Entrevista exclusiva: Erica Prado fala sobre o Movimento Surfistas Negras

SURF


 A surfista baiana Erica Prado, 31 anos, teve seu primeiro contato com o surfe aos treze para quatorze anos, na cidade de Itacaré, litoral Sul da Bahia. A menina logo se encantou com o esporte e, poucos meses depois já estava competindo.

"Não tinham muitas meninas que surfavam na cidade, e estavam precisando de competidoras para participar de um campeonato. Tinham três inscritas, e eu fiquei em terceiro", relembra.

Na competição Erica terminou em terceiro, mas já sentiu o "gostinho" do pódio. A partir dali ela conta que começou a competir e nunca mais parou.

Yanca Costa, Erica Prado e Bia - Foto: Ana Verônica 

"Já no campeonato seguinte tinham três meninas, eu fiquei em terceiro e depois fui melhorando, pegando alguns segundos, vencendo alguns eventos. Fui campeã municipal, em 2006, depois fui campeã baiana; e em 2009 integrei a elite do surfe nacional, o Super Surf. Cheguei a competir em algumas etapas do QS e dediquei dez anos da minha vida à competição".

Erica segue surfando, mas sua última ação ocorreu fora da água com a criação do "Movimento Surfistas Negras", que nasceu nas redes sociais com o Instagram @surfistasnegras e culminou em um grande encontro, em 2019, que contou com surfistas negras e nordestinas.

Erica rasgando de backside - Foto: reprodulção instagram

- Gerson Filho - Por que você decidiu criar o Instagram "surfistas negras"?
- Erica Prado - Eu decidi criar o movimento "Surfistas Negras" porque eu vejo ciclos se repetindo. Quando eu era adolescente, quando eu competia, não tinha patrocínio principal, nunca tive patrocínio de uma marca de surfwear, nunca tive apoio de nenhuma marca relacionada ao surfe. E eu vejo que o buraco é muito mais embaixo para as meninas negras e nordestinas. A crise chegou e a gente vive um momento delicado, a indústria do surfe vive um momento difícil. E a desculpa é que a crise atingiu a todos, bla, bla...Mas as meninas negras são as que mais sofrem. Porque elas não se enquadram no estereótipo que é reforçado diariamente pela mídia: sites, revistas, programas de TV. As empresas querem patrocinar pessoas que estejam na mídia, e as mulheres negras nunca estão na mídia, não têm oportunidade. Então, consequentemente essas mulheres vão sendo invisibilizadas e ficando de lado e tendo menos patrocínio, menos oportunidade, como consquência menos resultados, porque se ela não compete, como vai ter resultado? Então é um ciclo vicioso que reflete a nossa sociedade, com seu racismo estrutural.

Yanca Costa seguem sem patrocínio - Foto: divulgação

- Gerson Filho - Você já sofreu ou presenciou algum tipo de preconceito pelo fato de ser negra?
- Erica Prado - Eu já sofri preconceito por ser negra e por ser mulher. E o preconceito está nos detalhes, o próprio fato de não nos vermos representação nos programas, nas capas de revistas, nos editorias de moda relacionadas a surfe. Atualmente eu tenho feito trabalhos, mas se você for reparar, eu sou uma excessão. Se você abre uma página de uma surfwear feminina vai ter 10 fotos de meninas brancas e uma negra. É a "síndrome do negro único". Eu acho que pra gente mudar isso temos que prestar atenção na base. O que eu digo para os empresários é para eles prestarem atenção nas meninas nordestinas, nas negras, nas que não são tão bombadas no Instagram, mas que tem surfe no pé. Já tive um incidente no Arpoador, que fui praticamente posta pra fora da água. No caso o aluno de um professor que dava aula, atropelou minha aluna. Ai ele falou "Vai lavar uma louça, o que tá fazendo aqui na água?" E na hora minha reação foi de enfrentá-lo. Eu respondi: eu estou aqui fazendo a mesma coisa que você, dando aula de surfe. Ele não satisfeito se exaltou e falou que se eu continuasse falando muito ia tomar um tapa na orelha. Foi uma situação tensa, me senti fragilizada, em um lugar que eu sempre me senti acolhida, que é o Arpoador, saí da água, pensei em ir a uma viatura que estava no calçadão, mas fui orientada por outros surfistas meus amigos a não levar aquilo pra frente porque ele gostava de arrumar confusão com todo mundo. E que ele já fez outros dias eu ia continuar dando aula. Ele é um cara machista, mas tem uma filha mulher, enfim...

