Entrevista exclusiva com o videomaker e diretor Marcelo Garcia

SURF


O Ricosurf conversou com o videomaker e diretor Marcelo "Gargamel" Garcia, que entre outros projetos dirigiu programas como Diários das Ilhas, Oitenta e Tal, e Hidrodinâmica, todos para o Canal Off. Seu último projeto está em andamento e trata-se de um documentário sobre o período em que ficou "preso" nas Ilhas Maldivas, onde estava produzindo fotos e vídeos. A aventura inclui altas ondas e muitos perrengues também. Garcia, que é carioca, também esteve à frente de projetos relacionados à Moda em São Paulo.Vale conferir.

Marcelo Garcia durante a estada "forçada" nas Maldivas - Foto: reprodução instagram

Gerson Filho: Fale sobre como começou na profissão?
Marcelo Garcia:
Na verdade no início da minha carreira, fui morar em São Paulo e não fazia nada relacionado a surfe. Era muita moda e vídeos institucionais. A primeira foi um projeto para a Renault/Rip Curl com o Bruno Santos, no qual ele dirigia o carro viajando pelo Litoral Brasileiro. Foi bem pontual, depois disso participei no documentário sobre o Dadá Figueiredo, que apesar de ser surfista, tinha uma pegada mais voltada para o personagem em si.

Gerson Filho: Fale sobre como começou nas produções relacionadas ao surfe?
Marcelo Garcia:
Em 2015 o Grupo Sal, Rafael Mellin, me convidou para dirigir as gravações externas do "Oitenta e Tal". Depois dirigi o programa "Nove Pés" com o Phil Rajzman e Chloé Calmon. Na sequência fui para o Havaí, e eu acho que foi bem legal, veio tudo na hora certa. E eu vim de São Paulo com a experiência de outros projetos, e dai encarei o surfe como mais um projeto. Pra mim não tem muita diferença entre trabalhar com surfe ou outro assunto. Até porque é um mercado difícil e eu sempre gostei de fazer coisas bem feitas mas não necessariamente precisaria ser com o surfe. De 2015 em diante, fiz vários projetos com o Grupo Sal para o Canal OFF.

 

Gerson Filho: Quais produções você participou que merecem destaque?
Marcelo Garcia: No Havaí foram cinco temporadas fazendo Diários das Ilhas, Oitenta e Tal, a segunda temporada do Hidrodinânica, gravando com os shapers, e inclusive trouxe 17 pranchas do Havaí para o projeto. Foi uma roubada gratificante.

Gerson Filho: Como manter um trabalho diferenciado com tanta tecnologia acessível?
Marcelo Garcia:
Acho que o mais importante é você pensar na história que você quer contar. Tentar contar a história de uma maneira diferente. Porque o que mais tem é clipe de surfe, com imagem e música, que também tem seu propósito, pra você relaxar, só ver a performance, não tenho nada contra, mas acho que não é por ai. Mas é sempre válida a preocupação com relação ao que você realmente quer passar. Acho que o ideal é você assisistir bastante coisas diferentes, prestando atenção em como você pode aplicar em uma produção de surfe. Acredito que tudo é válido se você prestar atenção e imaginar como você poderia colocar isso em uma história de surfe.

