Entrevista: Marco Codé dropa no Ricosurf

ENTREVISTA


 

  Codé na Prainha em 1991 - Foto: arquivo pessoal

Marco André o “Codé” fez parte da saudosa equipe Company/Cyclone, capitaneada por Roberto Valério, um dos mais competentes a cultuados empresários do surfe brasileiro.

Codé competiu nas categorias amadoras, chegando a obter bons resultados, e atualmente está à frente da First Glass, uma das maiores laminações do Rio de Janeiro. Confira uma entrevista exclusiva com Codé.

 - Ricosurf - Como comecou no surfe?

Comecei com 12, 13 anos de idade. Eu tinha um vizinho que me ajudava e me empurrava nas prancinhas de isopor que vendia no mercado.

- Quais foram os momentos em competições que você mais curtiu?

Teve um Recreio Surfe Clube que eu fiz uma nota 10 na Prainha. Outro campeonato que marcou bastante foi uma etapa do brasileiro amador em Floripa. Naquela época, haviam bastante campeonatos. Tinha final de semana que a gente competia até em dois eventos no mesmo dia, tipo na Barra e Recreio, que são próximos. Era uma época em que fazíamos aquilo com mais amor. Não tinha esse investimento todo que temos hoje.

Pranchas na First Glass - Codé é conhecido por seu perfeccionismo na produção das pranchas foto: Instageam

- Ricosurf - Na época não haviam os chamados “Freesurfers” profissionais. E você ficava muito dependente das competições...

Vejo hoje a garotada da nova geração precisando de uma oportunidade. As competições amadoras no Rio de Janeiro são pouqíssimas. Depois da morte do Roberto Valério, que era um cara empreendedor e realmente se preocupava com o surfe amador, o investimento nesse sentido diminuiu bastante. Acredito que o surfe amador poderia estar mais quente, com mais marcas apoiando e o incentivando.

Codé dando uma de suas "patadas" de back side -  Foto: arquivo pessoal

- Ricosurf - quais são seus ídolos no surfe?

Eu gostava muito de assistir o Fábio Gouveia, o Teco Padaratz e o Victor Ribas. Hoje admiro toda essa garotada: Medina, Ítalo, Filipinho. Mas tenho como referência o Roberto Valério, um cara que a gente olhava com aquela admiração de criança, como um exemplo dentro e fora da água, um ser humano muito especial.

- Ricosurf - Qual a principal diferença da época em que você competia para os dias de hoje?

Fui um privilegiado. Cheguei a ser patrocinado pela Cyclone, na época da gestão do Valério, e não tenho do que reclamar. Hoje a realidade é diferente, a garotada hoje ganha salários similares a de jogadores de futebol, coisa que na minha época, no Brasil, era impossível. Temos caras como o Dadá Figueiredo, ídolo de várias gerações e o Victor Ribas, que já foi o terceiro melhor do mundo no WCT, lutando com suas escolas de surfe. Acho que esses caras mereciam ser melhor reconhecidos. Em qualquer outro lugar do mundo, o Victor Ribas estaria em uma grande empresa como Rip Curl, Billabong, trabalhando em um bom cargo. Temos o Pedro Muller que também foi campeão brasileio e está sempre correndo atrás. Esses caras fizeram a história do surfe brasileiro e hoje não tem um reconhecimento a altura.

Codé surfando na Macumba -  Foto: arquivo pessoal

- Ricosurf - Como foi sua transição de atleta para fabricante de prancha?

Tive uma transição difícil. Perdi meu pai muito cedo, minha mãe não me incentivava muito no surfe. Ai perdi o Valério e pensei que teria que fazer alguma coisa dentro daquilo que eu amo, que é o surfe. Tive o apoio da Super Glass, laminação do Marcelo, que já me patrocinava como atleta. Cheguei pra ele e falei: cara eu quero trabalhar aqui. Ele abriu as portas pra mim e eu comecei consertando as pranchas na Super Glass. Nessa época percebi que era isso que eu queria e dali comecei a ampliar meus horizontes. Agradeço muito a ele que é um cara por quem tenho muita consideração, gratidão e carinho.

Codé Codé recebendo o troféu de campeão do circuito Master da Prainha no RJ -  Foto: arquivo pessoal

- Ricosurf - que você acha mais importante na fabricação de uma prancha?

Hoje o mercado está muito seletivo, as pessoas estão muito exigentes e eu acho legal isso, porque eu sou um cara muito perfeccionista. Acredito que seja qualidade, pontualidade. A gente busca isso, seja no trabalho, seja em um serviço, ou um produto. Hoje em dia, quem tiver qualidade e atender o cliente bem, ele já está na frente.

- Ricosurf - Como você analisa o atual mercado de pranchas?

Cara, pra mim o surfe esta crescendo mais e mais. Porém com essa crise que assolou o país nos últimos três anos, diminuiu bastante. Tinha muita gente brincando de fabricar prancha e acabou que deu uma peneirada no mercado. Havia muito oba oba e ficaram os profissionais. Acredito que no segundo semestre de 2020 vamos ter uma melhora para os que realmente são profissionais. Esses conseguirão avançar.



Codé com os shaper Olimpio e Criva  -  Foto: Instagram

- Ricosurf - Você acreditava que o surfe chegaria a esse patamar com altos investimentos, brasileiros dominando o circuito mundial?

Às vezes fico emocionado. Olha onde o surfe chegou! Quem diria que teríamos um bicampeão, um campeão e esse ano com grandes chances de emplacarmos outros. Eu já achava o feito do Victor Ribas ( terceiro melhor do mundo ) eu ja falava caramba. Surfista brasileiro era meio que a zebra, sempre haviam dúvidas sobre como seria a nossa performance em ondas pesadas, tubulares, os brazucas eram sempre contestados. Hoje temos essa garotada quebrando e impondo respeito mundo afora.


Codé em um cut back na Macumba -  Foto: Instagram

- Ricosurf O que ficou de exemplo de vida da época em que você fazia parte da saudosa equipe Company/Cylone

Meu pai morreu quando eu tinha dois anos. Eu via o Valério como um cara de caráter, um cara de palavra. E até hoje é muito legal vermos esse legado de honestidade que ele deixou. Todos os conselhos e dicas que ele me deu guardo comigo até hoje.

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