Entrevista exclusiva: Phil Rajzman, waterman em evolução

WATERMAN


 O waterman carioca Phil Rajzman é referência quando o assuto é surfe. Aos 38 anos de idade, dois títulos mundiais de longboard ( 2007 e 2016), Phil sempre foi considerado como parâmetro no que concerne ao estilo radical no pranchão, por conta de seu approach diferenciado e criativo, sempre com aéreos, rabetadas, batidas retas e muita pressão. Porém, com os critérios de julgamento da World Surf League (WSL) passando a considerar apenas as chamadas manobras clássicas, Phil precisou se reinventar e o resultado foi tornar-se mais completo ainda como surfista. Pranchinha, pranchão, foil board, SUP, bodyboard, surfe de peito... todas as modalidades interessam a Phil que atualmente divide-se entre as competições, compromissos com seus patrocinadores, sua família, e, claro, muito surfe! Confira uma entrevista exclusiva com o surfista que já está de olho no terceiro título mundial. Vale o drop.

Phil competindo em Taiwan em 2017 - Foto: WSL

Gerson Filho - Quais foram os tìtulos que você considera mais importante em sua carreira?
Phil Rajzman -  Títulos mais importantes são os dois mundiais, o primeiro em 2007 e depois em 2016, principalmente pelo fato de em 2007 o critério de julgamento na época ter sido 50% radical, 50% clássico. E em 2016 o critério passou a levar em consideração o sistema 100% clássico. Então esses dois resultados foram muito importantes na minha vida. Mas o que me abriu a portas foi um título de 2013, em uma etapa do circuito mundial da WSL que começou em Maresias, e terminou na Praia da Baleia. Esse foi um título que com certeza marcou a minha carreira, e me mostrou que eu era capaz. Outro evento que merece destaque foi Oxbow Soul and Style em Puerto Escondido realizado em 2014, quando eu ganhei  o Joel Tudor, em Puerto Escondido, com condições clássicas, 10 a 12 pés tubulares.

 GF: Você sempre surfou bem com todos os tipos de prancha, e chegou competir em algumas etapas do WQS. O que foi decisivo em sua escolha por optar pelo longboard?
Phil Rajzman: Eu sempre curti estar dentro da água. Tenho uma visão muito polinésia do surfe, na qual o importante é estar dentro da água e se divertir, independente do equipamento que você esteja usando. Contudo a grande mudança pra começar a focar mais no longboard, foi quando eu ganhei do Joel Tudor em 1997, nas quartas de final de um campeonato da Red Bull. Além do Joel, estavam outros campeões mundiais como o Colin Mcphillips. Eu ganhei do Joel na quartas-de-final e fui capa de vários jornais por conta disso. A partir daí as portas foram abertas em termos de patrocínio. Eu tinha 15 anos na época e acabei indo para o Havaí com o Rico, que foi meu mentor nas competições, e desde então sigo competindo no Circuito Mundial de Longboard. Até os 18 anos eu competi de pranchinha também, mas competia por amor, por prazer e por treino também, já que em competições é muito importante você desenvolver o lado da inteligência emocional. Acabei não tendo um desempenho tão favorável na pranchinha quanto no longboard e então fiquei focado no longboard, que era a categoria na qual estava tendo melhores resultados. Além disso, o custo pra você competir no circuito de pranchinha sempre foi muito alto. Não participo de competições, mas eu ainda surfo de pranchinha direto. Na verdade gosto de surfar com qualquer prancha: bodyboard, tow in, SUP, foil, eu gosto é de estar dentro da água.

