Burle: "O nosso esporte nunca mais será o mesmo", sobre a estreia do surf nas Olimpíadas

ONDAS GRANDES


Burle na Laje da Besta - Foto: Renan Vignoli

A 90 dias das Olimpíadas de Tokyo, Japão, o bicampeão mundial de surfe de ondas grandes,  Carlos Burle, falou sobre um novo horizonte para o surfe brasileiro e mundial, com o esporte agora aderindo à agenda olímpica.  A entrevista foi realizada no dia 26 e coincide com o fim de um swell histórico para os cariocas, que viram a Laje da Besta bombar ondas de 5 a 6m plus, na Baía de Guanabara. Onda que foi descoberta por Burle e Eraldo Gueiros, em 2010.  Carlos Burle ainda falou sobre a pandemia, afetando negativamente seu trabalho e viagens, mas como a adaptação a uma nova rotina o aproximou ainda mais ao Reno Kai, seu filho caçula, de 11 anos. 

Carlos Burle é bicampeão mundial de Ondas Grandes - Foto: arquivo pessoal

Rômulo: Não se fala de outro assunto, a Laje da Besta quebrou de jeito, com 5 a 6 metros plus e a gente viu surfistas da nova geração deslizando naquelas montanhas de água. Qual é a periodicidade dessa onda tão rara e quando você a surfou pela primeira vez?
Burle: Eu e Eraldo fomos os primeiros a surfar essa onda, em 2010, o Gordo apareceu por lá também, a 11 anos atrás. Eu surfei poucas vezes essa onda, ela não é muito constante, é necessário uma combinação de fatores. A ondulação tem que vir no tamanho certo, com um volume muito grande e o vento tem que estar bom também e foi isso que aconteceu nesse último swell. Com relação a constância vai depender da temporada, com cabeças d'água de leste, que as vezes dá mais aqui no Rio de janeiro e as vezes dá menos. Nem é nessa época que costuma dar mais, costuma dar mais para setembro e outubro. Então, quem sabe não será um ano bom de ondas para lá? Porque começou a temporada com um swell diferenciado, que é raridade para essa época.

Burle, Reno Kai e Yasmin - Foto: arquivo

Rômulo: Qual foi a melhor onda surfada desse swell na besta?
Burle: A melhor onda surfada desse swell da Laje?  Depende do tipo de onda. De performance, o Lucas Chumbo tem realmente uma (performance) muito a cima dos outros. Você o vê dando aereos, entubando, mas a maior que eu vi foi a do Scooby (Pedro). Me pareceu a maior onda do swell registrada. No segundo dia, à tarde,  ele (Scooby) não estava lá e nós surfamos umas ondas muito grandes, mas passou um tempo sem câmera dentro d'água.

Lucas Chumbo está sendo treinado por Carlos Burle - Foto: Renan Vignoli

Rômulo: Lembro de uma frase sua " O nosso caminho é profissionalismo". Gostaria que você comentasse a estreia do surfe nas Olimpíadas, já que estamos a menos de 90 dias para o início do evento.
Burle: Olha só, para mim é o momento mais importante do esporte. Porque a gente tem a oportunidade de estar expondo o nosso esporte a nível mundial, em várias esferas. Com certeza o nosso esporte nunca mais será o mesmo. Ele sendo aceito, se tornando uma competição recorrente (no calendário olímpico), a gente vai conseguir uma visibilidade muito grande. O esporte se profissionaliza mais. O esporte se profissionalizando mais, a gente tem verbas de incentivo de empresas privadas, de estatais, do governo federal. Então, eu vejo isso também como uma oportunidade de estruturar o esporte de uma nova forma. A gente vê que o surfe está passando por um momento de adaptação muito grande a nível de patrocínio. Os patrocínios vão para os melhores, mas existe uma ausência desse investimento nas categorias iniciante, de base.  A gente sente que o surfe já não tem aquele investimento completo, como tinha antes. Eu acredito que essa nova estrutura, nos dará a oportunidade de fomentar o atleta junto com a escolaridade dele, a performance dele na escola. Se ele tiver uma boa performance no surfe e uma boa performance na escola, ele vai ganhar um incentivo para poder seguir no sonho dele.A gente vê novas possibilidades surgindo também com as piscinas de ondas. Elas levam o esporte para onde não tem ondas. Você imagina a quantidade de países no mundo agora, que vão ter piscinas de ondas. Então eu acredito que teremos novos atletas, de novos países (sem tradição no surf) , surfando muito bem e participando de campeonatos mundiais, em piscinas e participando de olimpíadas. Eu vejo com bons olhos, eu sinto que é um movimento de profissionalismo do esporte.Lógico, que precisamos lidar com desafios. Vemos os "garotos de ouro" do Brasil com muitos patrocinadores, mas boa parte dos competidores continua sem muito apoio. Coisas que a gente não via antes. Temos desafios, mas dá para resolver. Com uma boa gestão, com a CBSURF, a confederação brasileira de Surf. Dá sim para transformar esse desafio, em oportunidades de profissionalizar cada vez mais o esporte.Imagina, quando você cria uma estrutura de clubes, de federações dos estados, de campeonatos estaduais, de campeonatos regionais, campeonatos nacionais e tudo isso muito preocupado com o ser humano. Porque aí você começa a capacitar o ser humano, a se tornar um ser preparado para a vida, não só um atleta. Isso é importantíssimo, para mim. 

