Por onde andam os Meninos do Rio?

Estado sede do mundial de surf no país amarga mais um ano sem representantes


Cauli Rodrigues é um dos ícones do surfe carioca - Foto: Edu Olinto 

Foi num "rio" de nome Janeiro que o esporte dos reis polinésios deu suas primeiras remadas e ganhou corpo no país. Para ser mais preciso, nas séries que correm lambendo a pedra do Arpoador, no bairro de Ipanema. Ondas de cinema quando quebram de gala. O pioneirismo dos anos 50 foi o alicerce para a vanguarda dos anos 80, expressa nas batidas verticais, verdadeiras pauladas, de Cauli e Pepe. Mas a realidade hoje é bem diferente, os meninos do Rio perdem cada vez mais espaço dentro e fora do país.

Raoni Monteiro foi o último representante do Rio no CT - Foto: divulgação

O último representante do estado na elite do surf mundial foi Raoni Monteiro, que se despediu no fim de 2014. De lá para cá, há um gap. Um abismo na história, resultado do descaso e de uma crise econômica e política vigente no Rio de Janeiro, que se arrasta há décadas. "precisamos de um circuito estadual amador e profissional forte, assim como um centro de treinamento de alto rendimento. É preciso que tenha apoio financeiro, seja ele público ou privado, para que o atleta possa subir todos esses degraus.No Rio, há muito tempo não temos todos os componentes desta engrenagem trabalhando como deveriam." Explicou Guilherme Aguiar, presidente da FESERJ, Federação de Surfe do Estado do Rio de Janeiro.

Guilherme Aguiar, presidente da FESERJ - Foto: Elsson Campos

O trabalho feito pelos integrantes das associações e da federação não é remunerado, a consequência é o amadorismo. Há dificuldades sérias na captação dos recursos. Guilherme Aguiar ainda apontou a volta da etapa do circuito mundial ao estado, em 2011, como um dos fatores para o esvaziamento de investimentos no surf fluminense, na última década 

"Desde 2011 quando o WT voltou ao Rio, temos uma parcela enorme da verba do esporte fluminense indo para este grande evento. Se apenas 10% disso fosse destinado à Federação, estaríamos muito bem servidos e poderíamos promover os melhores circuitos (amador e profissional) do país".

O surfe hoje é uma indústria que movimenta R$ 7 bi ao ano em roupas, pranchas e acessórios no país, segundo o IBRASURF - Instituto Brasileiro de Surf.

A etapa de Saquarema  - Foto: divulgação

"As mudanças são grandes, né. Muito mais dinheiro envolvido. O mercado cresceu, mais pessoas consumindo, mais pessoas praticando. A gente ali no meio, teve que começar a fazer com que o esporte fosse encarado com mais profissionalismo, seriedade. Foi um momento de transição. Antes eram os festivais de surfe, depois campeonatos de surfe e hoje, falamos em liga. Agora somos esporte olímpico, muita coisa está acontecendo.", esclareceu Guilherme Herdy, que competiu 10 anos no WCT, de 95 a 2004.

Guilherme Herdy, no Taiti - Foto: divulgação

Então como explicar a falta de investimento de uma indústria tão rica? O fato é que marcas locais e identificadas com o esporte no passado como a Cyclone, do falecido surfista Roberto Valério ou a K&K, dos irmãos Kleber e Klecio, que organizavam circuitos de base e patrocinavam dezenas de atletas locais, foram brutalmente esmagadas pelo mercado com a chegada de marcas consolidadas mundialmente. " Não temos mais empresas apoiando o surf no estado do Rio de Janeiro. Hoje, quem manda no mercado do surf são as grandes marcas e elas já têm os top mundiais como patrocinados, por isso não apoiam a base. Fora isso, não temos um centro de treinamento como em outros lugares." Expôs Victor Ribas, dono da melhor marcabrasileira no WT por 15 anos, com um terceiro lugar conquistado em 1999.

Antes do título de Gabriel Medina Victor Ribas era o brasileiro com o melhor resultado no CT até então 3º - Foto: Pedro Monteiro

Na falta de um circuito estadual consistente, com etapas espalhadas por todo litoral e trilhando os atletas do amador até o profissional, a nova geração aposta nas redes sociais como uma vitrine para atrair patrocinadores. Victor vivencia de perto a nova realidade com seu filho Lucas, que busca a profissionalização no esporte.

"Na minha época precisávamos mostrar resultados e então, conseguíamos patrocínio para competir no World Tour. Meu filho está tentando ser surfista profissional numa época bem diferente da que eu vivi. Hoje, não temos aquela quantidade de marcas que apoiavam o surf brasileiro, como na minha época e a mídia mudou também. As redes sociais, como o Instagram e o Facebook são importantes para manter o atleta em evidência e conseguir um bom patrocinador.", disse Victor Ribas, que surfou 13 temporadas na elite do surfe mundial.

João Chianca é uma dos destaques do surfe do RIo atualmente -  Foto: divulgação

Apesar da pandemia e da crise sanitária que vivemos, a World Surf League confirmou que chega a Saquarema em agosto, entre os dias 11 e 16. O maior evento do mundo do surf, sediado na capital nacional do esporte, sem sequer um representante local, um paradoxo, uma contradição lógica que incomoda o moral do Rio de Janeiro, berço do surf brasileiro.

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