Phil é bicampeão mundial de longboard - Foto: divulgação

GF: Em minha opinião, você sempre foi uma espécie de fiel da balança no que concerne ao critério de julgamento do longboard. Como você lida com isso?
Phil Rajzman: Como um bom competidor, a gente tem que sempre se adaptar aos critérios de julgamento. Não adianta você chegar em uma competição e querer fazer o que você está a fim de fazer. Eu tenho que pensar bem, porque senão eu perco minha viagem, perco o investimento; e os patrocinadores começam a sair pois eles querem ver resultados e a carreira de um atleta é baseada em resultados. Então eu sempre procurei entender os critérios, para antes de entrar na água ter o critério todo na minha mente. E durante todos esses anos competindo pela WSL, muita coisa mudou. A começar por 2013, quando eles definiram que o sistema de julgamento focaria apenas no clássico, e isso pra mim foi uma grande adaptação, porque no Brasil temos esse litoral, que favorece muito mais o surfe progressivo por termos a maioria dos fundos de areia. Muita gente bateu de frente nessa questão, principalmente os havaianos, que questionaram o fato de o longboard estar voltando a ser clássico no meio de um período de desenvolvimento muito grande em termos de equipamentos e manobras. Eu acabei vendo nisso uma oportunidade de aprender mais do que eu já havia aprendido até então. E o legal do surfe é isso, todo dia você tem a possibilidade de descobrir algo novo, mesmo surfando todos os dias no mesmo lugar. E com esse novo critério de julgamento fui para a Califórnia onde fiz uma imersão no surfe clássico testando diversas pranchas diferentes e fui me adaptando. Depois disso, em 2014 me tornei vice campeão mundial e em 2016 consegui meu segundo título mundial. Então, apesar de gostar bastante do surfe progressivo, eu também curto muito o estilo clássico e estou sempre me adaptando às regras de competição. Eu vejo um campeonato como um trabalho no qual seu superior lhe dirá o que você tem a fazer, e se você não o fizer, com certeza será substituído. E em uma competição não é diferente: a organização apresenta os critérios e você precisa cumpri-los, por mais que você tem um estilo diferente, ali você tem que fazer o que os juízes querem. Eu acabei me adaptando muito bem e eu curto muito. Atualmente eu surfo alternando pranchas clássica e progressivas.

 

 GF - O que você achou da decisão de o estilo clássico ter mais peso no julgamento do longboard?
Phil Rajzman: Eu me tornei um atleta mais completo, pois tinha um déficit normal de um surfista que mora no Brasil. Hoje em dia eu voltei a ter mais prazer como se você tivesse na fase inicial do surfe, quando você tem aquela vontade de acordar cedo, fica imaginando o equipamento que você vai usar no outro dia. Em minha vida procuro sempre ver os pontos positivos, cabe a cada um definir o que quer encontrar para sua própria realidade. É óbvio que nem tudo são flores, existem dificuldades em todas as profissões, mas já que eu escolhi o surfe, pensei nisso como uma maneira de aprender algo novo. Hoje talvez eu seja um cara mais feliz do que se eu surfasse apenas no estilo progressivo.

Phil pendurado - Foto: Fedoca 

GF: Qual seu shaper, e que tipo de prancha você tem usado atualmente?
Phil Rajzman: Bom até 2006 eu era atleta do Rico, quando fui contratado pela Hobie, empresa californiana que é uma das primeiras fábricas de pranchas do mundo. Eu desenvolvi muitos equipamentos com eles no período de 2006 até 2018. Esse trabalho me ajudou muito no sentido de entender o funcionamento de uma prancha, saber para quê e como cada equipamento funcionava. Até hoje tive a oportunidade de surfar com mais de dez mil pranchas diferentes, e dentro desses testes, acabei encontrando o caminho para ter a certeza de como a minha prancha deveria ser. E a Hobie foi a minha grande escola nesse sentido. A empresa se tornou uma nova empresa, como novos rumos, e eu acabei vindo para o Brasil para acompanhar o nascimento da minha filha mais jovem, a Coral. E hoje com todo esse conhecimento, aliado à tecnologia das máquinas 3D, eu acabei optando por desenvolver minhas próprias pranchas. Então hoje em dia eu sou o designer das minhas próprias pranchas. São todas feitas à máquina e é muito bom ter essa facilidade de ter o computador e saber o que você precisa para que a prancha lhe atenda. E por incrível que pareça hoje estou vivendo uma fase melhor do que na Califórnia, quando estava ao lado do meu shaper Gary Larson. Tenho essa facilidade de fazer o projeto, mandar a máquina usinar e ir pra dentro da água. Tenho desenvolvido pranchas incríveis e tem dado muito certo. Também tenho vendido bastante pranchas e essa é uma nova fase em minha carreira. Já penso que no futuro irei parar de competir, apesar de mentalmente eu ainda estar bem focado no terceiro título mundial, que acredito muito que virá, preciso pensar no meu futuro e estou focando nas minhas pranchas que tem sido muito bem aceitas pelos clientes.

O time de ouro do longboard Mundial durante o Oxbow em Puerto Escondido - Foto: divulgação

