Colunista Gustavo Franck: Tic Tac

COLUNISTA


 


Carissa Moore em Maui -  Foto: divulgação

Na contagem regressiva para as decisões do circuito mundial no Havaí, as calculadoras já somaram, subtraíram e dividiram todas as possibilidades envolvendo os pretendentes ao olimpo das ondas, tanto no masculino quanto no feminino. Entre as meninas, Carissa continua favoritassa: chega no quintal de casa com uma confortável vantagem sobre suas concorrentes diretas e mais, um sólido retrospecto nas direitas de Honolua Bay, onde no ano passado não apenas faturou a etapa, bem como arrancou uma nota dez dos juízes. Se repetir sua pior colocação nesse ano (quinto lugar), obriga Lakey Peterson a chegar pelo menos até a final e Caroline Marks a ganhar o evento. Já entre os barbados as coisas estão bem mais animadas, com diversas combinações que separam os quatro reais pretendentes por uma ou duas fases de diferença.


Jeremy Flores -  Tony Heff

Mas aqui, a cereja do bolo me parece repousar sobre outro aspecto: os franco atiradores. A especificidade das ondas de Pipeline traz à tona nomes, que nesse momento de decisão extrapolam o papel de respeitáveis adversários tornando-se ameaças imprevisíveis. E mais, o denominado seed dinâmico, que coloca adversários em rota de colisão de acordo com a colocação no round 1 pode fazer toda a diferença e despejar mais pimenta. Em 2019, o primeiríssimo time dos franco atiradores tem pelos menos quatro nomes de fazer borrar o short john alheio: Jeremy Flores, Julian Wilson, Kelly Slater e John John Florence. Flores já ganhou em Pipe duas vezes (2010 e 2017) e se sente à vontade tanto nas esquerdas quanto em Back Door. O mesmo vale para Julian Wilson, que em 2014 colocou água no chopp de Gabriel Medina, (devidamente retrucado no ano passado, quando foi o vice da etapa e da temporada).

Andy Irons -  Foto: divulgação

Ninguém abocanhou mais conquistas em Pipe do que Kelly Slater: sete ao todo, sendo a última em 2013. Sabendo-se que de a sua despedida do tour pode acontecer a qualquer momento, a oitava vitória no templo sagrado do surf seria como um final apoteótico, para o delírio dos pouco bairristas torcedores estadunidenses. Finalmente John John Florence, que até hoje confirma o ditado de que santo de casa não faz milagre. Afinal, o filho mais ilustre da meca do surf jamais venceu no quintal de casa. Além disso, lá se vão 13 anos do último triunfo havaiano, com Andy Irons em 2006. Se um desses nomes irá vencer a etapa é prematuro demais para a firmar, mas com esses oito surfistas entre “contenders” e “snipers”, é praticamente impossível que não se cruzem nas fases iniciais do evento.


G-Land voltou ao circuito

E com isso, podem escrever de forma ímpar os destinos do mundial de surf de 2019, na alegria ou na tristeza dependendo do referencial. Grandes emoções à vista! Nessa semana a WSL divulgou o calendário do WT para 2020 e tudo conforme o previsto. Finalmente foi oficializada a volta de G-Land ao tour dos sonhos e precisamos congratular a entidade por esse presente. Afinal, o circuito ganha mais uma esquerda e não qualquer uma, e sim uma onda de sonho. A perna australiana ainda desequilibra, com três eventos em três direitas. Acredito que deva ser o sonho da grande maioria dos fãs do surf (exceto os australianos e o John John) ver Margareth fora da lista. Particularmente, adoraria vê-la substituída por Fiji, mas a realidade é outra.

Jake Shimabukuro -  Foto: reprodução

A etapa do oeste australiano é a que melhor paga para fazer parte do WT e é sabido que a WSL não pode se dar ao luxo de abrir mão desse faz-me rir. Assim, enquanto não aparecer uma alternativa financeiramente tão ou mais atraente, seguiremos com as modorrentas direitas de Main Break reverenciando o carving do loiro bicampeão havaiano. Mas para não ser ranzinza, a seleção dos ungidos do tour é muito boa, variada e equilibrada. Já unanimidade... E como os olhos do mundo do surf se voltam para o arquipélago havaiano, os ouvidos seguem também, ao som das notas do ukulele de Jake Shimabukuro. Aqui um interessante adendo: apesar de ser tipicamente havaiano, esse instrumento musical tem suas origens na terrinha, mais precisamente nas ilhas da Madeira e dos Açores de onde imigrantes partiram no final do século XIX levando na bagagem alguns machetes, um pequeno instrumento de quatro cordas. Lá virou ukelele. Aqui, cavaquinho.


Jake Shimabukuro começou a tocar o ukulele ainda muito novo, aos quatro anos e logo se notabilizou pelo talento com o instrumento. As apresentações começaram pelos cafés de Honolulu e seguiram ganhando notiriedade até a estreia como artista solo em 2001. Além de toda a sua técnica e sensibilidade com o ukulele, Shimabukuro se notabilizou por extrapolar as fronteiras do instrumento, elevando suas possibilidades a outros patamares. Não seria exagero defini-lo como o “Jimi Hendrix do ukulele” e colocá-lo no mesmo grau de importância de Hamilton de Holanda para o bandolin ou Béla Fleck para o banjo.

Toastman’s wave: https://youtu.be/QXqJam7GEic

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