Gerson Filho: Shaper digital x shaper manual

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O brasileiro Marcio Zouvi é um dos principais nomes do shape moderno - Foto: Sharpeyesurfboards

A maioria das profissões que envolvem conhecimento empírico, aquele que adquirimos sem o auxílio da ciência, pela observação erro e acerto, tem como tradição os chamados discípulos. Os conhecimentos são passados de uma maneira natural, através da observação, erros e acertos e não raro os aprendizes tornam-se melhores que seus mestres.

Johny Cabianca é o shaper do bicampeão mundial Gabriel Medina  - Foto: Cabiancasurfboards

Profissões como cozinheiros, marceneiros, mecânicos, ourives, agricultores, são bons exemplos nos quais a passagem de conhecimento não científico faz a diferença. Aquele datalhe, aquele pequeno diferencial, o "pulo do gato", por mais que se pesquise em livros e outras fontes de informação, não estarão disponíveis. É o tal tempo de estrada, experiência, feeling fazendo a diferença. 

Mas e no caso dos shapers, como esse conhecimento é passado? Infelizmente não há essa cultura de repasse de informações aos chamados aprendizes, ( não falo dos back shapers, que apenas fazem a parte braçal) fazendo com que todo o conhecimento empírico acumulado, se perca há medida que essa a geração ( dos "shapers manuais" bem entre aspas) deixa de fazer pranchas, e entram em cena os "shapers digitais", que tem como principal ferramenta, as máquinas computadorizadas e sua precisão.

Ricardo Martins fez pranchas para vários tops mundiais. Atualmente Jadson André, e João Chianca estão em seu time

Mesmo com toda tecnologia envolvida, aquela magia, que às vezes vem até de um erro, se acaba. Carlos Mudinho, um dos grandes shapers do Brasil, disse em uma ocasião que quando produzia as pranchas em cima de cadeiras, com ralador de coco, shapeou uma prancha assimétrica, mas muito boa.

 

Momentos da carreira de Mudinho como shaper - Fotos: arquivo pessoal

"Fiz a prancha toda e no final vi que a prancha tinha um lado maior que o outro", e Rico completou "Pois eh, a prancha ficou muito boa! E ali já pensávamos em pranchas assimétricas", disse descontraindo. A prancha pode não ter ficado tão boa, mas ali houve um parâmetro ( erro e acerto) que com certeza serviu para aprimorar sua técnica. A começar pelos plugs ( formato/medidas dos blocos de poliuretano) que eram bastante brutos, o shaper que começou fazendo shapes à mão, desenvolveu suas medidas, seus templates, errou muito, acertou muito, testou modelos, enfim, criou seu próprio banco de dados ( caderno de shape) e sua receita de uma boa prancha.

Para quem adquiriu conhecimento empírico - erro e acerto - a máquina é apenas uma ferramenta na qual ele aplica seu conhecimento para obter o melhor resultado final. Já os shapers digitais, já pensam na prancha a partir de um modelo semi-pronto, mas que tem no ajuste fino, a chave para o sucesso. Nesse caso, saber calibrar a máquina, quais os tipos de plugs que se adaptam melhor às medidas, entre outros pontos de refino, são os diferenciais.

Mestres: Gustavo Kronig e Gerry Lopes, intercâmbio

Sem julgamentos, cada um na sua, e inclusive há excelentes shapers que nunca tocaram em uma plaina. Mas não há como negar que são pegadas bem diferentes. É interessante pensarmos que depois que passarmos dessa geração de shapers que começou tudo à mão, não teremos mais pranchas feitas em hand shape e que isso, sem dúvidas, acarretará em mudanças na concepção de design de pranchas.

Rico de Souza em sua sala de shape - Foto: arquivo pessoal

Ressalto que essa é minha opinião, e que espero que hajam shapers fazendo essa passagem de bastão à frente, afinal de contas, o Brasil tem tradição na fabricação de boas pranchas. Que nossos shapers aprimorem cada vez mais seus trabalhos, sejam digitais ou manuais.

Fica a reflexão.

 

 

 

 

 

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