Burle sempre buscou qualidade de vida - Foto: arquivo 

Rômulo: O ouro olímpico vem? 
Burle: Eu vejo a gente muito bem representado nas 2 categorias (masculino e feminino). Acredito muito na Silvana Lima, aquela onda (de Chiba) parece muito com as ondas do nordeste. A Tati (tatiana Weston-Webb) é uma excelente competidora. É lógico que no feminino me parece mais disputado que no masculino. No masculino, a gente tem os 2 maiores atletas da atualidade. As esperanças são altas, mas eu não gosto muito de ficar contando com medalha. Porque as esperanças são altas, só que em contrapartida a pressão é maior também. Quem é que vai segurar essa pressão bem? Será que o Medina e o Italo vão segurar? A Tati e a Silvana? Mas a gente está muito bem representado, com certeza.

Rômulo:  Segundo estudo realizado pela universidade californiana de Stanford, 1 em cada 5 atletas, de um total de 131 monitorados, relatou desmotivação para treinar durante a pandemia. Burle, tiveram mudanças significativas na sua rotina de trabalho (como técnico do chumbo), treino e alimentação, por conta da pandemia? Como foi essa adaptação?
Burle: Realmente, a gente teve que se adaptar, viajamos bem menos (ele e Lucas Chumbo), é bem mais difícil de locomover durante a pandemia, várias restrições, aeroportos, voos. O que a gente procurou fazer foi se motivar aqui no Brasil. Continuar praticando esporte, até para manter a saúde em cima. Com a certeza de que isso um dia vai passar... e cancelar, não digo que para sempre, mas adiar os nossos projetos, viagens que o Lucas faria com o Kai Lenny, algumas viagens internacionais, que ele pensava em fazer, precisaram ser canceladas. A gente teve que focar muito mais aqui no Brasil.

Burle com sua esposa Ligia e o filho mais jovem Reno Kai - Foto: arquivo 

Rômulo: As atividades físicas, sem aglomeração, tem sido permitida nas praias do Rio de Janeiro.  Mas o que ficou escancarado nos jornais de ontem e hoje, foram banhistas desrespeitando as medidas da prefeitura, que só liberou a praia para ficar na areia e tomar banho de mar nos dias úteis. Qual seria o conselho de Carlos Burle durante a pandemia para os nossos leitores?
Burle: O primeiro de tudo é respeitar. Respeitar as normas. Entrar na rotina que está sendo imposta pela gestão (pública), governos e a prefeitura. A gente vive em comunidade, então a gente tem que se adequar a essas norma. Não adianta achar, por exemplo - não vou usar máscara em lugares públicos - tem que usar máscara, sim, em lugares públicos. Evitar aglomeração. O que eu aconselho, é acordar cedo, frequentar pontos que sabe que não vai ter aglomeração, não para lazer, mas para a prática de esportes. Evitar locais fechados, se alimentar bem, dormir bem, fazer exercício, praticar boas energias. Como podemos praticar boas energias? Através de pensamentos positivos, através de meditação, através de yoga, de Reiki, sendo coerente com  o momento. Isso que eu acho legal. Você não se deixa abater e faz a sua parte, se mantendo saudável e respeitando o próximo.  Se for frequentar a praia, frequente só para fazer exercícios, não fique parado, aglomerando. 

Rômulo: Nunca existe um lado bom, quando tratamos de pandemia e uma quantidade tão grande de mortes. Mas na adaptação a uma nova rotina, muita gente relatou uma aproximação à família. Eu gostaria de entender como tem sido a sua rotina como pai, vi stories (instagram) com o Reno Kai, inclusive surfando ondas de 1,5 m, sendo puxado por jet. Sei também que você tem uma filha mais velha.
Burle: A minha filha Yasmim mora na Europa, na Polônia, ela está estudando medicina lá. Está no segundo ano, está passando por dificuldades de morar fora do país r por ter que lidar com uma pandemia. Enfim, são várias as restrições, mas ela está bem, graças a Deus.  Aqui no Brasil, a gente também criou uma rotina dentro dessas restrições. A gente tem convivido muito mais próximos. Nunca tivemos a oportunidade de ter um animal de estimação e como agora a gente não está viajando muito, a gente decidiu criar dois coelhinhos e eles mudaram bastante a nossa vida. Trouxeram alegria, carinho, você cria um apego muito grande. O filhote (Reno Kai) está super  feliz, então os pais ficam felizes também. A gente está numa rotina muito mais colados, para praticar esportes juntos e diariamente... engraçado, porque o meu filho gosta de dormir cedo também. Ele tem estudado de casa, então a gente consegue acompanhar mais de perto esses comportamentos, que para a gente era uma coisa distante.

 



Rômulo: O Reno Kai pensa em seguir os passos do pai? 
Burle: Não, não, ele gosta de fazer as coisas dele. Gosta de ter o tempo dele. Gosta muito de videogame, como essa nova geração. A gente (Burle e esposa) o puxa para tirar do videogame, para concentrar também no esporte, no aprendizado. Mas a gente entende que a tecnologia faz parte dessa geração, não é?  Acreditamos nas coisas boas da tecnologia também.

Rômulo: Alguma trip de surf que reuniu a família?
Burle:
A nossa família vai para o Havaí há vários anos, sempre curtimos juntos as praias de lá. É lógico que o Reno é um iniciante, minha esposa também pega onda, mas por diversão, nada de onda grande. Mas a gente gosta muito do surfe, mais pelo estilo de vida mesmo. A gente curte o estilo de vida saudável do surfista. De acordar cedo, de dormir cedo, comer bem, cuidar do corpo e da mente, de conversar sobre sustentabilidade, integração com a natureza, essa coisa de harmonia, de paz, essas coisas todas. O Reno nasceu no Havaí e vai para lá há 10 anos. Esse ano a gente interrompeu a temporada 2020/2021 por conta da pandemia, mas já começamos a planejar a próxima temporada.

Por Rômulo Quadra

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