Crônica - Num país comandado por tubarões, manter-se vivo é questão de escolha

Colunista Iuri Corsini fala da relação do australiano com os tubarões


Quando cheguei na Austrália, onde passaria um ano mágico na Gold Coast, não sabia falar praticamente nada de inglês, mas sabia que todos os animais mais perigosos e letais do planeta lá estariam.

Fingal Head. Foto: OzBeaches.

Fingal Head. Foto: OzBeaches.



Em uma das minhas primeiras sessions em Ozz, no começo de outubro, fui queimado por uma água viva. Ora, vejam bem, eu já estava mais do que acostumado com as medusas brasileiras, mas aquela ali era da Austrália, cacete! Saí da água e a perna latejava e queimava bastante e meu psicológico começou a ficar abalado. Depois de me lavar bem em um dos vários chuveiros que têm em cada saída / entrada de uma praia na Gold Coast (e são muitas praias e muitas entradas e saídas ), sentei no meio fio da calçada de Surfers Paradise, com a perna realmente doendo, mais por uma espécie de câimbra do que da queimadura em si, e comecei a relembrar que o bicho mais letal do mundo é a tal da cubomedusa, conhecida como vespa-do-mar, uma água viva com a cabeça quadrada, e que justamente a partir desse mês se aproxima da costa de Queensland para reproduzir. Pronto. Sentença de morte decretada, fodeu!

Já estava desolado ali sentado, com a testa apoiada sob uma das mãos e a perna esticada,  quando chegou um australiano e local e perguntou o que aconteceu. Mostrei para ele o ponto onde a maldita havia dado o fatal ataque e ele imediatamente riu da minha cara. Disse (mais com mímicas do que com palavras) que não era nada demais e que eu fizesse o óbvio, lavasse bem e passasse o bom e velho vinagre.

O cara que me ajudou era um dos donos de uma surfshop vizinha ao meu apartamento de Surfers Paradise. Era uma pequena loja ao estilo garagem dos fundos chamada Sideways, com outlet e fábrica de pranchas, que poucos anos depois virou um grande negócio e deixou de ser uma lojinha. Minha única prancha australiana que eu tive até hoje foi de lá, à época ainda era uma prancha de segunda mão, com materiais da China, mas que até hoje foi a minha melhor prancha e a que mais me fez surfar minimamente bem.

Com o meu inglês ficando um pouco melhor, comecei a tentar entender como os australianos lidam com esses 'perigos' naturais, especialmente os tubarões - obviamente não aquelas malditas águas vivas.  O que o pessoal da loja me dizia, e depois muitos outros nativos confirmaram, era que a escolha é simples. Se você quer surfar, tem que saber que existem os riscos, mas que se for pensar neles, torna-se impossível continuar surfando. Ou seja, respeito, primeiramente, e a necessidade de surfar.

Com o tempo você se habitua àquele ritual insano e passa a se colocar em situações de risco praticamente sem perceber ou, pelo menos, sem pensar no assunto durante o tempo em que você estiver dentro d'água. Não é de uma hora para a outra, no meu caso durou um pouco menos, graças ao 'choque' inicial com aquela água viva inofensiva. Ali, depois do alívio pós terror psicológico, disse a mim mesmo que se eu quisesse aproveitar ao máximo o tempo que eu fosse passar na Austrália e realmente surfar ao limite, teria que perder o medo dos grandes Brancos e os outros medos decorrentes dos tabus australianos.

Meu espaço amostral se resume entre o centro-sul de Queensland e o sul de New South Wales. Muitas das praias que surfei havia um risco considerável e algumas delas com histórico de ataques de tubarão, mas eram normalmente mais povoadas do que em West Ozz e talvez a sensação de segurança na maioria desses locais era bem maior do que seu eu tivesse surfado em algum lugar do selvagem oeste australiano. Ou talvez fosse mais o costume e a forma que eu resolvi encarar essas situações naquele momento.

Fingal Head. Foto: DK Photography.

Fingal Head. Foto: DK Photography.



