De volta ao CT: Confira uma entrevista exclusiva com Miguel Pupo

De volta à elite mundial, Miguel segue treinando forte


O surfista de elite mundial WSL, Miguel Pupo, 28 anos, vem de uma família com tradição no surfe nacional. Nascido Itanhaém, Litoral Norte de São Paulo, seu pai, Wagner Pupo, é um dos mais vitoriosos e longevos competidores da ABRASP ( Associação Brasileira de Surfe Profissional) e também competiu na divisão de acesso à elite do surfe mundial. Seu irmão mais jovem, Samuel, 20 anos, é apontado como uma das promessas do surfe mundial, e inclusive passou perto de classificar para a elite já em 2019, ano que venceu o QS 10.000 em Ericeira, Portugal.

Após cair para a divisão de acesso em 2018, QS, Miguel voltou com tudo em 2019, vencendo o QS 10000 da Galícia na Espanha, e emplacando um ótimo terceiro lugar no QS 6000 Azores Airlines Pro, campeonato que rolou em um mar clássico com altos tubos ( foto acima) na Praia Santa Bárbara da Ilha São Miguel, no arquipélago dos Açores, em Portugal. Apesar de dominar manobras como os aéreos de todos os tipos, Miguel tem o estilo a polidez de seu surfe como diferenciais. Após permanecer por oito anos no CT, onde manteve-se com certa facilidade, Miguel deixou um pouco esse lado aerialista, e se empenhou em aprimorar sua linha. Porém voltou a usar a inovação nas difíceis baterias do QS.

Miguel em Noronha - Foto: Smorigo

Após permanecer por oito anos no CT, onde manteve-se com certa facilidade, Miguel deixou um pouco esse lado aerialista, e se empenhou em aprimorar sua linha. Porém voltou a usar a inovação nas difíceis baterias do QS. 

Wagner Pupo o "Vala" e Zé Paulo, equipe Rip Wave anos 1980 - Foto: reprodução Midias Sociais

Confira uma entrevista exclusiva Miguel na qual ele fala sobre seus novos horizontes, preparação, família, inspiração, entre outros assuntos. Vale o drop!

- Gerson Filho - Fale sobre esse período de quarentena: quais os pontos negativos, e os positivos?

- Miguel Pupo - Na minha opinião, esse período de quarentena foi maravilhoso. Pude ficar um tempo com minha família, ver minha filha mais velha aprender a andar de bicicleta... a mais jovem comçando a falar, coisas que a gente só tem uma vez para aproveitar na vida. Agora, em relação à minha profissão, também foi bom. Temos algumas pequenas lesões que às vezes vamos arrastando por conta da correria, e com esse tempo tive tempo de descansar meu corpo, minha mente. Só de CT foram oito anos seguidos, mais o QS, mais vários anos competindo nas categorias de base. São muito anos competindo seguidamente e isso cansa a mente. Então foi bom para descansar, para testar as pranchas, e inclusive formalizei minha parceria com o Marcio Zouvi (Sharp Eye) e aproveitamos o tempo para desenvolver meus modelos. Então pra mim foi um ano super positivo. Fiquei muito feliz em ficar perto das minnhas meninas.

Mig em alta velocidade nas Maldivas - Foto: Instagram 

GF - Você viajou recentemente para as Maldivas, confere? Fale sobre a trip...
Miguel Pupo - Sim, recentemente fui para as Maldivas, acho que é a quarta ou quinta vez que eu vou pra lá. Foi bom rever o lugar e poder fazer uma surf trip só para surfar livremente, com meus amigos sem precisar treinar, sem pensar em nota, em nada. Foi esse feeling que fez eu me apaixonar pelo esporte. Sou competidor e adoro competir, mas essa é a verdadeira essência do surfe.

 

GF - Antes das Maldivas, como você fez para manter o rip em ondas mais desafiadoras, rápidas e tubulares?
Miguel Pupo - Cara, aqui onde eu moro é conhecido por essas ondas rápidas e tubulares. Muitos outros surfistas como Thiago Camarão, Gabriel Medina, Ian Gouveia, treinam aqui e temos essa vantagem sempre que o mar sobe a gente pega altos tubos, ondas fortes então a quarentena em casa foi perfeita, deu altas ondas! E assim que o surfe foi liberado, fomos para a água e foi muito bom!

Miguel vem intensificando o treino de aéreos - Foto: Ítalo Conceição

GF - Como você tem trabalhado suas pranchas atualmente?
Miguel Pupo - Cara, trabalhei muito as minhas pranchas, com o Tuba, que é o cara que faz as pranchas do Marcio Zouvi no Brasil. Então foi legal para nós dois ter esse trabalho de shaper e atleta profissional. A gente melhorou muito, as pranchas estão perfeitas e tenho total confiança nas pranchas. Tá bem legal ter essa base no Brasil também. Pode vir ao Brasil e ter essa pessoa de confiança que irá produzir essas pranchas, na Califórnia o próprio Marcio, na Austrália também temos uma base. Então é bem legal poder contar com uma marca com reconhecimento internacional, com bases por todo o mundo.

