Leo Caetano - Quem é o seu shaper?



A magia da sala de shape. Foto: Léo Caetano

Confira mais um texto do novo colunista do Ricosurf, Leo Caetano, que é administrador com MBA em Gestão pela UFRJ, surfista, fotógrafo amador de surf (@p11pics) e executivo da área de entretenimento. Foi diretor de cerimoniais Rio 2016 e autor da ideia original do filme Surfar é Coisa de Rico.

Sempre que vejo um surfista carregando aquela prancha de uma marca internacional novinha em folha, com formas e medidas bem heterodoxas e repleta de copinhos de quilha, me pergunto quantas pranchas ele deve ter no seu quiver.

Me pergunto também, se sua experiência no surf justifica aquela escolha, ou se é apenas a vontade de estar na moda que o moveu. Na maioria das vezes, seu nível de surf não o permitirá tirar pleno proveito das potencialidades do brinquedo novo que carrega em baixo dos braços.

A verdade é que, cada vez mais pranchas são compradas como objetos de consumo, ou mesmo de status, e não como instrumentos de prazer e performance.

O surfe como contracultura deve estar se revirando na tumba.

E nem me venham argumentar que o Kelly Slater tem a tal prancha, e que aquele modelo é o que existe de mais moderno em termos de fabricação. Ou ainda, que o Trekinho destruiu surfando com uma dessas num programa de TV.

Ora, Kelly, Trekinho e cia são de uma espécie de seres que surfariam lindamente até com uma tábua de passar roupas quebrada.

Não se enganem, se você é um surfista mediano - daqueles que tem uma ou no máximo duas pranchas e surfa 95% do tempo nos picos perto de casa – devia pensar seriamente em desenvolver uma relação duradoura com seu shaper.

Isso mesmo, essa relação vai ser muito boa para você e melhor ainda para comunidade em que vocês estão inseridos. O mesmo shaper que faz as suas pranchas, faz também as pranchas dos atletas locais e das jovens promessas, então apoiar esse cara é, em última instância, apoiar o futuro do surf na sua comunidade.

Além disso, dá para aproveitar todo o prazeroso processo de se encomendar uma prancha nova. Discutir os mínimos detalhes do projeto com quem de fato conhece o seu surfe, seu pico e seus objetivos.

Como é bom planejar os ajustes necessários em relação ao último modelo com quem acompanha a sua linha evolutiva no esporte, e que muitas vezes conhece até os seus mais inconfessáveis defeitos dentro da água.

Tudo faz parte dessa experiência, que começa em definir modelos, rabetas e medidas, passa ainda por escolher a pintura, receber o bloco, e claro, dar aquela tradicional chorada no preço antes de seguir em frente.

Nada melhor do que dar uma passadinha na sala de shape para assuntar o andamento das coisas, pedir fotos da laminação pelo WhatsApp, até finalmente receber o foguete já de olho no próximo swell.

Ah, que momento!

O fato é que não devemos esquecer que conseguir a prancha mágica nunca é tarefa fácil, e muito menos uma ciência exata. Por isso mesmo, todo esforço no sentido de aumentar a probabilidade de que a nossa próxima prancha seja realmente muito especial é válido.

Todo tempo investido nesse processo no presente, acaba por ser recompensado por ondas incríveis no futuro.

Pessoalmente, custo a crer que uma prancha fabricada impessoalmente para um surfista genérico e uma condição genérica de onda, possa funcionar tão bem quanto uma feita especialmente para você, por alguém que acumula horas e horas de experiência na fabricação de pranchas para os picos em que você normalmente surfa.

Mas isso talvez seja só eu, olhando a questão por um prisma mais romântico. Por isso se você quer e pode, tem mais é que comprar a prancha que mais lhe agrada, mas não se esqueça que isso nunca substituirá a sagrada relação entre o surfista e seu shaper.


E no final, se ainda assim permanecer alguma dúvida na hora de encomendar o novo brinquedo, sempre vale parar na areia em um dia clássico de surf e fazer uma contagem das marcas de pranchas dos surfistas que melhor surfam aquele pico. Isso pode ser muito esclarecedor.

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