Num belo dia ensolarado de semana, surfando com mais cinco pessoas no lado direito de Fingal Head, pico que ia com frequência, numa bancada mais para o meio da praia, eu tive a minha real experiência de um encontro com o dentuço. Na ocasião, estava tão absorto nas ondas que não paravam de melhorar, que ignorei os sinais e o aviso de um assustado amigo que me disse "cara, acho que vi um negócio estranho e grande ali no fundo, sei não, vou sair fora".

A bancada ficava a uns 100 metros da costa e a maior parte da remada era em águas calmas como piscina, até chegar ao banco de areia externo. Não dei atenção ao tímido aviso, meu amigo era um iniciante e poderia estar com medo das ondas que iam melhorando e melhorando. Mas então os três locais ao nosso lado, todos bem mais experiente do que nós, instantes depois do meu amigo sair do mar, emitiram o verdadeiro alerta em um tom casual e quase baixo: "Shark, shark".

A ficha demorou a cair e eu fiquei para trás no lineup, ainda meio que tentando processar e entender a seriedade da situação. Quando o estalo do perigo iminente foi acionado, consegui pegar uma onda até a parte flat do mar. Nesse momento o medo invadiu por completo meu corpo. Começou pelo dedão do pé, que imediatamente foi levantado o mais alto possível (como se isso fosse salvar a minha vida) até a ponta dos dedos das mãos, que eram obrigadas a submergirem na água se eu quisesse sair dali o mais breve possível.

Não me atrevi a olhar para trás e me entreguei aos desígnios divinos - "se é essa a sua vontade que assim seja, mas enquanto isso eu preciso sair daqui e logo". Chegando na areia, as pernas bambas e o rosto lívido, tomei um esporro de um dos mais velhos que não entenderam porque eu demorei tanto para sair dali. "Queria ser morto, porra?", inquiriu um deles. Obviamente que não. Acontece que, e tive a certeza ali em pé na areia branca e fina e olhando a barbatana negra passar ao horizonte, que aquela máscara da coragem que havia vestido acabara de cair. Não queria morrer, porra. Claro que não. Queria continuar surfando, pegando altas ondas e sem me preocupar em ser mordido por um tubarão branco. Será que valia mesmo a pena aquela coragem forçada para surfar em picos mais inóspitos e perigosos? Será que não havia muitos outros lugares para surfar em que a maior preocupação fosse apenas a de surfar, não se afogar e não tomar nenhuma pranchada na cabeça? Tenho certeza que sim.

A partir desse dia minha cautela aumentou bastante e passei a evitar algumas praias. Deixei de ir a picos que gostava bastante. No fundo, achei que a decisão foi a melhor. Sei lá, depois do susto, eu, brasileiro que sou, percebi que não estava acostumado com essa ideia de surfar com tubarões famintos. É costume original, de berço. Portanto, quero dizer que contei toda essa história para dizer que a WSL, sim, mesmo eu não tendo gostado, acertou em tomar a decisão de cancelar a etapa de Margaret River.

West OZZ. Foto: Fabian Haegele.

West OZZ. Foto: Fabian Haegele.



Na noite do cancelamento falei em um grupo do whatsapp que se foi uma decisão majoritária entre os atletas, teria meu apoio. Mas isso é de uma levianidade tamanha. Num caso em que a vida está realmente em risco, ou pode ser colocada em risco, não precisa a maioria dizer que não se sente confortável em estar ali. Por mais que eu tenha achado que eles foram um pouco amadores em não prever na prática esse alto grau de risco que há em Margaret (que recebe o evento há mais de 10 anos), não se pode, de maneira alguma, incriminar a entidade nesse ,com certeza dificílimo e custoso, cancelamento.

"So I ride I have the will to survive

In the wild wild west

Trying my hardest

Doing my best

To stay alive"

No Wild Wild West de Sade, é preciso fazer o seu melhor para continuar vivo - no Wild West australiano também. Só que esse não é o intuito de um campeonato mundial de surfe, transmitido ao vivo para o mundo todo.

Nesse caso, prefiro imaginar o selvagem através da sedosa voz da nigeriana Sade Adu.

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