Entrevista exclusiva: Ricardo Tatui dropa no Ricosurf

SURF


 

Tatui, cria de Itacoatiara-RJ, tem faro para tubos - Foto: divulgação

Ricardo Tatuí é um dos maiores vencedores do surfe nacional. Oriundo de Itacoatiara, em Niterói, onda conhecida pelo seu power e tubos, o surfista teve uma carreira vitoriosa com pontos de destaque como vitórias em cima de campeões mundiais de surfe como Barton Linch, Damien Hardmann e Kelly Slater. Confira uma entrevista exclusiva na qual o niteroiense fala sobre competições, futuro campeão mundial brasileiro, política no surfe, entre outros.

Gerson Filho: Qual a principal diferença entre a época em que você competia, para hoje em dia?
Ricardo Tatui: Eu acho que a principal diferença do Circuito da Época em que competi, nos anos 1990, para os dias de hoje é que agora é muito mais valorizado. Na época em que eu competia, o surfe não era tão valorizado quanto é hoje e os brasileiros não tinham tanto apoio, nem aqui no Brasil para que você corresse o Circuito Mundial nem o Circuito Nacional, que na época era muito forte. E os gringos não consideravam o Brasil como uma grande Nação do surfe. A parte financeira, é totalmente diferente. Pra você ter uma ideia, na época você perdia de cara porque gastava muito e só recebia US$ 350,00 ou 400 dólares. Hoje você recebe 10 mil dólares, valor que viabiliza sua estada no CT mesmo sem ter patrocínios.

Tatui levanta o troféu com Eraldo Gueiros, Rodrigo Resende e Sergio Noronha na Praia de Geriba em Búzios. Foto: Basilio Bosque Ruy

Gerson Filho: Você se lembra em qual momento percebeu que estava "vivendo do surfe" em termos financeiros?
Ricardo Tatui: Como eu comecei bem cedo, com 14 anos, na época tinha muita premiação. Prancha, passagem para o Peru, Havaí. Então, eu comecei a perceber isso já com 16 anos e já comecei a juntar grana. Acredito que por ter diversas competições, com premiações, inclusive com cheque-roupa que era um valor por exemplo de mil reais que você levava na loja e depois podia vender. Fora que não sei se devido à economia, ou por ser uma coisa nova, haviam vários pequenos patrocinadores, diferente de hoje, que há grandes empresas envolvidas e poucas pequenas. Então a partir de 1984, 1985, eu já comecei a me sustentar.

Tatuí cavando em Itacoatiara - Foto: arquivo

Gerson Filho: Qual campeonato você considera o mais importante de sua carreira?
Ricardo Tatui: O campeonato mais importante que eu considero, falando do início da minha carreira, acredito que tenha sido o OP Pro. Porque esse evento deveria até constar no Livros dos Recordes, porque lembro que haviam cerca de oitocentos competidores, que eram a grande maioria na categoria amadora. Então esse foi o maior campeonato que o Brasil já teve disparado e após esse evento nunca mais houve um evento tão grande no Brasil. E foi dali que muita gente, de todo lugar do Brasil, de Norte a Sul, com muita gente acampado na Joaquina. E eu venci a categoria amadora, e a partir dali tive um imenso reconhecimento por todo Brasil. E com certeza, depois qdo venci uma etapa do CT, em Biarritz, 1994, inclusive ganhando de campeões mundiais como Damien Hardman, Barton Linch e Kelly Slater.

Entocado - Foto: divulgação

Gerson Filho: ter vencido o Kelly Slater, no auge, fez diferença na sua carreira?
Ricardo Tatui: Com certeza ter ganho do Kelly, principalmente na primeira fase, fato que quem é surfista sabe que era praticamente impossível para o Kelly Slater. E ainda por cima eu era "Wild Card" ( convidado) do evento. Na época eram os top 44 e eu tinha ficado em 45º. Então foi muito bom para minha carreira, tanto no Brasil como no exterior. Uma coisa que me marcou muito nessa vitória sobre ele - que já era um ídolo na época, uma espécie de herói americano, e nesse ano inclusive se sagrou tricampeão mundial - foi que a praia esvaziou e isso me chamou muita atenção.

Tatui cavando no Costão de Itacoatiara - Foto: André Cyriaco 

Gerson Filho: você lembra qual a melhor surf trip que já fez?
Ricardo Tatui: Eu já fiz muita surf trip maneira, Havaí, América Central, Japão, África do Sul, Indonésia, América Central, mas eu acho que o lugar mais legal que eu já fui na minha vida foi em Grajapan, que me chamou atenção - foi um misto de surf trip com competição - fui pra Grajagan em 1995, que foi o primeiro evento que rolou lá. Eu já conhecia Bali em 1989, mas nunca tinha ido a Grajagan. E foi uma coisa de outro mundo! Tive a oportunidade de ver aquelas ondas fenomenais, onde os 44 melhores do mundo surfavam e não tinha crowd, todo mundo pegava onda boa. E uma outra que eu posso falar também foi Fiji em 1997, onde peguei altas ondas. Aquela onda é incrível!

