Léo Caetano - Contracultura pero no mucho

“Quem trabalha mais, surfa mais”


Comecei a trabalhar no distante ano de 1988, ou seja, no auge da era yuppie. Como a própria abreviação sugeria, uma época onde todos éramos young, urban e professionals.

Quem não se lembra dos prendedores de gravata dourados e dos colarinhos e punhos brancos nas camisas sociais? Jaquetões risca-de-giz, monogramas, coletes e suspensórios completavam ainda o visual dos aspirantes a Gordon Gekko mundo afora.

A visão de pessoa bem-sucedida era a de um executivo sem coração, que acendia seu charuto com notas de dólares enquanto discutia negócios jogando uma partida de golfe ou squash.

Revendo o documentário sobre a trajetória da lenda do surfe Rico de Souza sob o instigante título de “Surfar é coisa de Rico”, que dei a ideia original e ajudei a produzir, notei uma declaração bastante curiosa do surfista e empresário Fred D´Orey. Ele dizia, resumidamente, que no passado os apaixonados pelo surfe abandonavam o “sistema” para viverem mais perto da praia e das boas ondas, e assim, surfarem mais.

Foto: Leo Caetano.

Foto: Leo Caetano.



Hoje, com a explosão demográfica e mercadológica do surfe, para se surfar mais é necessário que se gaste muito dinheiro em viagens, pranchas e equipamentos. Logo, quem trabalha mais, surfa mais. Perdão pela redução, mas acho que era essa a ideia central de seu pensamento, que eu não poderia concordar mais. Logo se você não é um talento natural, e por isso mesmo não tem esperanças de ser pago para competir e surfar nos melhores picos do mundo, só lhe resta trabalhar.

Invernos havaianos, Barcos em Mentawai e viagens de última hora para aproveitar um swell na América Central custam muito dinheiro, mas ao mesmo tempo não tem preço. Essa é uma mudança sutil e não sei se todos perceberam, mas me parece que essa tendência veio para ficar.

Os tempos mudaram mesmo. Basta você dar um pulo na praia da Macumba num dia de boas ondas para notar que o point está repleto de empresários, executivos, publicitários, juízes, profissionais liberais, e por aí vai. Não são tão jovens, e são cada vez menos urbanos no seu estilo de vida, mas com certeza são profissionais. Profissionais que usam o surfe como uma forma de relaxar das pressões do dia-a-dia, mas também como uma nova forma de fazer negócios.

Arrisco-me a dizer que o lineup é o novo campo de golfe. A nova quadra de squash. Ali, entre uma série e outra, projetos são criados e negócios são fechados por uma gente queimada de sol, com sangue salgado correndo nas veias. Gente que insiste em não ser careta, que insiste em perseguir o sonho adolescente de surfar enquanto o corpo aguentar.

Dito tudo isso, fica ainda mais claro ainda que devemos admirar muito caras como o Fred e o Rico, que encontraram um jeito de equilibrar suas admiráveis trajetórias profissionais com o prazer de deslizar eternamente sobre as ondas. Só quem já acertou aquele cutback perfeito sabe como eles estão certos em preferir isso a ficar dando porrada numa bolinha.

* O colunista do Ricosurf, Leo Caetano, é administrador com MBA em Gestão pela UFRJ, surfista, fotógrafo amador de surf (@p11pics) e executivo da área de entretenimento. Foi diretor de cerimoniais Rio 2016 e autor da ideia original do filme Surfar é Coisa de Rico.

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