Artigo: sobre surfistas e corporações

MERCADO


 

O bicampeão mundial Gabriel Medina é o principal garoto propaganda do Bradesco - Foto: divulgação

Li o artigo "Are Professional Surfers Really That Happy All The Time?" ( em português mais ou menos, 'Surfistas profissionais tem motivos para sorrirem o tempo todo?' )  na Stab Mag que questiona uma certa artificialidade nas entrevistas em eventos da WSL, com os surfistas sempre felizes e sorridentes no mundo maravilhoso do surfe. As perguntas são sempre alegres, todos os que vencem estão sempre amarradões e não existe espaço para reclamações, apenas alguns argumentações em sua maioria relativa às condições do mar, no máximo uma  outra questão sem muita relevância. Quem ganha sempre elogia a organização, os patrocinadores, enfim, há um “Mundo Perfeito”. Mas todos sabemos que não é bem assim. Para estar ali há muito trabalho envolvido, muitas frustrações e até brigas mesmo, dentro e fora da água.

Filipe Toledo tem contrato com a Jeep - Foto: FMA Notícias

E a partir daí comecei a pensar e a comparar o surfe com os outros esportes em termos de controvérsias que envolvem opiniões sobre todos os aspectos. No futebol a imprensa não pode ser considerada como “queridinha” dos jogadores. Se o centro avante não marca gol, lá vem as perguntas: “ E aí, como está se sentindo com o jejum de gols”, ou “ Você perdeu três penaltis seguidos, tem treinado para melhorar”. Se o goleiro falha: “ele está fora de forma”; “talvez seja a idade”. A crítica e até jocosidade fazem parte do esquema.


Alejo Muniz fechou recentemente com a BMW do Brasil - Foto: divulgação

Já no surfe talvez haja uma certa “regra” embutida e de alguma forma um “acordo de cavalheiros” no qual os atletas, muitas das vezes temendo perder seus patrocínios, mantenham-se sorrindo como se o mundo do surfista profissional fosse realmente um mundo dos sonhos. A imprensa ( mea culpa) também é bem próxima dos atletas, o que na maioria das vezes resulta em análises e matérias parciais.

Silvana LIma fazendo o trabalho de casa - Foto: Instagram @silvanalimasurf_

Porém sabemos que os sonhos para qualquer atleta de alto rendimento passam por uma entrega que inclui muita dedicação, leia-se: deixar de aproveitar aquela festinha; ter responsabilidades, que provavelmente não teria se não fosse atleta; manter-se sempre pronto para o próximo desafio, entre outros. E essa rotina tem começado cada vez mais cedo, uma vez que grandes players mundiais entram no jogo, o surfe deixa de ser para os “largadões da praia” para ser um “Esporte Olímpico”, o que basicamente gera inúmeras possibilidades em termos de grana, seja ela através de incentivos governamentais, ou do envolvimento de empresas que percebem no esporte grandes possibilidades.

A Ford apostou em Ítalo Ferreira - Foto: divulgação

Por mais que uma marca seja descolada, não tem como um Bradesco, uma Jeep, Oi, Ford, BMW, Ambev, AUDI, entre outras gigantes do mundo corporativo, não almejarem a valorização de suas “brands” através dos resultados de seus patrocinados - sejam eles em competições ou em geração de conteúdo - como ponto principal da relação. Voltando aos surfistas. Qual seria o ponto de equilíbrio entre aquela felicidade que só vemos nos vídeos de divulgação, e a realidade?

Maya posa para a Tag Heuer - Foto: divulgação

Na realidade do dia a dia, o bicho pega! É preciso dar aéreos cada vez mais altos, ter cada vez mais velocidade, elasticidade, força e concentração, entender dos business, tudo isso sem se lesionar, e, claro, mantendo o sorriso e uma representação considerada à altura pelas empresas. Na hora da entrevista tem que estar “amarradão”, mesmo que esteja com dores, ou mesmo tenha tido uma situação ruim na água como disputas acirradas por prioridades, interferências forçadas, e em alguns casos trocas de ofensas, todos fatos normais na briga de foice no escuro como diriam os antigos.

A A A Construtora Nosso Lar acredita no potencial de Miguel Pupo - Foto: divulgação

Sorrir e relaxar ( pelo menos em competições) sempre ficará cada vez mais difícil para surfistas/atletas. O crescimento do esporte, que sempre foi considerado mais um life style, traz a reboque relações profissionais de alto nível. Os contratos já envolvem seis ( às vezes 7) dígitos e a cobrança aumenta proporcionalmente.

Para o surfista continuar sorrindo nas entrevistas, será cada vez mais necessárias atitudes de abnegação, foco e profissionalismo. Como diz o batido ditado “Não tem almoço grátis”. Resumindo: para ficar entre os melhores dez do mundo, passaporte para elite, é necessário entender o esporte como um todo, e claro, quebrar dentro da água!

 

Comentários