Ai rolou aquela turma muito legal e somos amigos há mais de quarenta anos.

Moises: eu lembro de um amigo chegando pra mim e falando: "cara, vamos lá no Arpoador pra você ver! Tem uns caras surfando muito, vindo lá de fora manobrando. Quando eu vi, quem era? Rico de Souza ( rs). Rico: O mais legal é que até hoje a galera das antigas segue se respeitando. Tenho muito orgulho de ter feito parte dessa geração. Obrigado a vocês por terem vindo aqui na redação do Ricosurf.com e contado tantas histórias legais!

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