Museu do Surf de Santos: Fernanda Guerra e a história do surf feminino

SURF FEMININO


 

Fernanda Guerra nos anos 1960 - Foto: arquivo pessoal 

Da varanda de casa, o canto do Arpoador se descortinava diante dos seus olhos. Era o convite para um passeio no calçadão, mas Fernanda queria mesmo sentir a areia e o mar. A menina frequentava a praia todos os dias e gostava de ver os surfistas deslizando sobre as ondas. A jovem rodeava os rapazes e suas imensas tábuas de madeira. Fernanda Guerra tinha apenas 13 anos quando se encantou pelo surfe, em 1962. Nenhuma outra menina encarava o mar, mas ela queria ficar de pé na prancha e sua coragem atraiu a atenção do grupo. O gringo Arduíno Colassanti, italiano radicado no Brasil, simpatizou com Fernanda e resolveu ajudar. As pranchas de madeirite eram pesadas e não tinham flutuação. Para entrar na onda precisava de força e impulso. A primeira remada de Fernanda no mundo do surfe foi com a ajuda de Arduíno.

Vista da casa de Fernanda Guerra - Foto: arquivo pessoal

A pioneira influenciou novas praticantes. A estudante do ensino ginasial do Colégio Anglo Americano trouxe a amiga Maria Helena para junto do grupo. O destino da colega foi traçado no Arpoador. A adolescente conheceu o jovem Irencyr Beltrão, um dos pioneiros do surfe, praticante de pesca submarino. Irencyr se destacou na fabricação das primeiras madeirites. As antigas tábuas retangulares, apelidadas “portas de igreja” foram aperfeiçoadas, a partir de imagens vistas por ele. Irencyr diminuiu o tamanho, arredondou as pontas e refinou as quilhas. Ele se tornou o primeiro “shaper” do Arpoador. O aumento de surfistas trouxe um problema. As pranchas não tinham cordinha e a curiosidade dos banhistas e turistas acarretava acidentes. Os guardas passaram a perseguir os surfistas e apreender as pranchas.

 


Os troféus de Fernanda -  Reprodução Midias Sociais

O jeito era driblar a fiscalização mar adentro.Nessa época, o jornalista esportivo e colunista do Jornal do Brasil Yllen Kerr, pai do surfista Fabio Kerr, se uniu ao pai de Fernanda, Walter Guerra, para criar uma associação e organizar o surfe. As primeiras reuniões ocorreram na casa de Fernanda. Estava criada em 15 de junho de 1965 a Federação Carioca de Surf. Walter conhecia o sobrinho do governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima. O amigo intercedeu junto ao político para legalizar a prática do surfe em espaço e horário determinado. O esporte passou a ser liberado após às 14 horas numa faixa de 200 metros.O surfe avançou e o número de praticantes crescia cada vez mais. O surfe feminino também. A Federação viabilizou os primeiros campeonatos. Fernanda competiu com outras surfistas e sagrou-se campeã nas três primeiras edições.

Fernanda em ação - Foto: arquivo pessoal

Com o surgimento das pranchas de fibra, Fernanda, Maria Helena e outras meninas, entre elas Heliana Oliveira, alcançaram a independência feminina no surfe. As pranchas de fibra de vidro eram mais leves, fáceis de carregar e flutuavam. Numa excursão à Europa, Fernanda comprou uma linda prancha francesa da marca Barland.

Da primeira mulher a surfar nas praias de Santos, na década de 1930, Margot Rittscher, passando pela geração de 1960, o legado das pioneiras do surfe brasileiro permanece vivo. Numa época marcada pelas contestações, o universo do surfe abraçava as mulheres, o mundo livre e democrático


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