Gerson Filho: Fale sobre o período de Pandemia, no qual você ficou "preso" nas Ilhas Maldivas:
Marcelo Garcia: Esse ano foi uma experiência diferente. Eu fui para ficar seis meses no Resort filmando surfe e fotografando, e acabou que o resort fechou no segundo mês que a gente tava lá. No caso minha namorada iria dar aulas de yoga. Mas no final do primeiro mês a gente viu que ia dar ruim porque o Resort avisou que iria fechar, mas a gente pediu pra ficar lá, porque acreditávamos que seria algo mais rápido, que a pandemia não iria demorar tanto tempo. Era abril e a gente achando que em junho já estaria tudo certo. Mas, uma vez que decidimos ficar lá, as coisas foram mudando de figura, passamos por diversas aventuras - desde o fechamento total do resort, com os funcionários ficando literamente presos porque o aeroporto fechou, e começaram a se revoltar e fizeram protestos, graves, entre outros. Depois quando o governo decidiu transformar o local em uma Ilha de Quarentena, e ai nós por três meses, recebemos - quase que diariamente, pessoas vindas da capital que poderiam estar com o COVID-19. Sabíamos muito pouco a respeito da situação: se usaríamos o mesmo restaurante, onde todos dormiriam... Então rolou uma clima estranho por conta da doença e sobre o que seria do nosso futuro. Eles usavam mais ou menos uns cem quartos e durante esse três meses esses quartos ficaram cheios. E a nossa preocupação era se eles iriam realmente respeitar a quarentena dentro dos quartos. E deu tudo certo, todo mundo se respeitou. A gente fez umas paredes de madeira e palha para, literalmente, dividir a Ilha, um lado que eles usavam e o lado que nós usávamos. Porque assim como nós ficamos lá, haviam mais ou menos uns duzentos funcionários. A essa altura a comida ficou escassa, e toda dificuldade de ficar em uma ilha veio à tona. Porque quando o resort estava funcionando, sempre haviam hóspedes indo e vindo. Não é tão perto, são 25 minutos de speed boat, mas eram dois ou três barcos indo pra lá e pra cá. Mas quando houve essa situação, ficamos literalmente presos na ilha. Não podíamos nem sair da Ilha e nem ter comunicação com outras ilhas. O governo decretou que quem saísse da ilha, teria que ficar quatorze dias em quarentena. Houveram alguns episódios, como o em que o DJ do resort enfartou e precisou ir a um local com mais estrutura. De lá ele foi para a Capital, voltou e precisou ficar de quarentena. O mínimo que estávamos acostumados como ter wi-fi, assistir uma série na Netflix, não deu, porque só podíamos comprar internet de 30 em 30 dias; ou mesmo escolher o que você quer comer, ir no mercado e comprar, não rolava. Foi uma experiência interessante e diferente, todo mundo achava que nós tiramos a sorte grande porque passamos o lock-down nas Maldivas. As pessoas achavam que tiramos a sorte grande, que pegávamos onda todo dia, mas não! Não tem onda todo dia. O resort tem uma esquerda perfeita, mas teve semanas que o vento ficava ruim para a esquerda e bom para a direita, que era 15 minutos de barco. Mas não tinha como ir, não tinha como chegar andando, afinal de contas estávamos em uma ilha no meio do Oceano Índico. Se fosse em um lugar como Bali, 30 minutos, eu ia andando. Mas lá, no meio do oceano, não tinha como ir. Algumas pessoas falam que sonho, mas basta eu contar algumas coisas e mostrar algumas fotos de alguns jantares, e em cinco minutos, as pessoas já mudavam de ideia. E por conta disso eu resolvi fazer um documentário que está sendo editado nesse momento, que vai mostrar cenas bem interessantes dessa temporada forçada nas Maldivas.

"Gargamel" é adepto das pranchas clássicas - Foto: reprodução Instagram

Gerson Filho: Quais são os profissionais da área que lhe inspiram?
Marcelo Garcia: Eu não tenho isso de diretor preferido, fotógrafo preferido. Acho que assim, a turma do Grupo Sal, O Rafael Mellin e toda a equipe, tem uma preocupação em passar um bom conteúdo. De passar uma informação relevante, não é porque eu faço os projetos com eles. Mas se olhar o Oitenta e Tal, ou o Setenta e Tal tem um conteúdo. Acho que eles têm um trabalho de primeira. É até engraçado, uma vez a gente fazendo o Diário das Ilhas, a gente sempre procurava um shaper local. E uma vez falei com o Rafael: olha nós temos o fulano e o ciclano para entrevistar, acho que era o Erik Arakawa, e ele me disse que já havia entrevistado ele há quatro anos atrás. E isso mostra uma relação com o conteúdo. E se você perceber várias produções não tem esse conteúdo. Se você quer fazer uma produção legal, precisa de um bom roteiro, de pesquisa...

Gerson Filho: Em quais projetos você está trabalhando atualmente?
Marcelo Garcia: Atualmente estou editando o documentário nas Maldivas, que provavelmente se chamará "Lock-down no paraíso", também estou trabalhando em um projeto relacionado com surfe e skate nas Olimpíadas, além de estar trabalhando em um curta com o Bagé, que é meu amigo de infância, e com os filhos dele. É uma família totalmente voltada para os esportes com prancha.

Gerson Filho: Qual a importância das midias sociais em seu trabalho?
Marcelo Garcia:
Midias sociais eu não sou dos caras mais presentes não. Inclusive é engraçado porque eu não tinha Instagram e comecei a gravar o Oitenta e Tal, e conversando com o Mellin ele me falou que tínhamos que trabalhar em uma plataforma nova, ele também não posta muita coisa mas ele me falou algo que ele me convenceu. É uma plataforma, a gente tem que estar por dentro porque você pode precisar fazer uma projeto para essa plataforma, como aconteceu para a Heinneken. Eu não posto muito, não marco ninguém e nunca coloquei uma hashtag. Talvez até eu esteja errado, por não ter essa verve das midias sociais. Mas eu uso mais para me comunicar com meus amigos.

