Entrevista exclusiva: Carlos Burle dropa no Ricosurf

BIG SURF


 

Burle em Todos os Santos, 1998, quando foi o primeiro Campeão Mundial de Ondas Grandes- Foto: arquivo pessoal

O bicampeão mundial de ondas grandes Carlos Burle, conversou com o Ricosurf.com sobre seu atual momento. Burle, que há pouco tempo se aposentou das competições, segue buscando as maiores das séries ao redor do Mundo, além de treinar o big rider brasileiro Lucas Chumbo, e investir em seu projeto pessoal, a Burle Experience. Confira uma entrevista exclusiva com nosso primeiro campeão mundial de ondas grandes, feito conquistado em 1998, em Todos os Santos, México.

Burle e seu pupilo Lucas Chumbo - Foto: divulgação

Gerson Filho: Você vem atuando no mundo das ondas grandes, como atleta e nos bastidores, há mais de vinte anos. O que você acha do atual formato de competições com duplas de tow-in ?
Carlos Burle: Tem as competições de tow in, em que a mais recente, que aconteceu em Nazaré, com times, tinha um formato super interessante, envolvente, que deu a oportunidade de as duplas surfarem duas vezes, minimizando a desvantagem caso alguma dupla surfasse em um momento do mar no qual a ondulação não tivesse muito boa. Meio que um Eddie Aikau, mas nesse caso com duplas de tow in e nesse caso estimulando o esporte como time, o que é legal pra caramba. Você tem a participação da máquina, as empresas que fabricam jet-skis, todo pessoal do ramo, como combustíveis, acessórios. Eu gosto muito desse tipo de evento, ainda não sei se esse é o fomato certo para essa categoria. Talvez baterias eliminatórias chegando a uma grande final fosse mais envolvente, mas como a gente ainda não conseguiu expandir muito no tow in - tivemos um momento muito forte, um ensaio para um circuito mundial, em eu e Eraldo (Gueiros) participamos - mas nunca tivemos uma sequência forte. Mas de qualquer forma, vejo com bons olhos esse investimento do surfe de ondas grandes de tow in. E nesse esquema podemos citar a versão brasileira, que é Gigantes de Nazaré, que também tem o esquema de duplas e no final levando em considerações as melhores ondas e os destaques de cada categoria: melhor tubo, melhor onda, melhor time, melhor performance, etc... Além de tudo isso, temos o entrosamento entre países, como é o caso da dupla Kai Lenny e Lucas Chumbo. Então nesse momento só vejo coisas positivas acontecendo em nosso esporte.

Burle desce a ladeira em Nazaré, Portugal - Foto: divulgação

Gerson Filho: Em que momento você decidiu ser o treinador do Lucas Chumbo? Você acredita que ele antingiu o ápice em termos de desempenho nas ondas grandes/gigantes?
Carlos Burle:
Treinar o Lucas começou a tornar uma realidade em 2017 quando eu o convidei para ir para Nazaré. E é lógico que ele sempre teve muito talento, apoio da família, sempre foi fisicamente bem desenvolvido, é um cara forte. Então ele tem uma ótima combinação de fatores a favor. E ele já tem esse DNA de família, o pai é surfista, a mãe bodyboarder, sempre surfou em Saquarema, e inclusive tem como padrinho outro grande big rider que é o Marcos Monteiro, guarda-vidas casca de Saquarema. A gente evoluiu bastante, hoje ele é um dos melhores do mundo e tenho certeza que ele ainda não atingiu o auge. Agora ele tem que se adaptar à essa nova fase da vida. Quando você é mais jovem, está chegando, tem um gás a mais. Depois que você vira referência, precisa saber lidar bem com essa cobrança, e com essa pressão. Eu acredito que isso seja mais difícil do que você se destacar. Mas o esporte na nossa categoria de ondas grandes é sempre uma carreira em que para você ser realmente bem sucedido, precisa de tempo, precisa realmente se provar durante muitos anos. Não é uma coisa que aconteça do dia pra noite.


