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Peti, Menino do Rio

Escrito por

Gabriel Pierin

|

Publicado em:

01/04/2025

|

Atualizado em:

01/04/2025

-

18:13

|

4 min de leitura

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  Na distante noite de 1978, a casa de Caetano e de Dedé Gadelha se abriu para receber seus convidados, entre eles Peti, amigo de todos daquela roda de bate papo. Caetano se inspirou nele, e naquele encontro, compôs a letra da música que se tornaria um clássico.

Três dias antes, a amiga e cantora Baby Consuelo, que sonhava cantar Caetano, tinha lhe pedido uma música. Tome esta canção como um beijo, disse o compositor baiano. Baby estava no último período para a produção do seu novo álbum Pra Enlouquecer, lançado em 1979. A cantora correu para Pepeu, marido e diretor musical, com a fita cassete em voz e violão. Pepeu tinha um arranjo pronto guardado e o entregou para a gravação da música.

De vida livre e intensa, Peti, que nasceu José Artur Machado, em 20 de dezembro de 1956, no Rio de Janeiro, cresceu em meio aos surfistas, livre e esbanjando vitalidade. Por volta de 1974, aos 17 anos, tatuou o seu dragão no estúdio Lucky Tattoo, de Knud Harald Lykke Gregersen, o dinamarquês radicado em Santos, pioneiro e responsável por popularizar a arte da tatuagem nas bocas do cais do porto.

Peti tinha apenas 20 anos quando a música foi composta. Ele estava no auge da sua vida, tinha muitos amigos e se relacionava com muitas mulheres. Peti era o que Caetano escreveu. Um calor que provocava arrepio onde chegava. De cabelos longos, queimados pelo sol, dragão tatuado no braço, calção, corpo aberto no espaço, era símbolo de uma galera saudável de mar, um verdadeiro menino do Rio.

No início a turma se reunia no Arpoador. A partir do começo dos anos 1970, as obras mar adentro do emissário submarino na praia de Ipanema levaram à formação de uma bancada. A construção deu nome ao novo pico. Surgia o Píer de Ipanema, um point break de ondas grandes e perfeitas.

Peti e Rico de Souza

Peti e Rico de Souza

Na praia, o canteiro de obras e a remoção de areia formaram uma duna artificial. Um verdadeiro oásis. Então que o Havaí seja aqui. A mistura da música e do surfe trouxe os baianos Gal Costa, Caetano, Gil, Baby Consuelo para perto dos surfistas Fedoca, Daniel Friedman, irmãos Pacheco e Proença, Lipe Dylong, Rico, além de Pepê, Mario Bração, Penho, Piuí, Maraca, Mudinho, Tito Rosemberg, Evandro Mesquita, entre outros. Peti era o elo de ligação, o cara que transitava nas diferentes tribos e lugares.

Numa época marcada pela ditadura, pela perseguição aos jovens nos anos 1970, os surfistas e artistas eram mal vistos. O menino vadio, nada pernicioso, andava solto sobre seus tamancos de madeira causando uma tensão flutuante do Rio. Vanguardista, Peti fez parte da contracultura carioca, inspirada no movimento hippie de paz e amor. Foi assim que Caetano sacou o menino que despertava paixões por onde passava, causando frisson em corações, de eterno flerte.

Peti e Mônica Johnsson Boran

Em 1980 a música virou tema de abertura da telenovela Água Viva, e Peti, uma celebridade para os padrões da época. Nesse início dos anos 80 ele conheceu a jovem Mônica Johnsson Boran. Encantada, Mônica desfrutava ao lado de Peti a energia dos dias e o glamour das noites cariocas, onde eram tratados como realeza.

Eles se casaram e foram morar na Gávea. Peti trabalhava na oficina mecânica do pai, mas seu compromisso era com a praia. Mônica engravidou de Vitória em 1986. Saudável e parecida com o pai. Peti, que já era pai de Igor, filho da ex-integrante das Frenéticas Lidoka Martuscelli, comemorou a chegada da filha, mas continuou celebrando a vida. Na madrugada de 29 de agosto de 1987, após uma noite de festa, sofreu um acidente de moto e passou 40 dias em coma. As graves sequelas ofuscaram seu brilho de viver. Sem conseguir suportar a dor, Peti interrompeu precocemente sua vida no fatídico 7 de março de 1989, aos 32 anos.

A efemeridade de uma vida intensa terminou como a prece de Caetano: “Eu canto pra Deus proteger-te”. Que o espírito Aloha esteja em ti, Peti!

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Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi – o Pardhal

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