Gerson Filho: Quais produções você participou, relacionadas ao surfe, que merecem destaque?
Marcelo Garcia: Acho que no mundo do surfe, Oitenta e Tal é minha série preferida. Eu dirigi as gravações externas, nas quais a gente tinha que recriar todas as cenas, e foi a minha preferida porque tinha toda uma preocupação com o figurino, com a estética de época, a gente teve que recriar algumas cenas, tinha uma história, uma preocupação com isso. Por isso foi a que eu mais gostei. Foi a primeira que eu fiz. Eu não conhecia ninguém do mundo do surfe, fiz vários amigos gravando essa serie e foi muito bacana. O documentário sobre o Dadá Figueiredo "Radical" também me deu muito prazer em fazer pois eu fiz com uma turma que não era do surfe, e é o que eu havia falado antes, o documentário do Dadá é um documentário sobre a cena, e o Dadá é o personagem anti-herói. Enfim, eu tenho muito orgulho desse projeto. Acho que a edição, o roteiro, é completamente diferente de tudo que o mundo do surfe está acostumado a ver. O Raphael Ericksen que é meu amigo que dirigiu o projeto e fez o roteiro, eu admiro muito o trabalho dele.

Durante o lock-down nas Maldivas - Foto: reprodução Instagram

Gerson Filho: Fale sobre os projetos além do surfe...
Marcelo Garcia: Fora o surfe, fiz um projeto em São Paulo com minha produtora, para a Jeep, no qual nós fizemos exatos (5.972) cinco mil, novecentos e setenta e dois vídeos em onze dias! Foi um desafio enorme, fazíamos mais de 500 vídeos por dia! Eram vinte pessoas na equipe trabalhando, maior loucura. Foi bem intenso. Fiz dez temporadas de Fashion Rio e Fashion Week, e foi bem bacana. E de diferente eu fiz um projeto da Volksvagem no qual eu fui para o Uruguai participando de um Rallye de verdade, que virou uma websérie de quatro episódios. Foi bem intenso e foi um rallye de verdade, de regularidade. Foram sete dias gravando dirigindo o carro e ficando à frente das câmeras, lugar que não me sinto à vontade. Mas como era para dirigir um carro, topei. (abaixo projeto para Red Bull em parceria com o Estúdio MOL, conviado por Raphael Ericksen)

 


 


Gerson Filho: Quais países você já visitou a trabalho?
Marcelo Garcia: Havaí cinco invernos, Califórnia, México, El Salvador, Cabo Verde, Maldivas, Indonésia. Esses eu fui para gravar surfe. Patagonia Chilena, Itália. entre outros.

Marcelo destaca o amigo Pirata - Foto: divulgação

Gerson Filho: na estrada conhecemos pessoas e fazemos algumas amizades inusitadas...fale sobre alguém que conheceu trabalhando e não esperava:
Marcelo Garcia:
Uma amizade inusitada na estrada, eu diria que o Pirata do Guarujá. A gente se conheceu no Havaí, gravando ele como personagem. Ele é casca grossa, pega Sunset, Waimea, Pipe, Padang Padang, e ele é um cara especial pois tem uma perna (acima do joelho, amputada) acho que ele é um cara interessante e inspirador. Conheci ele no Havaí e antes ele estava morando em Fiji. Ele deixou sua escola de surfe, e estava fazendo trabalho voluntário construindo escolas e casas, mesmo com a prótese, ajudando o próximo, em um outro país. Ele é muito bom, ganha vários campeonatos. Uma vez eu estava no Havaí, e ele foi para a Califórnia e ele voltou e eu perguntei: cadê a medalha? E ele falou, eu dei para um menino que ficou em quarto no campeonato e não tinha ganhado nada, e eu dei pra ele. E no Havaí também a gente entrevistou o Fly Novak, e a gente entrou em contato com ele, que foi super solicito. Veio participar amarradão, deu uma entrevista pra gente super atencioso, foi lá pegou umas frutas na caminhonete e deu pra gente. Achei aquilo uma lição de humildade. Convidei ele pra ir a um churrasco e ele não só veio, como trouxe um amigo e ficou amarradão.

Garga com sua companheira KT Coryell

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