Museu do Surf de Santos: O Surfe e a Filosofia de Vida de Mudinho

HISTORIA


 

Mudinho, um ícone do esporte brasileiro - Foto: arquivo

O surfe permite experimentar as mais incríveis sensações. Ouvir o barulho do mar, enxergar a natureza e suas cores, sentir o cheiro e o gosto da água salgada são algumas das experiências sensoriais vividas pelo praticante do esporte.A intensidade de cada um dos sentidos depende da sensibilidade de cada um. Para o carioca Carlos Roberto, ouvir as ondas passa distante da audição, mas junto à alma. O surfista que se tornou uma lenda no Arpoador sente as ondas pela vibração do mar. Seus sentidos são especiais.Carlos Roberto L’Astorina veio ao mundo no dia 13 de junho de 1949. O carioca do Leme, nascido surdo, frequentava a praia desde pequeno e não temia as ondas. Nem a mudança para o Jardim Botânico impediu a sua íntima relação com o mar.

Durante o festival Oca em Santos - Foto: Davi Realle

O menino conheceu o Arpoador e logo se sentiu atraído pelas pedras do lugar mágico. A praia era o paraíso das boas ondas e Carlos “Mudinho” passou a pegar onda de peito junto com outros adeptos do jacaré. Foi com uma tábua Procópio comprada pelo pai que o garoto de apenas nove anos deslizava deitado sobre a pranchinha. Quando criança Mudinho estudou numa escola especial para surdos e se tornou muito conhecido pela prática de várias modalidades esportivas como futebol, basquetebol, vôlei e natação. Porém, a visão de um homem descendo uma onda de pé mudou sua vida. A loja de roupas do bairro estampava o cartaz de um surfista descendo uma onda no Havaí em sua enorme prancha. Ele comprou uma blusa florida havaiana na loja do Leblon e começou a viver o surf style.

Mudinho em Santos durante o Oca Festival, Santos - Foto: Alfredo Von Sidow

Aos 15 anos Mudinho voltava da escola quando viu uma prancha na carpintaria perto da casa onde morava no Leblon. O garoto convenceu o carpinteiro a fabricar um modelo exclusivo.Era a primeira vez que Mudinho desenhava o protótipo de uma prancha. Ele estava muito animado com a descoberta e sua mãe não mediu esforços para transformar o desejo em realidade. A prancha de compensado naval foi encomendada e assim que ficou pronta, pintou duas listras amarelas no fundo vermelho e caprichou na arte do brasão. A turma do Arpoador ficou admirado com a pintura clássica. A inspiração era a foto do cartaz.

O estilo polido é uma marca registrada de Mudinho - Foto: Renato Nunes

Mudinho começou a surfar com essa prancha no Arpoador e no Leblon. O jovem surfista percebeu que ela não funcionava bem nas manobras, pois a rabeta era larga demais e resolveu voltar à carpintaria para modificar o shape e dar mais envergadura ao bico. A prancha ganhou nova pintura com verniz e bordas brancas e o famoso brasão foi retocado. O novo design funcionou bem nas ondas do Arpoador e do Leblon e fez sucesso entre os surfistas. Pouco tempo depois, ganhou do pai um longboard da marca francesa Barland-Root. O ano era 1966 e Mudinho estava integrado ao berço do surfe brasileiro, junto com Geraldo, Charuto, Mário “Bração”, Piuí, Tito Rosemberg e os irmãos Cyro e Irencyr Beltrão.

Uma dupla com muito surfe na veia: Rico de Souza e Carlos Mudinho

Naquele ano disputou o campeonato carioca e foi desclassificado. No ano seguinte, em 1967, venceu e levou o prêmio de Revelação do Surfe no Rio de Janeiro. Foi a maior alegria da sua vida. A fama de Mudinho rompeu fronteiras. Em 1968 foi convidado para participar do Campeonato Aberto do Ilha Porchat, o primeiro torneio interestadual, em São Vicente. O fusca trazia outros surfistas cariocas, entre eles o jovem Dentinho, que se tornaria conhecido nacionalmente como Rico de Souza.Foi com a surfboard Hawaii Model A do amigo Christian que Mudinho conquistou a categoria Seniores e deu um verdadeiro espetáculo nas águas do canto da Ilha da Praia do Itararé. Ele realizou uma série de manobras e terminou no raso fazendo malabarismo sobre a prancha para delírio dos espectadores.

Mudinho e seu veículo - Foto: arquivo 

O surfe nas praias paulistas jamais seria o mesmo. Mudinho também não. O surfista superou a adversidade auditiva, desenvolveu e potencializou outros sentidos. Conhecedor das ondas e da fluidez do mar, Mudinho se tornou um shaper diferenciado e produziu pranchas de Norte ao Sul do Brasil. Formou-se em Arquitetura, viveu inúmeras experiências internacionais, conheceu grandes nomes do surfe mundial e se tornou uma lenda do surfe brasileiro. Da harmonia com a natureza, Mudinho sentiu o poder divino cada vez mais presente em sua vida. A Aliança com Deus aconteceu em uma cerimônia no Havaí, em 1974, quando recebeu o sinal de Arco-Íris na hora do batismo. Em 1988 foi ordenado pastor para surdos. Entre os anos 1994 e 1999, o surfista de Deus se formou no Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro. Atualmente, Mudinho cursa bacharelado em Teologia e faz vídeos em Libras aos surdos. Autalmente, ele escolheu morar no paraíso de Saquarema. Para ele, o melhor surf point do Brasil. Um presente de Deus.

Três gerações do longboard: Mudinho, Phil Rajzman e Vitorino James - Foto: divulgação

Equipe do Museu do Surfe

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