O surf tem cor? Por Bianca Quartiero

FEMININO


 

Erica Prado - Foto: divulgação

Determinada, amante do surf e com uma missão. É assim que a surfista e jornalista Érica Prado se define. Érica sonha viver em um mundo com menos injustiças e foi por meio do surfe que viu uma oportunidade de realizar essa chamada missão. Se eu não falar ninguém vai falar” foi esse raciocínio que motivou que a surfista idealizasse o projeto no instagram “surfistas negras”.Érica, hoje com 30 anos, conta que quando participava de campeonatos de surfe sentia falta de algo.

“Sempre senti falta da tal representatividade em todas as áreas, desde publicidade até no mar eu não via mulheres negras como eu em destaque” - Conta a surfista

Érica Prado conta que enquanto competidora pensava que era uma questão de falta de sorte ela não possuir patrocínio mesmo liderando os rankings e sendo campeã baiana; enquanto que em contrapartida outras meninas, as vezes sem título algum, possuíssem.

Erica Prado jogando água de backside - Foto: divulgação

Foi só quando se mudou para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo, leu muita coisa que veio a epifania:

“Opa peraí que o buraco é mais embaixo, essa galera esta sacaneando a gente”.

Hoje a jornalista defende que o motivo dessa falta de representatividade no esporte tem uma raíz muito nítida aos seus olhos mas ignorada por muitos. O Brasil tem 54% de negros e pardos, a maioria mulher, e quase nenhuma com visibilidade no surfe.

“Mesmo no mundo, não tem nenhuma surfista negra na elite mundial?”, questiona Érica. “Existe um racismo velado. A desculpa das empresas é sempre que estão sem dinheiro, que é a crise, está ruim para todo mundo mas quando anunciam patrocínio é sempre para essas mulheres padrão californiano” - comenta a surfista.

Yanca Costa atual campeã brasileira - Foto: divulgação

Ela também conta que hoje marcas deixaram de patrocinar até mesmo eventos de surfe, e nesse caso o patrocínio dos atletas é ainda mais difícil. Como caricatura desse cenário temos a surfista negra Yanca Costa, atual campeã brasileira de surfe profissional. Yanca chegou a faltar em algumas etapas do circuito por falta de patrocínio.

“Então assim, a história se repete, as meninas seguem mandando bem, tendo ótimos resultados mas patrocínio mesmo a maioria não têm” - desabafa Érica Prado.

Érica disse que nota uma pequena mudança no mercado, mas deixa claro que acredita que isso se deve a pressão por parte da população que vem exigindo certas mudanças de posicionamento das marcas. Com o avanço das redes sociais, ela conta que as meninas hoje têm a oportunidade de além de atletas serem influenciadoras digitais, atividade que as ajudam na aproximação com marcas que se interessem pelo esporte.

Todo esse mercado de patrocínios é mais complicado quando se fala da categoria feminina; o canal do youtube da editora Trip abordou o assunto em um vídeo com as surfistas Marina Werneck e Cláudia Gonçalves. Em uma entrevista para a revista Trip, a doutora e mestre em Ciências da Comunicação pela USP e ex-coordenadora nacional do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC) da Fundação Palmares, Rosane Borges faz uma análise sobre a negritude em determinados esportes como o surf:

"As crianças negras não se vêem representadas em modalidades como golfe, natação e até o surf, enquanto a pessoa branca cresce com a certeza de que pode tudo, do ponto de vista dos símbolos que estão em destaque nesses esportes” - Analisa a especialista.

Monik Santos - Foto: Maite Baratella

Desde 1960 nenhuma mulher negra liderou a elite mundial do surf. Por que será que isso nunca aconteceu? Para a surfista Monik Santos a única solução é incentivar desde cedo o esporte e patrocínios.

“Dessa forma haveria negras em destaque no circuito mundial, com patrocínio de grandes marcas seria uma forma de incentivar a nova geração a acreditar que, independente da sua cor, é possível estar entre as melhores do mundo” - Opina Monik Santos.

Erica Prado nos braços da galera - Foto: divulgação

Érica acrescenta que também é importante discutir a acessibilidade do esporte; “Com certeza é um esporte elitizado. Uma prancha não é um artigo barato, como que uma pessoa que ganha um salário mínimo por mês vai comprar uma prancha?” A surfista, no entanto, ressalta que existe muitos projetos por aí lutando para tornar o surf mais acessível e para alcançar esse objetivo a surfista também destaca que é muito importante e até um sonho pessoal dentro do esporte, que exista um circuito forte que aconteça em vários lugares do Brasil e não só na região Sul e Sudeste também que é muito importante.

 

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