GF: Você fez parte de uma das primeiras equipes de tow in do Brasil, a Power Surf Team. Fale sobre essa época?
Phil Rajzman: Foi muito legal! A Power Surf Team contava com Carlos Burle e Eraldo Gueiros como dupla principal (A), e eu e Sylvio Mancusi como dupla (B). À época eu tinha 19 anos e muita energia. Sempre gostei muito de ondas grandes e o Rico me ajudou bastante nesse quesito. E quando eu recebi esse convite fiquei muito feliz porque era tudo que eu queria: pegar ondas grandes, ter essa oportunidade de testar equipamentos novos... lembro que na época era bem o início do Kitesurf então essa equipe me proporcionou essa experiência bem completa. Naquele tempo o Foil Board ainda era adaptado com botas de ski, e inclusive era bem perigoso porque quando você caía estava preso à prancha. Várias pessoas tiveram problemas de torção de joelho. Mas foram experiências incríveis! Peguei ondas enormes com o auxílio de jet-skis. Eu e Sylvio como dupla B, não tínhamos os melhores equipamentos - , no caso os mais potentes e modernos, eram direcionados para a dupla A, até porque eles eram os grandes nomes, e nós éramos a nova geração ali tentando desenvolver esse surfe de ondas grandes. O tempo passou e eu cheguei a ganhar alguns campeonatos aqui no Rio, e em âmbito nacional. Então foi muito legal, eu e Sylvio aprendemos muita coisa juntos. Burle e Eraldo dois grandes mestres, me passaram muitas coisas boas. Inclusive, recentemente, na primeira vez em que fui cair em Jaws, estavam o Burle e o (Lucas) Chumbo que me posicionaram certinho no pico, eles foram dois caras essenciais para que eu conseguisse pegar boas ondas. Sempre que estou no Havaí, fico monitorando os swells bons para Jaws. Já surfei lá umas seis vezes, coloquei pra dentro em umas ondas enormes. Amo ondas grandes!

 Phil em Jaws - Foto: Igor Maciel

GF: Você planeja surfar bombas como Nazaré e Jaws de longboard?
Phil Rajzman: Eu desenvolvi junto com a Hobie um longboard gun 11 pés. Ele tem as dimensões mínimas de bico para ser considerado um longboard ( 17" polegadas). Então a gente fez esse longboard gun com o qual surfei Jaws. Essa prancha me deu uma certa vantagem na remada por conta da largura no bico, porque acaba que meu centro de gravidade fica um pouco mais à frente na prancha, e consigo aproveitar o máximo essa área maior. Porém quando o vento é terral, ela traz uma certa desvantagem. Houve vezes que eu tentei dropar e o vento bateu embaixo, me segurou, acabei despencando lá de cima. Mas a experiência em Jaws foi incrível. Cheguei a surfar em Waymea e fiz um hang-five, talvez tenha sido a maior onda em que já consegui fazer um surfe clássico. Em Jaws com 20 pés também fiz um surfe clássico...porque Jaws com 20 pés é "marola" , fica fácil e eu consegui fazer um surfe clássico, indo até o bico. Jaws começa a ficar perigoso mesmo a partir de 35, 40 pés. Eu gosto da possibilidade de andar na prancha. Tem umas ondas minhas grandes que eu botei pra dentro em Jaws, nas quais eu faço a cavada e ai dou um passo à frente na prancha para ganhar velocidade, e isso é muito legal no longboard, você aprende a usar a prancha não só na base em um ponto fixo, você tem a prancha inteira para você usar a velocidade, ou frear nos momentos necessários, ou ter a prancha um pouco mais fluida para fazer as curvas, ou mais rígida pra pegar velocidade.

Phil exibe uma Corona, seu patrocinador - Foto: divulgação

GF:  Quais são seus principais patrocinadores atualmente?
Phil Rajzman:Meu principal patrocinador atualmente é a Corona, empresa com a qual tenho o "Phil Rajzman Experience" que são experiências que eu faço em minha casa de Búzios, em Geribá. Eu alugo ela durante o ano e reservo algumas datas para essas experiências. A próxima será realizada nos dias 4, 5 e 6 de dezembro. A gente tem sempre convidados, com várias modalidades voltadas para o surfe polinésio, independente de sexo e idade. Recebemos pessoas de várias idades e inclusive tivemos netos e avós, mães e filhos...é um surfe bem recreativo. A ideia é que a gente consiga trazer essa visão polinésia na qual o legal é você estar dentro da água, se divertindo em contato com a natureza, entendendo como funcionam os ventos, as ondulações, e fazendo uma analogia de certa forma com nosso dia a dia. Muita gente vive dias estressantes de trabalho durante a semana, não tem a oportunidade de e o surfe acaba virando uma válvula de escape nos finais de semana no feriado. E essa experiência se propõe a isso: atender uma galera que está na busca de se entender, de buscar a paz, de estar em contato com a natureza, e com todos os equipamentos: SUP, longboard, pranchinha, bodyboard, não importa. A ideia é a gente englobar todo mundo numa mesma essência de que surfe é um esporte no qual temos diversas vertentes.