Gerson Filho: Quem são os principais expoentes do surfe de ondas grandes na atualidade?
Carlos Burle: Em minha opinião a trinca Kai Lenny, Lucas Chumbo e Billy Kemper são os caras da atualidade. Ai você tem a nova geração Pedro Calado, os havaianos Natan Florence, da antiga geração o Twig, o Peter Mel teve uma temporada incrível, mas não acredito que ele consiga competir com essa molecada. Tem a nova geração de Maverick´s, Luca Padua, agora tá aparecendo também em Portugal o Nic Von Rup. Tem uma galera na Irlanda, tem sempre uma galera de Austrália

Gerson Filho: Você praticamente criou a definição de "Freesurfer profissional", que hoje se tornou um grande filão. Você previa isso na época?
Carlos Burle: Não. Na realidade eu estava dando o meu melhor, durante anos investindo no big surfe e em surfar ondas boas, porque eu gostava, e queria provar que os brasileiros podiam pegar ondas grandes, que não éramos maroleiros, bastava apenas treinar. A minha grande motivação vinha dessa transformação da imagem do surfista brasileiro como surfista de ondas pequenas e ruins. Então acabou que eu estava no lugar certo, na hora certa. E eu comecei a ser reconhecido pelos meus esforços, consegui me desenvolver e depois culminou no meu reconhecimento como big rider, porque eu estava realmente focado nisso. Então terminou que tudo aconteceu sem muito planejamento, mas muito mais através da motivação de uma transformação e motivação para nós surfistas brasileiros, do que pensar em criar uma categoria "Freesurfer profissional" que hoje é uma das vertentes do surfe.

Burle no pódio de Pico Alto em 2012 - Steve Robertson

Gerson Filho: Na sua opinião, o grande e principal desafio do surfe em ondas grandes continua sendo Nazaré?
Carlos Burle: Nazaré um lugar muito bom para quem quer fazer fama. A gente sabe que você vai lá, pega boas ondas, faz um tow in, faz boas filmagens, produz bons conteúdos, aparece em várias mídias todo mundo respeita pra caramba. Mas se você quiser ser um bom surfista, respeitado pela comunidade, não vai conseguir isso surfando em Nazaré. Mas terá que remar ao lado dos big riders em lugares como Jaws, Waymea, os outer-reefs havaianos, em Maverick´s, Cortez Banks, vai ter que botar pra jogo o teu corpitcho. Nazaré é um lugar bom para fazer o nome. Lá continua sendo o maior pico do mundo, é o lugar onde se batem os recordes, é uma espécie de Everest.

Imagem clássica de Burle em Jaws - Foto: divulgação

Gerson Filho: Fale sobre seus projetos atuais:
Carlos Burle: Atualmente eu tenho treinamento com o Lucas, trabalho com ele e outros projetos na Red Bull, em alguns projetos da Mitsubish, com a Mormaii. Mas hoje tem focado muito na Burle Experience, que é a realização pessoal, pois é uma maneira de eu retribuir para o meio tudo que eu consegui de experiência nesses anos como surfista profissional, utilizando minha profissão como ferramenta de transformação pessoal, qualidade de vida, sustentabilidade. E eu to conseguindo levar isso para a Burle Experience. E tocando muitas vidas, estou sentindo um prazer muito grande, apesar dos desafios enormes, mas um prazer assim como tudo que eu faço na vida, rapidamente eu aprendo a amar o que eu estou fazendo. Então não é só amar o que você ama, mas aprender a amar o que você faz. Além disso, produção de conteúdo através da minha produtora, entre outros.

Burle posa em Nazaré - Hugo Silva / Red Bull Content Pool

Gerson Filho: Você mudaria algo em termos de planejamento de sua carreira?
Carlos Burle: Olha vou te falar um negócio, é muito fácil você olhar pra trás e pensar: eu tomaria decisões diferentes. Mas acredito que as coisas aconteceram em minha vida porque tinham que acontecer. Isso foi muito importante para chegar aonde estou então sou muito grato quando olho para o passado. E procuro sempre tirar o melhor aprendizado, para que eu possa dentro dos meus erros, desafios das minhas escolhas que talvez não tenham sido as melhores por conta da falta de experiência, melhorar meu presente. Eu faria tudo da mesma forma e sou muito grato a tudo.


Gerson Filho: Quem você apontaria como grande destaque da geração pós Ítalo e Medina no Brasil?
Carlos Burle: Essa pergunta é muito difícil, porque hoje não temos um surfista do nível do Gabriel, do Ítalo e até mesmo do Filipe, que não está na pergunta porque ainda não conseguiu um título. Temos ótimos surfistas na nova geração, mas ainda não acredito que a gente vai ter um Medina e um Ítalo tão cedo. Essa galera ainda precisa se provar. Mas não podemos fechar os olhos, precisamos nos estruturar e manter nosso nível alto.

Burle comentando a etapa do CT em Saquarema - Foto: reprodução @carlosburle 

Gerson Filho: Deixe uma mensagem para os leitores do Ricosurf
Carlos Burle: Queria agradecer a todos do Ricosurf pela parceria de sempre. Desejar a todos um 2021 maravilhoso, com boas ondas, equilíbrio emocional, muita conexão espiritual, clareza em nossas mentes para que façamos sempre boas escolhas.

 

 

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