Leo Caetano - Santificado seja o nosso surf



"Se seus meninos são chamados de coroinhas,os nossos

são os grommets". Foto: Leo Caetano.

Confira mais um texto do novo colunista do Ricosurf, Leo Caetano, que é administrador com MBA em Gestão pela UFRJ, surfista, fotógrafo amador de surf (@p11pics) e executivo da área de entretenimento. Foi diretor de cerimoniais Rio 2016 e autor da ideia original do filme Surfar é Coisa de Rico.

Há um tempo atrás li a notícia que o Vaticano teria dado o aval para o início do processo de beatificação do “padre surfista”, que morreu surfando em 2009. Essa possibilidade acabou gerando um burburinho danado sobre o tema. Muito se falou sobre os hipotéticos benefícios e malefícios de se ter, em meio a já grande popularização um santo surfista.

Agora, adivinhe só, esses caras não têm alçada por aqui. Sim, digo isso porque o surf é uma religião em si, e como tal tem sua própria liturgia, templos e autonomia para apontar seus próprios santos.

Se eles têm o vinho, nós temos a Bintang. Se seus meninos são chamados de coroinhas, os nossos são os grommets. Nossas roupas não são pretas com colarinhos brancos. Temos batinas de neoprene multicoloridas em tons de flúor. Somos assim, hóstias de parafinas, terços presos aos calcanhares e sorriso fraternal para nossos brothers.

Nossa terra santa é o Hawaii e nosso graal a onda perfeita. Há quem defenda que temos até o nosso próprio incenso. Mas nada disso importa muito, porque somos uma religião sem lideranças estabelecidas, onde todos são ao mesmo tempo pregadores e seguidores do verão sem fim.

Nossa busca é sempre pela próxima onda, porque para nós as ondas são como igrejas. Há quem goste da singela beleza das capelas, ou melhor dizendo, das marolas. Que com suas dimensões reduzidas, são ideais para os recém convertidos.

Há os que preferem as clássicas e perfeitas catedrais, como Pipeline, Jeffreys Bay e Uluwatu. E há ainda, o seleto grupo dos que se dedicam a testar sua fé nas grandes basílicas, lugares como Nazaré (coincidência?), Jaws, Waimea Bay, Teahupo’o e similares. Independentemente do local escolhido, todos comungam da mesma experiência metafísica de andar sobre as águas.

Nossos santos atendem pelos nomes de Duke Kahanamoku, Tom Blake, Greg Noll, Miki Dora, Eddie Aikau, Gerry Lopez, Tom Curren e, ao que tudo indica, o próprio filho do Homem – que está por aqui sob a forma humana conhecida como Kelly Slater.

Caso o Vaticano decida seguir com a ideia de beatificar um de nós, mesmo que à revelia da Igreja Surfística Apostólica Havaiana, espero que pelo menos seja concedido um feriado ao Santo Surfista. Assim, seus devotos poderão, pelo menos, render suas justas homenagens dentro da mais benta das águas.

P.S. Esse texto é uma homenagem ao amigo Luis Mauro Jabour que, assim como o seminarista Guido Schaffer, morreu surfando – esporte que amava com fervorosa devoção.

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