Miguel vem desenvolvendo um tabalho com o shaper Marcio Zouvi - Foto: instagram

GF - Você fez parte da equipe Hurley, uma multinacional. Hoje compete defendendo a bandeira de uma empresa fora do eixo do surfe, a construtora Nosso Lar. De que maneira essa troca influenciou em sua carreira?
Miguel Pupo - Fiz parte da equipe Hurley durante sete anos. Foi a marca que me apresentou para o mundo. Fui o primeiro surfista brasileiro a ser patrocinado pela marca. E lembro que logo que a gente fechou em contrato, em fevereiro, em agosto eu já estava classificado para o CT. E foi bem legal, foi muito positivo tanto pra mim quanto pra eles, e daí pra frente foram vários anos de Circuito, ali disputando, brigando. A gente sabe como é difícil estar na elite e hoje é uma vida nova. Foi um recomeço, acabei perdendo o patrocínio e saindo do CT. E a Nossa Lar me encontrou. O Rodrigo dono da empresa, hoje eu considero um irmão, já faz parte da família e ele que acreditou em mim, e me deu uma oportunidade, que era tudo que eu precisava naquele momento, e hoje eu não imagino minha vida sem a Nosso Lar como parceira. Obviamente é diferente, são duas empresas bem diferentes, mas elas têm algo muito parecido. São empresas de ramos diferentes, mas são muito parecidas no que diz respeito a dar o melhor para seus atletas. Hoje eu tenho uma estrutura muito boa, igual ou melhor que na Hurley. E hoje eu estou feliz tenho tudo do bom e do melhor e só tenho agradecer ao Rodrigo por ter essa mentalidade, que isso faz totalmente a diferença. E estou onde eu estou, com esse recomeço. Tenho outros parceiros como a Surf View. Feliz de ter encontrado pessoas parceiras de verdade para me ajudar no recomeço, e agora a gente tá de volta e vamos fazer tudo novo.

Os irmãos Pupo - Foto: arquivo pessoal

GF - Você recentemente postou alguns vídeos fazendo combos de aéreos de vários tipos. Em sua opinião, é possível um surfista ser campeão mundial sem dar aéreos?
Miguel Pupo - Recentemente eu postei esse vídeo dando vários aéreos, e na verdade faz parte da minha essência. Sou dessa nova geração aerialista junto com o Gabriel, com o Felipe, o Yago. Então faz parte de mim e eu tinha deixado isso um pouco de lado. E depois que eu voltei para o QS reativei esse lado, de ter de volta essas manobras em meu arsenal, sempre com o surfe de linha, lógico, e as manobras fortes no meu arsenal.Na minha opinião é praticamente impossível ser campeão mundial sem dar aéreos. Hoje em dia o aéreo faz parte do repertório básico. Acredito que atualmente não haja um surfista que não dê ou tente dar aéreos em uma bateria. Realmente faz parte do jogo e todo mundo tem que ter essa carta na manga.

Miguel estiloso de backside - Foto: divulgação

GF - Se você pudesse mudar algo que fez 10 anos atrás em sua carreira como surfista profissional. Faria algo diferente?
Miguel Pupo - Acho dificil pensar no passado, 10 anos atrás, em algo específico que eu teria ou não feito. Acredito que tudo é válido, tudo que acontece não só na minha vida, como na vida de cada um. Não consigo nomear nada específico. Fico feliz com jeito como a minha carreira seguiu. Talvez há dez anos eu tivesse tido mais calma para fazer as coisas. Mas há dez anos atrás eu tinha apenas 17 anos, e fica difícil pedir calma para um adolescente.

GF - Quem são os surfistas que lhe inspiram?
Miguel Pupo -Tem muitos surfistas que me inspiram. O maior deles é meu pai, que veio de uma geração em que o surfista ainda era discriminado, falando o português claro que os surfistas eram "um bando de vagabundos". Ele não tinha nenhum apoio da família e foi o primeiro a ser um surfista profissional e seguir o sonho dele. E hoje eu sempre falo que eu sou a extensão do sonho dele. Se ele tivesse desistido lá atrás, sem dúvidas hoje eu não estaria aqui. Então é uma inspiração pra mim, ver que dentro de todas as dificuldades ele não desistiu, fez uma grande carreira - tanto no Brasil quanto no exterior. Têm vários outros como o Mick Fanning, pelo profissionalismo e carisma, o próprio Gabriel (Medina) pela história, o Adriano ( De Souza). Tem vários outros que eu admiro, mas o maior deles com certeza é meu pai.

Jadson André e Samuel Pupo carregam Mig nos ombros após a vitória na Espanha


GF - Já tem alguma próxima viagem planejada?
Ainda não tenho nenhuma viagem planejada. Há alguns rumores de que talvez o circuito volte ano que vem. Ainda está tudo muito superficial. Obviamente a WSL vai nos manter informados e eu vou ficar esperto, mas até então vou manter o ritmo de surfe, as pranchas no pé e ficar preparado para o que der e vier.

GF - Você e seu irmão, Samuel, já pensaram em disputar uma final do CT?
Miguel Pupo -
Cara, obviamente a gente sonha com isso. Não só uma final, mas uma bateria no CT. Mas a gente sabe que uma coisa de cada vez. Ano passado ele já quase se classificou e sem dúvidas será muito gratificante - não só pra mim, mas para a família toda - mas cada um no seu tempo. Acredito que foi um ano de aprendizado para o Samuel, ele ficou bem perto. Foi bom porque ele aprendeu a vencer eventos. Enfim, é um sonho mas a gente é bem realista e sabe que um passo de cada vez e se tudo der certo a gente vai chegar lá.

Miguel com sua camisa 91 no CT

GF - Que tipo de treinamento faz além do surfe?
Faço treinamento funcional com meu treinador Thiago Jacomeli, que me treina desde 2015. É um treinamento variado, tentamos coisas que deram certo, coisas que não deram. Mas basicamente é uma corrida, uma remada ( tanto de canoa havaiana quato de SUP Race), ginástica natural e treinamento de força. Então são vários elementos, até porque o surfe é bem variado. A gente faz de tudo um pouco e apneia também. Ele faz o calendário de treinamento baseado nas etapas. Exemplo, nas etapas mais de manobras, chego mais leve, mais ágil. Já ho Havaí, por exemplo, focamos na força posso chegar um pouco mais pesado..

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