Tatui é um dos ícones da geração 80 do surfe nacional - Foto: divulgação

Gerson Filho: Quais são seus projetos atuais?
Ricardo Tatui: Eu era apresentador e comentarista de um programa que era veiculado no SBT Rio chamado 'Surfland', que era um programa muito legal, e estamos em vias de retornar, com patrocinadores novos. Nós fazíamos um boletim de tudo que acontece no Circuito Mundial. Também trabalho como "personal surfer" e faço um trabalho com três alunos no máximo. Esse é um novo segmento que começou há poucos anos e aqui em Niterói têm muita gente que quer aprender. Aqui em Niterói temos o canal de Itaipu que é muito bom para iniciantes, fora as competições master. Além disso, faço um trabalho na Empresa Niteroiense de Lazer e Turismo (NEOTUR), que envolve organizar e ajudar alguns eventos na cidade. Infelizmente isso começou no ano passado tendo a Pandemia atrapalhando.

Tatui no pódio do saudoso Op Pro em 1993 -  Tinguinha Lima ficou com o título da etapa, seguido do niteroiense Ricardo Tatui, Rodrigo Dorneles (3o) e Jojó de Olivença (4o).  - Foto: Basílio Ruy

Gerson Filho: Em sua época de competidor, não existia o "Dream Tour" , entretanto, haviam vários eventos regionais, nacionais, entre outros. Na sua opinião, isso facilita ou dificulta o trabalho do surfista profissional?
Ricardo Tatui: Na época não existia o "Dream Tour" mas o que posso te falar é que tem o lado bom e o lado ruim. Mas o que acontece, como eu falei, você tinha possibilidade de competir em vários eventos, você podia escolher. E isso fazia que houvesse a possibilidade de fazer uma carreira sólida, independentemente de ser um Gabriel Medina. Já houve ocasiões em que eu estava competindo na Prainha e havia um evento em Ipanema. A organização me esperava competir na Prainha, depois eu voltava e corria as baterias em Ipanema. Então você conseguia melhorar seu nível competitivo, testar mais pranchas, melhorar as manobras em vários estilos de ondas, e a parte financeira que você conseguia ganhar uma grana. Então tinham mais competições, mesmo que não sejam muito grandes e você conseguia levantar uma grana.

Tatui segue no rip - Foto: divulgação

Gerson Filho: Na sua opinião, qual surfista da nova geração (que ainda não está no CT) tem reais chances de ser campeão mundial?
Ricardo Tatui: Acho que é um pouco de especulação. Mas acredito que o Matheus Herdy, o Rickson Falcão, tem outros grandes surfistas espalhados pelo Nordeste, temos o João Chumbinho, entre vários outros surfistas que temos e que provavelmente vou esquecer de vários. Vi um menino no Rio Grande do Norte que tem o apoio do Ítalo Ferreira arrebentando, então temos diversos surfistas da nova geração que têm potencial para isso, e que se bem trabalhados podem chegar lá. Agora, a gente precisa de uma Confederação forte, com pessoas sérias envolvidas de maneira bem séria. Aproveito para deixar um recado para a galera da minha geração e da geração anterior, que não tinham um panorama como esse. Então acredito que devemos dar um pouco da nossa luta e experiência, que tivemos na água, atuando também como dirigentes.

Jogando pra dentro de grab raiil  - Foto: divulgação

Gerson Filho: Fale sobre a atual situação da política no surfe:
Ricardo Tatui: Espero que a Confederação Brasileira de Surfe entre em boas mãos, a partir do momento dessa administração que está lá saia. O Brasil tem potencial para ser uma nação tão grande como os Estados Unidos, a Austrália. Ainda temos muito potencial de crescimento através do surfe, então espero que as pessoas que assumam a CBSurf no futuro, coloquem o surfe realmente como uma atividade de trabalho, como o futebol tem com carteira profissional, Previdência, então eu espero que o surfe cada vez mais evolua e que carregue com ele os surfistas, a mídia, os técnicos e todo mundo que trabalha em prol do nosso esporte.

Itacoatiara e Tatui, parceria antiga - Foto: divulgação

Gerson Filho: Deixe uma mensagem para os leitores do Ricosurf.com:
Ricardo Tatui: Quero deixar um grande abraço para todos que acompanham o Ricosurf. Esse canal que tá muito à frente do seu tempo. O Rico que começou com o Disk Surf sempre promovendo o surfe, as competições, tudo que acontece no Mundo do surfe está no Ricosurf. Quero deixar um grande Aloha, marca registrada do Rico, um Mahalo para todos os leitores.

Comentários