Monik Santos, sem patrocínio - Foto: Maitê Baratella

- Gerson Filho - Você conhece alguma menina (as) que em sua opinião teriam condições de disputar o QS e o CT, e pelo fato de serem negras, não contam com patrocínios? Caso, sim, quem seriam?
- Erica Prado - Eu acredito que sim. Posso citar algumas meninas que teriam condições de obter bons resultados no circuito de acesso ao CT. Umas são da minha geração. Por exemplo a Monik Santos, uma pernambucana que é muito boa! A galera que acompanha os circuitos sabe que os eventos acontecem em vários países, as etapas que acontecem no Brasil são as menos valiosas. As etapas que acontecem na Europa, na Austrália, nos EUA, são as que mais pontuam. Então, com o Euro e o Dólar tão altos fica muito difícil. A Monik já até ganhou etapas do QS mas nunca teve um patrocínio principal. Outra surfista que tem evoluindo bastante é a Yanca Costa, que vem evoluindo a cada dia. Na minha opinião ela é uma surfista completa. Ela consegue surfar bem qualquer tipo de onda, tem um surfe progressivo, é uma surfista jovem, 21 anos. Ela é uma outra surfista que os empresários poderiam investir. O que eu vejo no Brasil são empresários que querem patrocinar quem já está lá em cima, no topo. A própria Silvana Lima sempre teve dificuldades de conseguir bons patrocínios. Hoje em dia tem patrocínio, mas porque ela está no topo. Já foi duas vezes vice-campeã mundial, quatro vezes campeã brasileira. A Tatiana Weston-Webb - que se naturalizou brasileira - já estava entre as dez melhores do mundo. Aí os empresários vão lá e pensam: vamos pegar essa aqui que já está no topo. Mas e a base, quem vai substitui-las? As meninas não vão sair do Recreio, de Pernambuco ou de Ubatuba, do nada para ganhar um QS Seis Estrelas  e entrar para o CT!

Silvana Lima consegue se manter através de seus patrocinadores  - Foto: WSL

- Gerson Filho - Você acha que a falta de patrocínio é uma questão mais latente para surfistas negras, ou é uma questão mais abrangente?
- Erica Prado - É uma carreira que precisa ser construida. Fazendo uma comparação com o surfe masculino, os meninos que estão bombando no Brazilian Storm, tiveram um suporte muito maior do que as meninas tiveram. Como? Viajando para o Havaí, para a Indonésia, conhecendo outros tipos de ondas outras culturas, e foram adquirindo essa "casca", foram obtendo essa bagagem e hoje em dia conseguem chegar a uma etapa do CT, do QS em Sunset, na Austrália e se dão bem. Eles estão acostumados com a água gelada, com o clima, enfim, estão prontos. Gostaria de mais uma vez destacar essas meninas, Monik, Yanca e temos também a Julia Santos, atual campeã brasileira pela CBS ( Confederação Brasileira de Surf ) que é uma menina que surfa muito bem. Ela é uma das poucas que eu vejo voltando nos aéreos. Acho que essas meninas precisam de oportunidade.