Pranchas modelo Phil -  Foto: divulgação

GF: Atualmente não há um circuito forte de longboard nos âmbitos nacionais e internacionais...na sua opinião, o que falta para o esporte evoluir nesse sentido?
Phil Rajzman: Esse ano é um ano em não podemos ter como referência por conta da Pandemia. Mas em âmbito nacional só tinhamos uma etapa que definia o campeão nacional, e inclusive é o que vai rolar para a definição do próximo campeão mundial. Em dezembro teremos um evento em Jericoacoara que definirá o campeão brasileiro. Em nível mundial estamos em uma crescente. Ano passado tivemos uma etapa na Espanha, na Austrália, em Nova Iorque a última em Tawian. Esse ano a gente iria ter cinco etapas, e chegou se a cogitar uma etapa no Brasil. Mas por conta do COVID-19 foi cancelada. Chegamos a ter a etapa inaugural, na Austrália, e foi bem na época do nascimento da minha filha. No caso eu descartaria essa etapa, já que podemos ter dois descartes, mas acabou que se tornou a primeira etapa para 2021. Eles não irão anular o ranking de 2020, e nem decretar o vencedor como campeão mundial. Então vamos começar o próximo ano como se fosse o restante do circuito. E no Brasil está acontecendo um movimento muito legal através dos atletas que vêm se reunindo. Acredito que essa pandemia de alguma forma acabou trazendo isso, a galera ficou em casa um pouco ociosa e acabou se reunindo através das mídias sociais para conversar sobre essa realidade de poucos eventos no Brasil, e acabou trazendo bons frutos. Foi fundada a Associação Santista de Longboard, a de São Vicente, no Nordeste algumas associações nasceram, então o longboard, por incrível que pareça, cresceu durante a pandemia. Alguns eventos como surfe treinos já estão acontecendo.

Phil sempre inovando em qualquer prancha -  Foto: Gustavo Monteiro

GF: Quais são os surfistas que atualmente você gosta de ver surfando?
Phil Rajzman: Sou fã do Kai Lenny sempre fui fã numero 1 do Laird Hamilton, que pra mim é um dos caras mais incríveis do surfe. Ele ajudou a desenvolver vários equipamentos como o foil, o tow in entre outros. Ele e o Kai são watermans completos. Só o Lucas Chumbo mesmo, que é atualmente um cara que bate de frente com o Kai em termos de qualidade na água. O Lucas é um cara que também é kitesurfista e um cara muito talentoso. No mundo do longboard tenho gostado muito de ver os atletas californianos e australianos, que já tem essa cultura clássica e entre os brasileiros, sem dúvidas nenhuma o Jefson Silva é um cara que se adaptou muito bem a esse lado clássico do longboard. E tem o Augusto Olinto, que pra mim é o melhor logger do Brasil, um cara que no surfe clássico, quando ele está inspirado não tem pra ninguem. O que falta a ele é experiência, hora de voo em competição. Mas em nível de surfe, não tem ninguém igual a ele. Me inspiro muito nos dois.

Phil levanta o caneco de campeão mundial em 2016 -  Foto: WSL

GF: Fale sobre sua rotina de treinamentos:
Phil Rajzman: Estou com um filha recém nascida. Então a pandemia chegou, minha filha estava bem pequena. Eu parei de competir por conta disso e foi muito positivo porque que pude vivenciar cada momento da minha filha. E ela esse ano tava sendo a grande inspiração para o terceiro título mundial eu costumo brincar dizendo que em 2007 foi a vinda da Rafa, a mais velha, ela nasceu e três meses depois eu fui campeão mundial; em 2016 foi a minha mudança para a Califórnia - eu já estava fazendo algumas viagens de adaptação ao estilo clássico - mas em 2016 foi o ano em que eu decidi realmente me mudar e foi o ano no qual eu consegui meu outro título mundial. Eu estava buscando inspiração máxima com o nascimento da Coral, e é impressionante como a gente tira força de onde achávamos que não houvesse. Então minha rotina é acordar cedo, ir surfar, depois eu ajudo em casa com as tarefas com minha esposa, cuido das burocracias da vida, e à tarde tenho meus treinamentos que faço com meu preparador físico o Eduardo Viana. Começamos a fazer um treinamento on line e está funcionando muito bem. Montei um mini centro de treinamento aqui em casa. Finalzinho de tarde, quando o mar está bom, eu faço a segunda sessão de surfe. Mas aquela sessão da manhã é sagrada, ela acontece independente das condições do mar. Eu sou daquela teoria de que treinar em mar ruim, é o melhor treino, porque na hora que você vai cair em um mar bom, fica mamão com açucar. Acredito até que essa seja a nossa grande vantagem com relação aos gringos porque eles têm aquela ondinha perfeitinha ali perto, bancadas de pedras, fundo de coral, e de certa forma vai fazendo o cara ficar mal acostumado. E quando chega em uma competição, nas quais a maioria das vezes o mar não ajuda, ele acaba ficando desmotivado.

 

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