 Gerson Filho - Após a criação do 'SN', Que tipo de retorno você recebeu por parte das meninas surfistas negras?
- Erica Prado - Sobre as surfistas negras, o objetivo era dar oportunidade através do Instagram, que é uma plataforma gratuita, e que é vista no mundo inteiro. Mas em novembro do ano passado, eu realizei o primeiro encontro de surfistas negras e nordestinas. E nesse encontro tivemos aulas de surfe, roda de conversa, uma vivência feminina. Foi um encontro super mágico, necessário e que contou com a presença de surfistas super importantes no cenário nacional, como a Yanca Costa, Monik Santos, a Luala Costa que foi a primeira negra a competir no circuito brasileiro, ainda na década de 1990. Pra essa temporada de 2020 eu havia planejado realizar um encontro por mês. Mas por conta da Pandemia precisamos adiar. As meninas precisam dessa representatividade, desse contato. Recebi muita mensagem no Instagram de Mulheres do Brasil inteiro falando que a página tinha as motivado a começar a surfar. Muitas meninas falaram que nunca tinham visto uma menina negra surfando. E isso é muito grave, pois existem muitas surfistas negras ao redor do mundo surfando bem, seja ela freesurfer ou competidora. Acredito que o Movimento Surfistas Negras já tá cumprindo esse papel de dar visibilidade e dar luz à essas meninas.

 - Gerson Filho- Você acredita que a situação das mulheres negras é a mesma que os homens surfistas
- Erica Prado - Fazendo um comparativo entre as mulheres e os surfistas homens, é obvio que a situação não é a mesma. As mulheres negras estão na base da pirâmide. Se está ruim para os homens, está difícil ainda para os homens negros e mais difícil ainda para as meninas negras. Os principais surfistas negros da cena competitiva no momento são Wiggoly Dantas, Victor Bernardo, Mikey Frebuary. Já as mulheres negras nem conseguem competir. Julia Santos, Monik Santos, Yanca Costa e Kiany Cristina, por exemplo, são meninas que não têm nem um terço do apoio que esses caras têm. Se for comparar com os homens brancos aí mesmo é que a distância aumenta.



- Gerson Filho - Desde que você começou a surfar, até os dias de hoje, o que mudou em sua opinião?
- Erica Prado - Bom eu tenho mais de quinze anos de surfe, e o que eu reparo é que hoje nessa era digital, de Redes Sociais, a ferida está muito mais exposta. Estamos debatendo mais sobre essas questões relacionadas ao racismo. Então ninguém quer ficar na posição de racista. Nenhuma empresa, canal de televisão, se assume como racista. Então as pessoas/empresas querem mostrar a todo tempo que se preocupam com a causa anti-racista. Com o caso do George Floyd e essas manifestações que ganharam o mundo, todo mundo no campo virtual se disse anti-racista, participou do movimento do black-out no Instagram e eu achei ótimo! Só que eu acho que essa luta não pode ficar apenas no campo virtual. É ficar atento, questionar as pequenas atitudes dentro do seu trabalho, dentro do mar, questione! Se você está assistindo um programa de TV não tem nenhuma mulher ou homem negro, naquele programa de surfe, questione! Mas por que, se existem tantos?! No Brasil os negros são 55% da população, por quê essa falta de representatividade? Eu acho que é o caso de questionar mais e lutar por essa representatividade. Quem tem um projeto, um programa, quem tem o poder de alguma forma, veja se você está contemplando pessoas negras. Veja se a lista de atletas não está só reforçando um estereótipo das mesmas pessoas que há quinze anos atrás estavam nas capas de revistas e nos programas de TV. O que eu sinto é que os anos vão se passando e que ficamos no mesmo ciclo. Alguns personagens mudam mas é o mesmo padrão, então acho que temos que mudar na atitude como um todo. O discursso está muito bonito, vejo muita gente se preocupando, mas precisamos mudar na prática.

Erica Prado - Foto: reprodução Instagram 

 LEIA MAIS ENTREVISTAS 

- Entrevista exclusiva: Sarah Ozório focada em seus objetivos

- Entrevista exclusiva: Kiany Cristina, radicalidade e talento

- Entrevista exclusiva: Monik Santos dropa no Ricosurf

 

 

 

 

       

Comentários